Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades 2026

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Blog do IFZ | 12/08/2026

O Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades 2026, publicado pelo Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, oferece um retrato amplo e, sobretudo, pouco complacente do Brasil. Seus dados mostram um país que avançou em diversas dimensões da vida social, mas que continua marcado por desigualdades profundas. Em 2025, a taxa de desocupação caiu para 5,6%, o rendimento médio real cresceu 5,3% e houve avanços em áreas como segurança alimentar, educação, saúde, acesso a serviços básicos e redução das emissões de gases de efeito estufa e do desmatamento.

O relatório ganha particular relevância por reunir esses avanços sem permitir que eles sejam confundidos com uma superação das desigualdades. Dos indicadores que puderam ser atualizados, 71% apresentaram melhora, enquanto 16% pioraram e 13% permaneceram estáveis. Entre os resultados positivos estão a redução da insegurança alimentar, da desnutrição infantil e entre idosos, do analfabetismo e dos homicídios entre jovens de 15 a 29 anos, além da expansão de diferentes níveis de escolarização e de melhorias em indicadores de saúde. São resultados concretos, que correspondem a mudanças concretas na vida de milhões de brasileiros.

Ao mesmo tempo, o relatório identifica movimentos na direção contrária. A concentração da renda aumentou, a desigualdade salarial entre homens e mulheres se agravou, a tributação permaneceu regressiva nas faixas mais altas de renda, o peso do aluguel tornou-se excessivo para parcela da população e aumentou a exposição de pessoas a áreas de risco geológico. A população negra continua sobrerrepresentada no sistema prisional e enfrenta desvantagens persistentes em diferentes dimensões da vida social. Em 2025, o rendimento médio do 1% mais rico alcançou 31,5 vezes o rendimento dos 50% mais pobres, embora a renda média do conjunto da população tenha aumentado.

É essa convivência entre avanço e desigualdade que dá ao relatório sua maior importância para o debate público. Seus indicadores mostram que melhorar as médias nacionais é necessário, mas não basta para saber se o desenvolvimento está alcançando a sociedade de maneira ampla. O Brasil pode reduzir o desemprego, elevar a renda, ampliar direitos e melhorar serviços públicos e, ainda assim, conservar distâncias que atravessam renda, raça, gênero e território. O relatório convida, portanto, a olhar para além dos resultados agregados e perguntar como os ganhos econômicos e sociais estão sendo distribuídos entre os brasileiros.

Sumário executivo

Os avanços sociais de 2025 e persistências das desigualdades estruturais no Brasil

Em 2025, o mercado de trabalho permaneceu aquecido, a taxa de desocupação caiu para 5,6% e o rendimento médio real cresceu 5,3% em relação ao ano anterior. A melhora das condições de ocupação e renda refletiu-se na redução da proporção de pessoas vivendo em domicílios com renda de até ¼ do salário mínimo e de até ½ do salário mínimo — indicadores amplamente utilizados para mensurar a vulnerabilidade socioeconômica, acompanhar a evolução da pobreza e orientar a focalização de políticas públicas de proteção social. Também foram observados avanços na segurança alimentar, na redução da desnutrição infantil e entre idosos, na queda do analfabetismo, na redução da taxa de homicídios registrados de jovens de 15 a 29 anos, e na ampliação do acesso à educação infantil e à escolarização no ensino médio e superior.

Apesar desses resultados positivos, o relatório mostra que as desigualdades continuam estruturando as oportunidades de vida no país. O crescimento econômico beneficiou diferentes grupos sociais, mas não foi suficiente para reduzir as disparidades históricas de renda, gênero, raça e território. Em alguns casos, as desigualdades aumentaram.

No mercado de trabalho, as mulheres continuam recebendo remunerações inferiores às dos homens, diferença que se acentuou em 2025. A situação das mulheres negras permanece a mais desfavorável: além de receberem pouco mais de 40% do rendimento dos homens não negros, continuam atuando nos segmentos de menor remuneração. Houve também um agravamento da concentração da renda, dado que o rendimento médio do 1% mais rico — que em 2024 era 30,2 vezes superior ao dos 50% mais pobres — passou a ser 31,5 vezes maior, evidenciando que os ganhos do crescimento econômico continuam sendo apropriados de forma altamente concentrada.

A permanência da regressividade da tributação da renda reforça esse quadro, uma vez que contribuintes de renda muito elevada continuam sujeitos a uma carga efetiva de imposto de renda inferior à incidente sobre parcela dos trabalhadores de renda intermediária. Essa distorção decorre da composição de seus rendimentos, predominantemente formada por lucros, dividendos e outras rendas do capital que recebem tratamento tributário favorecido. Deve-se registrar, porém, que mudanças recentes na tributação da renda, com a ampliação da isenção para trabalhadores que recebem até R$ 5 mil mensais e maior tributação sobre as rendas anuais superiores a R$ 600 mil, devem contribuir para a redução das desigualdades.

As desigualdades raciais permanecem presentes em praticamente todos os indicadores analisados. Na população negra, continua maior a incidência de pobreza, insegurança alimentar e analfabetismo e menor o acesso à educação infantil e ao ensino superior. Os jovens negros apresentam as mais baixas taxas de escolarização, enquanto entre os homens negros estão os maiores percentuais de mortes por causas evitáveis. A gravidez na adolescência também se mantém significativamente mais elevada entre mulheres negras. Esses resultados demonstram que os avanços observados no período recente ainda não foram suficientes para romper as desigualdades históricas que atravessam a sociedade brasileira. Em 2025, 56% da população brasileira se declarou negra; porém, na população prisional, negros e negras representavam 70% do total, o que significa que a participação de pessoas negras nas prisões era 24% superior à sua participação na população em geral.

As disparidades regionais seguem reproduzindo esse mesmo padrão. Norte e Nordeste concentram os maiores percentuais de pobreza, homicídios registrados de jovens, insegurança alimentar, analfabetismo, mortalidade infantil e gravidez na adolescência, além do menor acesso à creche. Em contraste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste apresentam, em geral, melhores indicadores de renda, educação e condições de vida. A persistência dessas discrepâncias mostra que o território continua sendo um importante fator de produção das desigualdades.

Em 2024, o país registrou expressiva redução das emissões de gases de efeito estufa e do desmatamento, resultado associado principalmente à diminuição das emissões decorrentes das mudanças no uso da terra e das florestas. Ao mesmo tempo, aumentou o número de pessoas vivendo em áreas de risco geológico, assim como o número de áreas classificadas como de alto e muito alto risco, demonstrando que milhões de brasileiros ainda estão expostos aos impactos das mudanças climáticas e da ocupação de áreas vulneráveis. O contraste entre a redução das emissões e a ampliação da população exposta aos riscos ambientais evidencia que a agenda climática brasileira precisa combinar ações de mitigação com políticas de adaptação e redução das desigualdades socioambientais.

O conjunto dos indicadores revela que o Brasil voltou a apresentar avanços sociais importantes, mas também confirma que a redução das desigualdades continua sendo o principal desafio para o desenvolvimento do país. Os resultados reforçam que crescimento econômico, geração de empregos e ampliação da renda, embora fundamentais, não são suficientes por si só para superar desigualdades estruturais construídas historicamente. Além de consolidar esses avanços já alcançados, é necessário intensificar o ritmo de redução das desigualdades, de modo a promover mudanças estruturais mais profundas. Para isso, é indispensável assegurar a continuidade, o aprofundamento e a ampliação da intencionalidade das políticas públicas voltadas à redução das desigualdades. Isso requer fortalecer os mecanismos de redistribuição da renda, ampliar o acesso a direitos e serviços públicos de qualidade e adotar estratégias capazes de promover maior igualdade de oportunidades entre grupos sociais e regiões do país.

Avanços recentes

  • Mercado de trabalho: menor taxa de desocupação da série recente.
  • Renda: crescimento do rendimento médio real e redução da pobreza monetária.
  • Segurança alimentar: diminuição da insegurança alimentar moderada e grave.
  • Educação: redução do analfabetismo e aumento da frequência em creches.
  • Meio ambiente: queda das emissões de gases de efeito estufa e do desmatamento.
  • Segurança pública: queda na taxa de homicídios registrados de jovens de 15 a 29 anos.

Desafios persistentes

  • Concentração da renda voltou a crescer.
  • A desigualdade salarial entre homens e mulheres aumentou.
  • A tributação da renda continua regressiva nas altas rendas.
  • A população negra permanece em situação desfavorável na maior parte dos indicadores.
  • Norte e Nordeste continuam concentrando os piores indicadores sociais.

Balanço dos indicadores

O conjunto de indicadores analisados pelo Observatório Brasileiro das Desigualdades mostra que o Brasil manteve, em 2025, uma trajetória de avanços sociais importantes, embora marcada pela persistência de desigualdades estruturais. Do total de indicadores possíveis de serem atualizados, 71% apresentaram melhora em relação ao período anterior, 16% registraram piora e 13% permaneceram praticamente estáveis. Os avanços concentraram-se principalmente no mercado de trabalho, na renda média, na redução da pobreza, na queda da taxa de homicídios registrados de jovens de 15 a 29 anos, na segurança alimentar, na educação, na saúde, no acesso aos serviços básicos, na redução das emissões de gases de efeito estufa e do desmatamento, além da ampliação da participação de mulheres e pessoas negras em espaços de representação institucional.

Por outro lado, os indicadores que apresentaram piora revelam que os principais mecanismos de reprodução das desigualdades permanecem ativos. A concentração da renda voltou a crescer, ampliando a distância entre os mais ricos e os mais pobres; o ônus excessivo com aluguel aumentou, agravando uma das principais dimensões do déficit habitacional; cresceu o número de pessoas vivendo em áreas de risco geológico; e a população negra continuou sobrerrepresentada no sistema prisional. Já os indicadores que permaneceram estáveis, como a escolarização líquida no ensino fundamental, a taxa de feminicídio, o acesso à internet e a progressividade da tributação da renda, evidenciam que alguns desafios exigem políticas mais consistentes para produzir mudanças significativas.

Em conjunto, os resultados mostram que o país avançou na ampliação das condições de vida da população, mas ainda encontra dificuldades para reduzir as desigualdades que estruturam a sociedade brasileira. O crescimento do emprego, da renda e do acesso a direitos foi acompanhado pela manutenção — e, em alguns casos, pelo agravamento — das disparidades de renda, raça, gênero, moradia e território. Esse contraste reforça que promover o desenvolvimento não significa apenas ampliar indicadores médios, mas garantir que seus benefícios sejam distribuídos de forma mais equitativa entre os diferentes grupos sociais e regiões do país.

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