A produção da fábula do agronegócio no Brasil: território, dependência e a disputa por outros futuros

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Blog do IFZ | 13/08/2026

Em A produção da fábula do agronegócio no Brasil: novas e velhas faces da dependência, Denise Elias examina uma das transformações mais profundas do território brasileiro nas últimas décadas. Publicado pela Letra Capital Editora em 2025 e finalista da 3ª edição do Prêmio Jabuti Acadêmico, em 2026, o livro reúne uma trajetória de pesquisa construída ao longo de décadas e oferece uma interpretação abrangente das relações entre agronegócio, território, urbanização, trabalho, natureza, alimentação e dependência.

Geógrafa de longa trajetória acadêmica, formada intelectualmente sob a influência de Milton Santos, Denise Elias acompanha as mudanças da agropecuária brasileira desde os anos 1970 e demonstra que a expansão do agronegócio ultrapassa largamente os limites das áreas de cultivo e criação. Ela alcança cidades, regiões, redes de circulação, instituições financeiras, sistemas de crédito, serviços especializados e estruturas de gestão. A transformação produtiva participa, assim, da reorganização do território brasileiro e modifica as relações entre campo e cidade.

Essa análise crítica constitui uma das contribuições centrais da obra. O agronegócio não é observado apenas como atividade econômica vinculada à produção de commodities, mas como um conjunto articulado de relações que envolve agroindústria, insumos, serviços, finanças, infraestrutura, tecnologia, circulação e gestão. Soja, milho, algodão, cana-de-açúcar, café, laranja, carnes e outros produtos destinados aos mercados nacionais e internacionais dependem dessas redes e, ao mesmo tempo, transformam os lugares onde elas se realizam.

As mudanças atingem também a organização urbana e regional. Cidades vinculadas à produção agrícola passam a desempenhar novas funções, concentrando comércio, serviços especializados, instituições financeiras e atividades de apoio à produção. Regiões inteiras adquirem especializações produtivas específicas, enquanto os mercados de trabalho e os fluxos de pessoas, mercadorias e capitais se reorganizam. A expansão do agronegócio, portanto, participa ativamente da urbanização e da reestruturação urbano-regional brasileira.

A partir dessa realidade, Denise Elias desenvolve o conceito de psicosfera do agronegócio, inspirado na elaboração teórica de Milton Santos. A autora investiga a produção de um imaginário no qual o setor aparece associado à prosperidade, eficiência, modernização, geração de empregos, sustentabilidade e capacidade de enfrentar a fome. A noção de fábula permite compreender como determinadas representações são produzidas e difundidas e como contribuem para legitimar uma determinada forma de organização econômica e territorial.

Os mitos associados ao agronegócio são examinados em relação às condições concretas de sua expansão. Entre eles estão a ideia de que o setor seria capaz de eliminar a fome, a associação automática entre sua expansão e sustentabilidade ambiental e a afirmação de que os agrotóxicos não produziriam danos à saúde humana ou ao meio ambiente. A análise articula essas representações a processos como concentração fundiária, mecanização, redução de postos de trabalho, avanço sobre territórios de povos tradicionais, degradação ambiental e diminuição da produção destinada à cesta básica.

A questão alimentar adquire, nesse contexto, uma dimensão territorial e política. A produção de commodities voltadas aos mercados externos pode coexistir com pobreza e desigualdade, enquanto a valorização das terras, a financeirização e a expansão de determinadas culturas alteram as condições de acesso ao território e aos alimentos. Denise Elias relaciona essas transformações à inserção subordinada do Brasil na divisão internacional do trabalho e identifica nelas manifestações contemporâneas de uma dependência histórica.

A questão fundiária ocupa lugar decisivo nessa interpretação. A expansão do agronegócio é relacionada a processos de concentração da propriedade da terra, elevação dos preços fundiários, financeirização, estrangeirização e conflitos pela apropriação de territórios e bens naturais. Nesse percurso, a autora mobiliza a expressão corrupção normativa, retomada de Guilherme Howes, para caracterizar processos nos quais práticas de apropriação e financeirização podem encontrar formas de legitimação institucional. Grilagem, concentração fundiária e redução da produção de alimentos da cesta básica aparecem, assim, articuladas a transformações econômicas e normativas que incidem sobre o território.

A análise é sustentada por um sólido repertório conceitual da Geografia de Milton Santos, com categorias como forma-conteúdo, formação socioespacial, psicosfera, urbanização corporativa fragmentada, fluidez do território, verticalidades, horizontalidades, regiões produtivas e rugosidades. Esses conceitos não funcionam como um repertório abstrato. Eles permitem observar como agentes, normas, técnicas, fluxos e materialidades se combinam em diferentes lugares e como processos econômicos de grande escala ganham formas específicas no território.

A trajetória intelectual de Denise Elias é inseparável dessa perspectiva. Sua tese de doutorado, defendida em 1996 no Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da Universidade de São Paulo, sob orientação de Milton Santos, deu origem ao livro Meio Técnico-científico-informacional e Urbanização na Região de Ribeirão Preto. Desde então, sua pesquisa se ampliou para as cidades médias, as regiões agrícolas e as metrópoles, incorporando progressivamente as relações entre produção, urbanização e organização territorial.

Um dos exemplos mais expressivos dessa abordagem está em Luiz Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia. A expansão das lavouras de soja acompanhou uma transformação urbana acelerada. A cidade passou a reunir condomínios de alto padrão, amplas vias comerciais e investimentos significativos, ao lado de bairros periféricos marcados pela insuficiência de infraestrutura. O caso evidencia como crescimento econômico e desigualdade socioespacial podem avançar simultaneamente em uma mesma cidade.

Essa dinâmica é aprofundada pelo conceito de urbanização corporativa fragmentada. As cidades vinculadas ao agronegócio não são apenas lugares de residência da população trabalhadora. Elas concentram atividades de comércio, serviços, gestão e financiamento necessárias ao funcionamento das cadeias produtivas. A expansão econômica amplia determinadas funções urbanas, mas seus efeitos são distribuídos de maneira desigual, produzindo espaços altamente equipados ao lado de áreas submetidas à precariedade.

Na primeira parte do livro, Denise Elias organiza a análise em torno dos pressupostos, agentes e processos que sustentam o agronegócio globalizado. Examina a formação da psicosfera, os mitos que a acompanham, a questão fundiária, a violência associada à apropriação de terras e bens naturais, as mudanças nos hábitos alimentares e os preços dos alimentos. Dedica atenção especial aos chamados nós do agronegócio, entre eles as relações entre Estado e agentes econômicos, a corrupção normativa, a concentração econômica e a criminalização dos movimentos sociais.

Na segunda parte, a investigação se volta para as regiões produtivas e as cidades do agronegócio. O foco recai sobre as relações entre produção, urbanização e regionalização. São examinadas, entre outras áreas, a região produtora de melão no Semiárido, formada por municípios do Ceará e do Rio Grande do Norte e fortemente orientada à exportação, e o Matopiba, abrangendo partes da Bahia, do Maranhão, do Piauí e do Tocantins, com expressiva produção de soja, milho e algodão.

O interesse por essas regiões é analítico e não apenas descritivo. Denise Elias procura compreender os mecanismos que produzem novas especializações territoriais e as relações que passam a organizar a vida das cidades. Para isso, reúne eixos de investigação relacionados à reestruturação produtiva da agropecuária, ao consumo produtivo, à composição industrial, às dinâmicas populacionais e do mercado de trabalho, à reestruturação urbana e às desigualdades socioespaciais intraurbanas.

O método acompanha a amplitude do objeto. Pesquisa bibliográfica e documental, levantamento de dados estatísticos, construção de séries históricas e trabalhos de campo realizados em diferentes regiões do país participam da construção da análise. Entrevistas semiestruturadas, conversas, seminários e interlocuções com pesquisadores de diferentes áreas complementam esse percurso. A combinação entre reflexão teórica e investigação empírica permite acompanhar tanto as grandes tendências quanto as formas particulares pelas quais elas se materializam nos lugares.

Essa aproximação entre diferentes escalas constitui uma das forças do livro. Uma transformação econômica que parece distante pode alterar profundamente a vida cotidiana. A expansão de determinada cultura agrícola pode modificar o preço da terra, reorganizar relações de trabalho, transformar uma cidade, pressionar territórios tradicionais, modificar fluxos populacionais e interferir nas condições de acesso aos alimentos. O território deixa de ser apenas cenário e passa a ocupar posição central na compreensão desses processos.

A interpretação de Denise Elias também reserva espaço às resistências. Movimentos camponeses, povos e comunidades tradicionais, coletoras de sementes e experiências de agroecologia aparecem como sujeitos de outras possibilidades de uso do território. A soberania alimentar, a diversidade, a reforma agrária popular e a construção de uma sociedade de direitos integram essa dimensão da obra, que amplia a reflexão para além do diagnóstico das desigualdades existentes.

A relação com Milton Santos atravessa o livro de maneira intelectual e afetiva. A dedicatória feita às vésperas do centenário de nascimento do geógrafo reforça a continuidade de uma tradição de pensamento que articula análise rigorosa, atenção aos processos territoriais e compromisso com a compreensão crítica do mundo contemporâneo. Denise Elias preserva, nessa trajetória, uma exigência fundamental de seu mestre: aproximar teoria e realidade concreta sem reduzir a complexidade dos processos estudados.

O livro é, em última instância, uma síntese amadurecida de pesquisas desenvolvidas ao longo de décadas. Sua contribuição está em reunir dimensões que frequentemente aparecem separadas. Alimentação, trabalho, terra, cidades, natureza, infraestrutura, finanças, Estado e mercado internacional passam a ser compreendidos como elementos de uma mesma realidade territorial.

Ao examinar a construção da fábula do agronegócio, Denise Elias oferece instrumentos para compreender as imagens que procuram definir o significado da produção agrícola para o país. A autora não simplifica as contradições do território brasileiro. Ao contrário, mostra como riqueza e desigualdade, modernização e precariedade, expansão econômica e conflito podem coexistir e se relacionar.

É nessa perspectiva que o livro amplia a reflexão sobre o Brasil contemporâneo. O território aparece como espaço de disputa entre projetos distintos de desenvolvimento, diferentes formas de apropriação da natureza e variadas concepções de alimentação, trabalho, cidade e vida coletiva. Ao tornar visíveis essas relações, Denise Elias convida o leitor a olhar para além das imagens consagradas sobre o agronegócio e a reconhecer que o futuro do país também será definido pelas escolhas feitas sobre a terra, os alimentos, as cidades e os modos de produzir e viver.

Mais do que uma análise sobre um setor econômico, a obra oferece uma leitura sobre o próprio Brasil e sobre as forças que disputam sua organização territorial. Seu valor está justamente nessa capacidade de articular pesquisa, teoria e realidade concreta, permitindo compreender as formas contemporâneas da dependência e, ao mesmo tempo, reconhecer que outros futuros permanecem em construção.

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