Saindo do Mapa da Fome: os caminhos da República Dominicana

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Thiago Lima | 22/08/2026

A República Dominicana acaba de alcançar um marco de grande relevância na luta contra a fome: o país saiu do Mapa da Fome e tornou-se, em 2026, o único país do mundo a alcançar esse resultado. Na América Latina e no Caribe, trata-se apenas do quinto país a atingir esse patamar, depois de Costa Rica, Guiana, Uruguai e Brasil.

Mais do que registrar esse resultado, porém, é importante compreender os caminhos que levaram a ele. Por sua atualidade, a experiência dominicana oferece uma oportunidade particularmente significativa para examinar as políticas adotadas, as estratégias implementadas e as condições econômicas que contribuíram para a redução da insegurança alimentar e para a superação da fome. Trata-se de uma trajetória recente, cujos resultados já podem ser observados e que, justamente por isso, merece ser conhecida e analisada.

Em uma região do planeta historicamente marcada pela fome e pela insegurança alimentar, é imperativo conhecermos o Plan Hambre Cero 2028, lançado pelo presidente Luis Abinader em 2024, e quais são as políticas (como a Supérate e o Comer es Primero) e as condições econômicas que convergiram para que a Subalimentação caísse de 21,3% (2004–06) para menos de 2,5% (2023–25), efetivando a saída estatística do Mapa.

É importante conhecermos, também, como o referido Plano propõe enfrentar desafios que ainda persistem, apesar de avanços importantes. Por exemplo, a Insegurança alimentar grave caiu de 24,3% (2014–16) para 16,4% (2023–25) e a Insegurança alimentar moderada ou grave recuou de 54,2% para 41,3% no mesmo período. Isso aponta algo que bem conhecemos no Brasil: a saída do Mapa da Fome está longe de significar a plena fruição do Direito Humano à Alimentação Adequada, mas, sem engano, trata-se de importante passo naquela direção.

A transição nutricional é um desafio com o qual os dominicanos também devem lidar, considerando um quadro específico: enquanto a obesidade adulta aumentou de 22,4% em 2012 para 30,8% em 2024, a obesidade infantil (até 5 anos) apresentou leve queda no mesmo período: de 7,7% a 7,5%.

Interessa observar também que a FAO registrou pela primeira vez, no SOFI de 2026, o índice de diversidade alimentar mínima entre crianças de 6–23 meses, e que a República Dominicana atingiu a marca de 65,8% das crianças com acesso a uma dieta minimamente diversificada em 2024. Este dado apresenta um desempenho mais de duas vezes superior ao mundial, que é 30,8%, e pouco acima da média caribenha, que é de 61,3%. O Brasil, por sua vez, registra 63,3% das crianças nessas condições.

O tema do acesso a dietas diversificadas nos leva um problema que é mundial: o alto custo das dietas saudáveis. Neste quesito, os dominicanos seguem a tendência global, pois o custo da dieta saudável aumentou (em termos de poder de paridade de compra) de 3,39 dólares para 5,60 dólares entre 2017 e 2025, um aumento relativo de 65,2% em oito anos. Este é um encarecimento superior ao da América Latina e Caribe (55,4%) e ao do Caribe exclusivamente (58,9%) no mesmo período.

Porém, custo e acessibilidade não são a mesma coisa. Embora o custo de uma dieta saudável tenha aumentado naquele país, a proporção da população incapaz de pagar por uma dieta saudável caiu de 26% para 16,2% entre 2017 e 2025, uma redução relativa de aproximadamente 37,7%. Destaque-se a forte melhora entre 2022 e 2025, com a descida de23,9% para 16,2%.

Por isso, compreender como a República Dominicana conseguiu equacionar essas tendências opostas é extremamente relevante: por que as famílias passaram a ter maior capacidade de pagar por uma alimentação saudável, mesmo com a inflação persistente de alimentos?

Alguns dados econômicos, mencionados pelo ministro José Ignacio Paliza, dão um panorama econômico: “Entre 2019 y 2025 los ingresos reales promedio crecieron un 15.2 %, acompañados por la tasa de desempleo abierto más baja registrada en nuestra historia y por importantes incrementos del salario mínimo en sectores como zonas francas y turismo. Como consecuencia, la pobreza disminuyó de 31% a 17%, mientras cerca de 300,000 dominicanos lograron salir de la pobreza extrema”.

Para concluir esta breve introdução cabe fazer mais uma referência ao ministro Paliza que, acerca da saída do Mapa, disse: “El hambre evoluciona, y las políticas públicas también deben hacerlo”.

Com a palavra, a República Dominicana.


A seguir, apresentamos a sequência de dados compilados pelo SOFI (State of Food Security and Nutrition in the World), organizada em tabela e gráficos, que ilustram a evolução da segurança alimentar e nutricional na República Dominicana. O resultado foi sustentado por políticas de fortalecimento da produção nacional de alimentos, pela expansão de programas sociais de proteção e por uma coordenação institucional eficaz.

Dados selecionados sobre o desempenho alimentar e nutricional da República Dominica, segundo o SOFI 2026
Fonte: SOFI 2026, com formatação de IA.
Custo de uma dieta saudável República Dominicana 2017-2025
Fonte: SOFI 2026, com formatação de IA.
População incapaz de acessar uma dieta saudável República Dominicana 2017-2025
Fonte: SOFI 2026, com formatação de IA.

Nota Explicativa: O que é o Mapa da Fome?

O Mapa da Fome (liderado pela FAO e feito em parceria com outras Organizações do sistema ONU) identifica os países nos quais a Prevalência de Subnutrição (Prevalence of Undernourishment – PoU) é igual ou superior a 2,5% da população.

Subnutrição (undernourishment) é entendida como a condição de um indivíduo cujo consumo habitual de alimentos é insuficiente para fornecer, em média, a quantidade de energia alimentar necessária para manter uma vida normal, ativa e saudável.

O indicador utilizado pela FAO para o Mapa da Fome é a Prevalência de Subnutrição (PoU), que corresponde a uma estimativa da proporção da população que se encontra em situação de subnutrição.

Como ele é calculado?

A FAO utiliza três parâmetros principais, explicados a seguir de maneira bastante simplificada:

1) A quantidade média de energia alimentar disponível para consumo humano

A FAO calcula a oferta de alimentos destinada à alimentação humana a partir, de forma simplificada, de:

Produção + Importações − Exportações ± Variação de estoques − Ração − Sementes − Uso industrial e outros usos − Perdas.

Esse cálculo é feito para diferentes produtos alimentares. As quantidades são então convertidas em energia alimentar, medida em quilocalorias (kcal), permitindo estimar a quantidade média de energia alimentar disponível por pessoa por dia.

Importante: esse dado representa a energia alimentar disponível em média para a população, e não uma medição direta de quanto cada indivíduo efetivamente come.

2) A necessidade mínima de energia alimentar

A FAO estima a Necessidade Mínima de Energia Alimentar (MDER, em inglês). Trata-se da quantidade mínima de energia necessária para um indivíduo, considerando características da população, como idade, sexo, tamanho corporal e nível de atividade física.

3) A distribuição do consumo de energia alimentar

A FAO estima também o grau de desigualdade na distribuição da energia alimentar entre a população. Isso é importante porque duas sociedades podem ter exatamente a mesma quantidade média de calorias disponíveis, mas distribuições muito diferentes entre seus habitantes.

O que a FAO faz com esses três parâmetros?

Com essas informações, a FAO utiliza um modelo estatístico para estimar a proporção da população cuja ingestão habitual de energia alimentar provavelmente está abaixo da necessidade mínima.

Portanto, o PoU é uma estimativa estatística, e não uma contagem individual de pessoas que vivem com fome.

Os dados são apresentados pela FAO para períodos de três anos, de modo a reduzir o efeito de variações anuais e produzir uma estimativa mais robusta da situação alimentar.

Assim, um país deixa de figurar no Mapa da Fome quando a estimativa de sua Prevalência de Subnutrição fica abaixo de 2,5% da população.

Diferença entre Prevalência da Subnutrição e Insegurança Alimentar

A PoU (Prevalence of Undernourishment) e a Escala de Experiência de Insegurança Alimentar (FIES – Food Insecurity Experience Scale) usada pela FAO medem dimensões diferentes da questão alimentar. A PoU é uma estimativa estatística da proporção da população cujo consumo habitual de energia alimentar é insuficiente para atender à necessidade mínima de energia para uma vida normal, ativa e saudável. Já a FIES é baseada nas experiências relatadas pelas próprias pessoas sobre seu acesso a alimentos, por meio de entrevista sobre situações como a incerteza quanto à possibilidade de obter alimentos, a redução da qualidade ou da quantidade da alimentação e, nos casos mais graves, períodos sem comer. Assim, a PoU se concentra na insuficiência crônica de energia alimentar, enquanto a FIES capta de forma mais ampla a falta de acesso a alimentos adequados que não necessariamente resultam em insuficiência calórica.