Em Roma, IFZ defende continuidade, participação social e financiamento para a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza

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Encontros realizados nos dias 14 e 16 de outubro destacaram a necessidade de transformar compromissos internacionais em políticas duradouras, com liderança dos países e recursos coordenados.

Blog do IFZ | 22/10/2026

ROMA – A continuidade da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e sua capacidade de produzir resultados concretos estiveram no centro de duas reuniões realizadas em Roma durante a Semana Mundial da Alimentação. No dia 14 de outubro, o encontro na Embaixada do Brasil, organizado pelas organizações que compartilham o assento rotativo da sociedade civil na Aliança (Instituto Fome Zero, World Vision International, Ação da Cidadania e Instituto Comida do Amanhã). No dia 16, a quarta reunião do Conselho de Campeões realizado na FAO, avaliou avanços e definiu prioridades da aliança para a próxima etapa.

Na opinião de José Graziano da Silva, Diretor do Instituto Fome Zero, a Aliança precisa consolidar-se como uma estrutura permanente de ação, sustentada pela liderança dos países, por financiamento previsível e pela participação efetiva da sociedade civil. Sua continuidade deve estar apoiada em instituições e parcerias capazes de atravessar mudanças de governo e de prioridades políticas.

Em um cenário de conflitos, choques climáticos e restrições à cooperação internacional, a Aliança precisa exigir compromissos que sobrevivam aos ciclos eleitorais e assegurem apoio continuado às políticas nacionais.

Nesse esforço, os bancos multilaterais de desenvolvimento – em especial o Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Banco Africano de Desenvolvimento e CAF, podem oferecer estabilidade institucional, investimentos de longo prazo e conexão com os planos nacionais. Mas o financiamento deve acompanhar as prioridades dos países e fortalecer suas capacidades públicas. Não se pode minimizar a importância de doações e recursos concessionais que são fundamentais, especialmente onde o endividamento já limita os investimentos sociais dos países mais pobres. Combater a fome não pode aprofundar a vulnerabilidade financeira. Cada parceria deve esclarecer o que será financiado, quem executará as ações e como os resultados serão acompanhados.

A participação da sociedade civil na Aliança deve contribuir para identificar exclusões, formular políticas e acompanhar sua execução, além da sua função de preservar conhecimentos e experiências.

A trajetória brasileira ilustra essa capacidade. Após a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA) e o enfraquecimento da governança da segurança alimentar, organizações, movimentos sociais e pesquisadores mantiveram vivas práticas e propostas. A retomada do compromisso governamental, dos investimentos e do diálogo social permitiu reconstruir políticas e contribuir para uma nova saída do Brasil do Mapa da Fome.

Essa experiência reforça que a participação social deve integrar a implementação desde o início, com capacidade de influenciar decisões e avaliar resultados. O assento compartilhado pela Ação da Cidadania, Comida do Amanhã, IFZ e WorldVision pode aproximar demandas nacionais, organizações e experiências comunitárias, contribuindo para a continuidade dessas políticas.

Na reunião da Alliança de 16 de outubro na FAO, o embaixador Saulo Ceolin, chefe da Coordenação-Geral de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério das Relações Exteriores e representante brasileiro na copresidência do Conselho, apresentou um balanço dos avanços e obstáculos.

Segundo Ceolin, 19 países já utilizam o processo da Aliança, e dez programas concluíram seus planos de implementação e chegaram à etapa de articulação de parcerias ou à construção de roteiros com os parceiros. O embaixador advertiu, entretanto, que as ofertas de conhecimento avançaram mais rapidamente que o financiamento. A escassez de doações iniciais, necessárias para demonstrar resultados e preparar a ampliação dos programas, continua sendo um entrave.

José Graziano, diretor-geral do IFZ
José Graziano, diretor-geral do IFZ
José Graziano, diretor-geral do IFZ; Kiko Afonso, CEO da Ação da Cidadania; e Dana Buzducea, líder global de Advocacy da World Vision
José Graziano, diretor-geral do IFZ; Kiko Afonso, CEO da Ação da Cidadania; e Dana Buzducea, líder global de Advocacy da World Vision

O próximo passo depende de maior envolvimento dos próprios membros, incluindo escritórios nacionais, embaixadas e instituições financiadoras. O Mecanismo de Apoio pode facilitar contatos e articular parceiros, mas as decisões sobre recursos e execução cabem às instituições participantes.

Ceolin destacou quatro encaminhamentos: intensificar o trabalho nos países; preparar a agenda e a renovação da governança para 2027; desenvolver arranjos colaborativos de financiamento; e mobilizar os membros para a campanha do segundo aniversário da Aliança, com lançamento de The Race to 2030 em 18 de novembro.

Essas decisões convergem com a defesa de Graziano de maior coordenação entre instituições e recursos. O quadro de financiamento colaborativo, cujo roteiro foi anunciado em 12 de outubro, em Bangkok, busca combinar doações, recursos nacionais e financiamento multilateral em torno dos mesmos programas.

Sem criar um novo fundo, utilizará mecanismos existentes para apoiar sua preparação e expansão. Uma primeira ferramenta já está operacional: uma área de proteção social na plataforma de cofinanciamento hospedada pelo Banco Mundial. Os primeiros testes estão previstos para 2027.

A Etiópia oferece um exemplo desse esforço. Conforme destacou Ceolin, 14 membros alinharam apoio ao Yelemat Tirufat Plus, com mais de US$ 100 milhões comprometidos. Voltado ao fortalecimento da agricultura familiar e à resiliência dos sistemas alimentares, o programa prepara sua implementação plena.

O país também se ofereceu para acolher o segundo encontro de líderes da Aliança à margem da COP32, em Adis Abeba, em 2027, abrindo uma oportunidade para aproximar as agendas de clima, proteção social e combate à fome.

Os encontros da Aliança em Roma reforçaram, assim, uma prioridade: conectar compromisso político, participação social e financiamento coordenado para transformar políticas comprovadas em resultados duradouros nos países.

A intervenção do IFZ terminou manifestando a esperança de que esta seja a última grande iniciativa global que a comunidade internacional precise lançar contra a fome e a pobreza, consolidando parcerias, recursos e mecanismos de responsabilização capazes de gerar resultados duradouros.