Relatório da Universidade das Nações Unidas sustenta que sistemas hídricos em diversas regiões do planeta já ultrapassaram limites irreversíveis de uso e reposição, configurando uma condição pós-crise marcada pela perda permanente de estoques naturais de água e pela necessidade de abandonar a lógica tradicional de gestão de crises.
Blog do IFZ | 21/01/2026
A Organização das Nações Unidas acaba de formalizar um diagnóstico que vinha sendo construído há anos pela comunidade científica e que agora ganha contornos conceituais mais definidos, com implicações políticas diretas. Segundo o relatório “Global Water Bankruptcy: Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era”, elaborado pelo United Nations University Institute for Water, Environment and Health (UNU-INWEH), o mundo entrou numa fase estruturalmente perigosa de escassez hídrica, reconhecida oficialmente como falência hídrica global.
Apresentado na sede da ONU, em Nova York, o documento não descreve um episódio isolado nem se limita a registrar mais um momento de estresse ambiental. O ponto central é outro. Em diversas regiões do planeta, sistemas hídricos ultrapassaram limites físicos e ecológicos que já não admitem reversão no curto ou médio prazo. Forma-se, assim, uma condição pós-crise, marcada pela perda permanente de estoques naturais de água e pela impossibilidade de retorno aos regimes hidrológicos que sustentaram sociedades, economias e ecossistemas ao longo do século XX.
Ao introduzir o conceito de falência hídrica, o relatório desloca o debate para além das categorias usuais de “escassez” ou “crise de água”. O estresse hídrico ainda pressupõe reversibilidade. A crise remete a choques agudos, em princípio superáveis. A falência hídrica, por sua vez, descreve um quadro no qual o uso continuado da água supera, de forma sistemática, a capacidade de reposição dos sistemas naturais. O acúmulo desse processo resulta na degradação irreversível de aquíferos, rios, lagos, zonas úmidas, solos e geleiras, que constituem o capital natural do ciclo hidrológico.
A metáfora econômica, utilizada com parcimônia ao longo do relatório, ajuda a dimensionar o problema. Durante décadas, as sociedades humanas não apenas consumiram toda a “renda anual” de água fornecida por chuvas, rios e neve, como também passaram a esgotar suas “poupanças”, acumuladas ao longo de milhares de anos em aquíferos profundos, geleiras e ecossistemas úmidos. Em muitos casos, esse patrimônio foi comprometido de maneira definitiva. Aquíferos compactados não recuperam sua capacidade original de armazenamento. Zonas úmidas drenadas perdem a função de regular cheias e secas. Geleiras desaparecidas não se recompõem em qualquer horizonte relevante para a vida humana.
Os dados reunidos no relatório são extensos e consistentes. Mais da metade dos grandes lagos do planeta perdeu volume desde o início da década de 1990, afetando diretamente cerca de um quarto da população mundial que depende desses sistemas. Aproximadamente 70% dos principais aquíferos apresentam tendência prolongada de declínio. Nas últimas cinco décadas, desapareceram cerca de 410 milhões de hectares de áreas úmidas naturais, uma extensão comparável à de toda a União Europeia. Em diversas regiões montanhosas, mais de 30% da massa glacial foi perdida desde 1970, com a perspectiva concreta de desaparecimento funcional de geleiras de baixa e média latitude nas próximas décadas.
Essa erosão silenciosa da base hídrica ocorre ao mesmo tempo em que cresce a dependência humana dessas reservas subterrâneas. Atualmente, cerca de metade da água utilizada para consumo doméstico no mundo provém de aquíferos, assim como mais de 40% da água destinada à irrigação. A agricultura, responsável por aproximadamente 70% das retiradas globais de água doce, ocupa posição central nesse processo. Milhões de agricultores tentam ampliar a produção de alimentos a partir de fontes cada vez mais escassas, degradadas ou poluídas, muitas vezes sem alternativas técnicas, econômicas ou institucionais viáveis.
As consequências humanas desse desequilíbrio já são amplas e profundamente desiguais. Quase três quartos da população mundial vivem em países classificados como hidricamente inseguros ou criticamente inseguros. Cerca de quatro bilhões de pessoas enfrentam escassez severa de água ao menos um mês por ano. Mais de dois bilhões ainda não dispõem de água potável gerida com segurança, enquanto 3,5 bilhões carecem de saneamento adequado. Em áreas urbanas e costeiras, a superexploração de aquíferos provoca subsidência do solo, afetando aproximadamente dois bilhões de pessoas e ampliando riscos de inundações, danos à infraestrutura e perdas econômicas persistentes.
O relatório chama atenção para o caráter interligado da falência hídrica. Sistemas de água não operam de forma isolada. Eles se conectam por meio do comércio de alimentos, das cadeias globais de produção, dos fluxos migratórios, dos mecanismos climáticos e das dependências geopolíticas. Quando a água deixa de sustentar a agricultura em uma região, os impactos se propagam por mercados internacionais, preços de alimentos, estabilidade política e segurança alimentar em outras partes do mundo. A falência hídrica, nesse sentido, não corresponde a uma simples soma de colapsos locais, mas a um risco sistêmico de escala global.
Algumas regiões ilustram com mais clareza esse quadro. No Oriente Médio e no Norte da África, combinam-se elevada pressão sobre recursos hídricos, vulnerabilidade climática, baixa produtividade agrícola, dessalinização intensiva em energia e contextos políticos complexos. Em partes do Sul da Ásia, a agricultura dependente de águas subterrâneas e a urbanização acelerada produziram quedas persistentes dos níveis freáticos e instabilidade do solo. No sudoeste estadunidense, o rio Colorado tornou-se um símbolo de promessas de uso da água feitas muito além do que o sistema é capaz de sustentar.
O relatório também adverte contra leituras baseadas apenas na aparência de seca ou abundância em determinado ano. Uma região pode atravessar períodos de cheias e, ainda assim, encontrar-se em falência se, no balanço de longo prazo, as retiradas superarem de modo contínuo a reposição. O critério decisivo não é visual nem episódico, mas contábil, ecológico e temporal.
Outro eixo central da análise é a dimensão ética e política do problema. Os custos da degradação recaem de forma desproporcional sobre agricultores familiares, povos indígenas, populações urbanas de baixa renda, mulheres e jovens, enquanto os benefícios do uso excessivo da água historicamente se concentraram em grupos mais poderosos. As escolhas feitas pelos Estados para lidar com essa condição terão efeitos diretos sobre a coesão social, a estabilidade política e as possibilidades de cooperação internacional nas próximas décadas.
Diante desse cenário, o relatório sustenta que a agenda global da água, ainda fortemente centrada em abastecimento, saneamento e ganhos incrementais de eficiência, tornou-se inadequada para a realidade atual. Defende-se uma mudança de abordagem. Em lugar da gestão de crises, torna-se necessário adotar uma lógica de gestão da falência, orientada a impedir danos adicionais irreversíveis, reequilibrar direitos e expectativas dentro de capacidades já degradadas, transformar setores intensivos em água e apoiar transições justas para comunidades cujos modos de vida precisarão mudar.
Essa redefinição reposiciona a água como elemento central das agendas climática, de biodiversidade e de combate à desertificação. Investimentos voltados à recuperação possível de sistemas hídricos, à proteção do capital natural remanescente e ao uso responsável da água produzem efeitos diretos sobre a mitigação das mudanças climáticas, a segurança alimentar, a preservação de ecossistemas e a redução de conflitos.
O relatório aponta marcos próximos como oportunidades relevantes para essa inflexão. As Conferências da ONU sobre Água de 2026 e 2028, o encerramento da Década de Ação pela Água e o prazo de 2030 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável oferecem espaços institucionais para reconhecer formalmente a falência hídrica global e redesenhar políticas públicas à altura do desafio.
Apesar da gravidade do diagnóstico, o texto evita o tom de desalento. Reconhecer a falência não significa abdicar da ação, mas abandonar a expectativa de retorno a um passado hidrológico que já não existe. Implica aceitar limites, redistribuir responsabilidades e construir formas mais prudentes e duráveis de convivência com a água disponível. Quanto mais esse reconhecimento for adiado, maior será o passivo ambiental, social e político acumulado.
A mensagem central do relatório é direta. A água deixou de ser apenas um recurso sob pressão e passou a ocupar posição decisiva para a estabilidade global. Tratar essa realidade com rigor científico e sensibilidade social tornou-se condição essencial para proteger vidas, economias e ecossistemas em um planeta que já opera além de seus próprios limites hidrológicos.
Baixe aqui o relatório “Global Water Bankruptcy: Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era”, produzido pelo Instituto da Universidade das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde (UNU-INWEH).
Global Water Bankruptcy: Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era. United Nations University Institute for Water, Environment and Health (UNU-INWEH). Richmond Hill, Ontario, Canadá. DOI: 10.53328/INR26KAM001.
Baixe aqui o artigo de referência “Water Bankruptcy: The Formal Definition”.
MADANI, K. (2026). Water Bankruptcy: The Formal Definition. Water Resources Management, v. 40, n. 78. DOI: 10.1007/s11269-025-04484-0
