Por Anwarul K. Chowdhury no IPS News| 03/02/2026
NOVA YORK, 3 de fevereiro de 2026 (IPS) — Em fevereiro de 2025, há exatamente um ano, o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, iniciou sua coletiva com a imprensa declarando: “Quero começar expressando minha profunda preocupação com as informações recebidas nas últimas 48 horas pelas agências da ONU, bem como por muitas organizações humanitárias e de desenvolvimento, sobre cortes severos no financiamento por parte dos Estados Unidos”. Em seguida, advertiu que “as consequências serão especialmente devastadoras para as populações vulneráveis em todo o mundo”.
Iniciativa UN80 — reforma ou pressão?
Tentou-se adiar essa crise orçamentária por meio do lançamento de uma agenda de reformas de fachada, impulsionada tanto pelo aniversário da organização quanto pelo pânico gerado pela crise de liquidez — a chamada Iniciativa UN80. Essas reformas estruturais e programáticas, há muito necessárias no sistema das Nações Unidas, figuram na agenda de pelo menos os últimos quatro secretários-gerais, mas sem produzir impacto significativo, à exceção de mudanças de siglas, expansão de mandatos, ajustes estruturais e, mais recentemente, realocação de pessoal.
Um sinal de alerta para o colapso financeiro
No final de janeiro deste ano, o secretário-geral voltou a afirmar, em carta dirigida a todos os Estados-membros da ONU, que os recursos destinados ao orçamento operacional regular da organização poderiam se esgotar em julho, o que afetaria drasticamente suas operações. Ele também apelou por uma reformulação profunda das regras financeiras da ONU, a fim de evitar um “colapso financeiro iminente”.
Por que pedir agora aos Estados-membros que adotem medidas concretas? Por que não em fevereiro de 2025, quando o próprio secretário-geral soou o alarme?
Isso me remete à conhecida fábula de Esopo sobre o menino que gritava lobo.
Lamentar o poder limitado — sem poder, sem dinheiro
Em ocasiões anteriores, o secretário-geral Guterres declarou à imprensa que “é absolutamente verdade que o secretário-geral das Nações Unidas dispõe de um poder muito limitado e que também é absolutamente verdade que ele tem pouquíssima capacidade de mobilizar recursos financeiros. Portanto, sem poder e sem dinheiro”.
Essa é a realidade enfrentada por todo secretário-geral e da qual todos têm plena consciência. Trata-se também de algo amplamente conhecido por aqueles que acompanham regularmente as Nações Unidas e compreendem profundamente a complexidade funcional do maior aparato multilateral do mundo.
Por que, então, essa realidade só vem à tona e ganha atenção pública quando a liderança da ONU falha no cumprimento das responsabilidades que lhe foram atribuídas?
Acredito firmemente que esse “poder muito limitado”, nos termos utilizados pelo próprio secretário-geral, deveria ser destacado com maior frequência, a fim de evitar expectativas desnecessárias e indevidas por parte da comunidade internacional em relação à ONU e à sua alta liderança. Até onde sei, nenhum secretário-geral apontou essas limitações durante sua campanha para o cargo ou ao assumir a função.
O atual secretário-geral Guterres não é exceção. Ele teria sido mais realista e factual se tivesse apontado essas limitações — mais apropriadamente definidas como obstáculos — ao assumir o cargo em 2017, e não apenas em 2026, após quase nove anos à frente da organização. Essa fragilidade operacional inerente e a limitação do principal diplomata do mundo sempre estiveram presentes.
Controlar ou abandonar?
Alguns especulam que os Estados Unidos estejam utilizando seu peso financeiro e sua capacidade de pressão para ameaçar o colapso das Nações Unidas.
Os Estados Unidos sempre fizeram uso tanto de seu expressivo poder de veto quanto de sua contribuição financeira, que corresponde a quase um quarto do orçamento das operações do sistema ONU. Essa é uma realidade que deve ser permanentemente considerada pela liderança da organização e por seus Estados-membros, a menos que a Carta das Nações Unidas seja modificada para criar uma instituição verdadeiramente mais democrática.
Há muito tempo, os Estados Unidos recorrem a arranjos de pagamento parcial de suas contribuições legalmente devidas, com pleno conhecimento e aceitação do secretário-geral, de modo a evitar a perda do direito de voto e, ao mesmo tempo, extrair seu quinhão de vantagens políticas a cada pagamento parcelado realizado.
Acredito que os Estados Unidos pretendem utilizar o organismo multilateral à sua maneira, exercendo controle, e não abandonando-o.
Uma mulher no comando da ONU
Nesse contexto, reitero que, após oito décadas de existência e a escolha sucessiva de nove homens para ocupar o posto mais elevado da diplomacia internacional, cabe às Nações Unidas demonstrar sensatez e visão política ao eleger uma mulher como próxima secretária-geral em 2026, quando será escolhido o sucessor do atual titular.
É necessária uma iniciativa de liderança criativa, não burocrática e proativa, capaz de promover mudanças reais e de evitar a recorrente síndrome do “gritar lobo”, que acaba por perturbar o funcionamento e as atividades do organismo multilateral mais universal do mundo, cujo mandato é atuar no melhor interesse da humanidade.
O embaixador Anwarul K. Chowdhury é ex-subsecretário-geral da ONU, ex-representante permanente de Bangladesh nas Nações Unidas, ex-presidente do Comitê Administrativo e Orçamentário da Assembleia Geral da ONU, ex-conselheiro especial sênior do presidente da Assembleia Geral, ex-presidente do Conselho de Segurança da ONU e vice-presidente, por dois mandatos, do Comitê de Programação e Coordenação das Nações Unidas.
Publicado originalmente pela IPS News Agency
https://www.ipsnews.net/2026/02/is-it-the-budgetary-crisis-or-leadership-crisis-facing-the-united-nations-or-both/
