Brasil ainda convive com insegurança alimentar apesar do sucesso do agro

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AgriBrasilis | 07/04/2026

AgriBrasilis – Como explicar a contradição entre o sucesso do agro e a insegurança alimentar no Brasil?

José Graziano – Essa aparente contradição só pode ser compreendida quando se reconhece que o problema não é a falta de alimentos, mas o acesso a eles. Parte significativa da população não tem renda suficiente para comprar os alimentos de que necessita. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) calcula que uma cesta básica de alimentos saudáveis, que inclua frutas, verduras e legumes, está fora do alcance de quase um quarto dos brasileiros. A fome decorre, sobretudo, do baixo poder aquisitivo da parcela mais pobre, resultado da desigualdade de renda, do desemprego, da precarização do trabalho e do encarecimento do custo de vida.

É importante evitar uma leitura simplista que oponha agronegócio e agricultura familiar, como se a questão fosse apenas a disputa entre dois modelos de produção. O agronegócio tem papel importante na economia brasileira, nas exportações e em várias cadeias produtivas; a agricultura familiar, nos hortifrutigranjeiros e nos produtos regionais e locais. Ainda assim, isso não garante segurança alimentar. Segurança alimentar exige melhor renda, acesso ao mercado interno, regulação pública por meio de estoques e políticas sociais consistentes.

A agricultura familiar merece atenção especial não por representar “o lado oposto” do agro, mas porque desempenha função estratégica no abastecimento interno e na oferta de alimentos diversificados, sustentando economias locais. Ao mesmo tempo, é uma das mais vulneráveis aos choques de preços, aos eventos climáticos extremos e ao aumento dos custos de produção. Por isso, políticas como o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos e o Programa Nacional de Alimentação Escolar mostram que o enfrentamento da insegurança alimentar depende menos de produzir mais e mais de garantir acesso, renda e proteção para produtores e consumidores.

AgriBrasilis – Por que a Amazônia é o local com maior concentração de fome?

José Graziano – A Amazônia concentra a maior incidência de fome no Brasil porque nela se acumulam, de forma mais intensa, várias desigualdades ao mesmo tempo. Não se trata de falta de natureza, de água ou de potencial produtivo. A contradição amazônica está justamente em reunir enorme riqueza ambiental e conviver com dificuldades de acesso regular a alimentos saudáveis.

A região sofre com isolamento territorial, precariedade de infraestrutura e forte dependência do transporte fluvial. Quando os rios secam, como ocorreu de forma dramática em 2023 e 2024, comunidades ficam mais isoladas, o abastecimento é interrompido, os preços sobem e a insegurança alimentar se agrava. Na Amazônia, a fome é também um problema logístico e territorial, agravado pelas mudanças climáticas.

Mesmo tendo peso central nas emissões por desmatamento e mudanças no uso da terra, a Amazônia participa pouco do PIB nacional e reproduz um padrão baseado em monoculturas, pecuária extensiva e exploração predatória. Esse modelo não fortalece a produção diversificada de alimentos para as populações locais nem distribui renda de forma a garantir acesso a uma cesta básica adequada.

A fome atinge mais duramente povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, agricultores familiares, mulheres, populações pretas e pardas e famílias com menor escolaridade e renda. São grupos historicamente marginalizados, com menor acesso a políticas públicas, mercados, crédito e serviços.

A região vem passando por uma urbanização acelerada, associada ao desmatamento e ao avanço de garimpos. Em muitas áreas, alimentos tradicionais, como peixe, frutas e mandioca, vêm sendo substituídos por ultraprocessados, pobres em nutrientes. Combater a fome na Amazônia exige mais do que assistência emergencial: requer justiça territorial, fortalecimento da agricultura familiar, apoio aos sistemas alimentares tradicionais e adaptação climática.

AgriBrasilis – Que políticas públicas tiveram maior impacto no combate à insegurança alimentar?

José Graziano – Foram aquelas capazes de atuar simultaneamente sobre renda, acesso aos alimentos e coordenação institucional. A saída do Brasil do Mapa da Fome, em 2024, resultou da combinação entre valorização do salário mínimo, geração de empregos, Bolsa Família e políticas de Segurança Alimentar e Nutricional.

A elevação do salário mínimo, acompanhada da geração de melhores empregos, teve papel central. O Bolsa Família ampliou de forma imediata a capacidade de compra das famílias mais pobres. A transferência de renda segue sendo ferramenta essencial para reduzir a fome e estabilizar o consumo alimentar, reforçada pela renda do trabalho.

Outro eixo fundamental foi o fortalecimento do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Essas políticas aproximam produção e consumo, fortalecem a agricultura familiar e ampliam a oferta de alimentos saudáveis. No caso do PAA, o impacto é duplo: combate a fome nas cidades e sustenta a renda no campo.

A base desse arranjo está no Programa Fome Zero, concebido no Instituto Cidadania e implementado a partir de 2003. Seu mérito foi dar escala nacional a iniciativas já existentes — como alimentação escolar, compras públicas, apoio à agricultura familiar e bancos de alimentos — articulando-as em uma visão integrada de Segurança Alimentar e Nutricional, combinada com políticas de renda e emprego.

Esses resultados dependem de institucionalidade. A reativação do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN), do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e da Câmara Interministerial (CAISAN) foi decisiva para recolocar a fome no centro da ação do Estado. A lição é clara: quando esse sistema é desmontado, a fome volta; quando é fortalecido, a segurança alimentar avança.

AgriBrasilis – Qual é o papel da agricultura familiar?

José Graziano – A agricultura familiar tem papel decisivo na segurança alimentar por sua contribuição à oferta de alimentos diversificados e saudáveis e à vitalidade econômica dos territórios rurais. Sua importância não está apenas no volume produzido, mas na forma como se insere no sistema alimentar.

Ela sustenta a produção de alimentos do cotidiano da população, especialmente frutas, verduras e legumes, e ajuda a estruturar circuitos curtos de abastecimento, fortalecendo economias locais. Também gera trabalho, fixa população no campo e preserva conhecimentos produtivos e alimentares.

Ao mesmo tempo, é particularmente vulnerável a choques econômicos e climáticos. Altas nos preços de insumos e transporte, além de eventos extremos, afetam mais os pequenos produtores. Por isso, seu fortalecimento exige políticas públicas com crédito, assistência técnica, comercialização, seguro e proteção social.

AgriBrasilis – O Brasil tem condições de atingir as metas de redução da insegurança alimentar?

José Graziano – Sim, porque já demonstrou que isso é possível ao combinar crescimento do emprego, valorização da renda e políticas públicas consistentes. A saída do Mapa da Fome, segundo o SOFI 2025, indica que a Prevalência de Subalimentação caiu para menos de 2,5% da população no triênio 2022–2024.

Isso não significa que o problema esteja resolvido. Cerca de 8 milhões de brasileiros ainda vivem em insegurança alimentar grave, e 24% da população não consegue pagar por uma alimentação saudável — aproximadamente 50 milhões de pessoas.

O país enfrenta a dupla carga da má nutrição: menos fome extrema, mas mais sobrepeso e obesidade. O avanço contra a fome não foi acompanhado por melhora equivalente na qualidade da alimentação, com piora em indicadores, especialmente na infância.

O Brasil pode avançar, mas isso exige ir além da saída do Mapa da Fome: consolidar a Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) como política de Estado, fortalecer o SISAN, ampliar a renda, apoiar a agricultura familiar e enfrentar o custo da alimentação saudável e a expansão dos ultraprocessados.

AgriBrasilis – Como evitar que o país volte ao Mapa da Fome?

José Graziano – A fome retorna rapidamente quando as políticas públicas são desmontadas.

Também é preciso enfrentar a nova face da má nutrição. O brasileiro está comendo cada vez pior, com aumento dos ultraprocessados na dieta em todas as classes sociais. Evitar o retrocesso exige baratear alimentos saudáveis, tributar bebidas açucaradas e ultraprocessados, ampliar a rotulagem frontal, restringir a publicidade infantil e fortalecer a educação alimentar.

Sair do Mapa da Fome não basta. É preciso garantir que o país não volte a ele com mudanças de governo. Isso exige transformar a Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) em política de Estado, com continuidade institucional, orçamento estável, coordenação entre União, estados e municípios e participação social por meio do Consea e da CAISAN.

O caminho é institucionalizar o legado do Fome Zero: proteger a renda, fortalecer o SISAN, apoiar a agricultura familiar e tratar a alimentação adequada e saudável como direito permanente.

Publicado originalmente no AgroBrasilis
https://agribrasilis.com/2026/04/07/brasil-ainda-convive-com-inseguranca-alimentar-apesar-do-sucesso-do-agro/