Agroexportação, preços e desigualdade: estudo questiona bases do modelo agrícola brasileiro
Blog do IFZ | 09/04/2026
Estudo lançado pela Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA) em parceria com a Fundação Friedrich Ebert (FES Brasil) propõe uma leitura cuidadosa sobre o papel do agronegócio na economia nacional. Assinado por Yamila Goldfarb e Marco Mitidiero Junior, o relatório “Agro, um bom negócio para o Brasil?” reúne dados econômicos, fiscais e sociais para examinar os efeitos do modelo agroexportador sobre a vida cotidiana do país.
A análise parte de um contraste evidente. De um lado, o setor é frequentemente apresentado como sustentáculo da balança comercial e símbolo de eficiência produtiva. De outro, os dados reunidos indicam que essa centralidade convive com fragilidades persistentes na segurança alimentar, na distribuição de renda e no desenvolvimento territorial.
Segundo o estudo, o padrão dominante de produção agrícola no Brasil está orientado sobretudo para commodities destinadas ao mercado externo. Esse direcionamento, embora gere superávits comerciais, não se traduz automaticamente em benefícios amplos para a sociedade. Ao contrário, tende a concentrar renda, pressionar preços internos e limitar a diversificação produtiva.
Crédito abundante, alimentos escassos
Um dos eixos centrais da pesquisa recai sobre a política de crédito rural. O levantamento mostra que a maior parte dos recursos públicos é direcionada a grandes produtores vinculados às monoculturas de exportação. Essa distribuição desigual reforça um padrão descrito pelos autores como um “Robin Hood às avessas”, no qual o Estado transfere recursos para segmentos já consolidados .
Enquanto isso, a agricultura familiar — responsável por parcela significativa dos alimentos consumidos internamente — enfrenta restrições de acesso a financiamento. O resultado é uma estrutura produtiva que privilegia ganhos externos e reduz a capacidade de abastecimento do mercado doméstico.
Essa tendência se expressa na própria configuração das lavouras. Dados reunidos no estudo indicam que, entre 2007 e 2022, a área plantada de arroz caiu cerca de 44% e a de feijão encolheu 32%, ao passo que culturas voltadas à exportação, como soja e milho, avançaram de forma acelerada . A mudança na paisagem agrícola ajuda a compreender por que alimentos básicos se tornam mais sensíveis a oscilações de preço.
Incentivos fiscais e baixa contrapartida
Outro ponto de destaque está na política tributária. O relatório estima que, entre janeiro de 2024 e fevereiro de 2025, os benefícios fiscais federais destinados ao agronegócio alcançaram R$ 171,2 bilhões, o equivalente a 43% do total concedido no período . Parte significativa desses incentivos envolve isenções para exportação, reduções de impostos e regimes especiais de tributação.
Os autores observam que esse conjunto de benefícios não se converte, na mesma proporção, em arrecadação, empregos ou dinamização econômica local. Ao contrário, contribui para a concentração de renda e, em muitos casos, favorece grandes empresas exportadoras, incluindo tradings internacionais .
Preços dos alimentos sob pressão
O estudo também se detém sobre a formação dos preços dos alimentos. A integração do agronegócio brasileiro aos mercados globais faz com que commodities como soja, milho e carne tenham seus valores definidos em bolsas internacionais. Essa dinâmica transfere para o consumidor doméstico os efeitos de variações cambiais, especulação financeira e crises externas .
Além disso, o aumento dos custos de produção — impulsionado pela dependência de insumos importados, como fertilizantes e agrotóxicos — repercute diretamente nos preços finais. O encarecimento da comida, portanto, não se explica apenas por fatores climáticos ou sazonais, mas por uma estrutura econômica que prioriza a exportação.
Desenvolvimento desigual nos territórios
A promessa de prosperidade regional associada ao avanço do agronegócio também é examinada com atenção. Ao cruzar indicadores socioeconômicos, o estudo identifica uma correlação entre maior concentração fundiária e piores resultados em renda e desenvolvimento municipal .
Em estados com forte expansão das monoculturas, como Mato Grosso, o crescimento do Produto Interno Bruto convive com níveis expressivos de insegurança alimentar. Levantamentos citados apontam que mais de 32% da população do estado enfrenta algum grau de dificuldade de acesso à alimentação .
Essa coexistência de riqueza e privação revela limites do modelo atual, que concentra ganhos e distribui de forma desigual seus efeitos sociais.
Especialização exportadora e dependência
Outro aspecto analisado é a crescente especialização da pauta exportadora brasileira em produtos primários. Em 2005, os três principais itens exportados representavam menos de 15% do total. Em 2024, essa participação se aproxima de 40%, com destaque para soja, minério de ferro e petróleo .
Para os autores, essa concentração reduz a complexidade da economia e amplia a dependência externa. Mesmo com superávits comerciais, o país mantém déficits recorrentes em transações correntes, resultado da importação de tecnologia e da remessa de lucros ao exterior .
Um debate sobre o futuro
Ao reunir esses elementos, o estudo sustenta que o agronegócio, tal como estruturado hoje, representa um modelo economicamente eficiente para segmentos específicos, mas insuficiente para enfrentar desafios amplos como fome, desigualdade e sustentabilidade.
A publicação não propõe a eliminação do setor exportador, mas defende a necessidade de reequilibrar as políticas públicas. Entre as direções sugeridas estão o fortalecimento da agricultura familiar, a diversificação produtiva, a revisão dos incentivos fiscais e o avanço de políticas de reforma agrária.
Mais do que uma crítica isolada, o relatório convida a um exame atento das escolhas econômicas que moldam o campo brasileiro. Ao deslocar o foco do volume exportado para a qualidade do desenvolvimento, o debate ganha densidade e se aproxima das condições concretas de vida da população.
Baixe aqui o estudo “Agro, um bom negócio para o Brasil?“
