Tem Veneno Nesse Pacote – Volume 4 alerta para agrotóxicos em ultraprocessados destinados a bebês e crianças

  • Tempo de leitura:5 minutos de leitura

Blog do IFZ | 19/06/2026

A quarta edição da cartilha Tem Veneno Nesse Pacote amplia uma investigação que, desde 2021, acompanha a presença de resíduos de agrotóxicos em alimentos ultraprocessados vendidos no Brasil. Desta vez, o foco recai sobre um grupo especialmente sensível: bebês e crianças pequenas. O estudo apresenta um panorama preocupante ao demonstrar que produtos comercializados como aliados da nutrição infantil também podem transportar substâncias químicas associadas ao modelo agrícola baseado no uso intensivo de agrotóxicos.

Foram analisadas doze amostras de quatro categorias amplamente presentes nas prateleiras dos supermercados: cereais infantis, compostos lácteos, engrossantes e fórmulas infantis de seguimento destinadas a crianças entre seis e doze meses. A pesquisa empregou um método capaz de identificar 653 resíduos diferentes de agrotóxicos e foi realizada por laboratório acreditado pelos órgãos oficiais de controle.

Os resultados confirmam que a contaminação permanece uma realidade. Cinco dos doze produtos avaliados apresentaram resíduos de agrotóxicos, enquanto os engrossantes concentraram o maior número de substâncias detectadas. Pela primeira vez na série de pesquisas, também foram encontrados resíduos de insumos farmacêuticos ativos e de sanitizantes, compostos cuja presença em alimentos não é considerada esperada quando os processos industriais seguem corretamente as normas de higienização.

Entre os produtos analisados, o Mingau de Multicereais Nutribom, da Nutrimental, apresentou sete substâncias diferentes, incluindo glifosato, glufosinato, bifentrina, deltametrina, pirimifós metílico, tebuconazol, triciclazol e o aditivo butóxido de piperonila. O Cereal Infantil Mucilon Milho, da Nestlé, apareceu em seguida, com resíduos de glifosato, glufosinato, pirimifós metílico e butóxido de piperonila. Compostos lácteos das marcas Nestlé e Piracanjuba também registraram resíduos de diferentes substâncias, entre elas fipronil, fluazuron e sanitizantes da classe dos cloretos de benzalcônio.

Embora parte dos produtos não tenha apresentado resíduos detectáveis no lote analisado, a própria pesquisa destaca que um resultado negativo não significa ausência permanente de contaminação. Como a origem das matérias-primas varia conforme safra, fornecedor e lote de produção, um mesmo alimento pode apresentar resultados distintos em análises futuras. Em contrapartida, um resultado positivo comprova que aquela contaminação efetivamente ocorreu.

Primeiros alimentos, primeiros riscos

Além da identificação dos resíduos químicos, a cartilha dedica atenção à crescente presença dos ultraprocessados na alimentação infantil. O documento lembra que o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos recomenda aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade e alimentação complementar baseada em alimentos in natura e minimamente processados, desaconselhando a oferta de ultraprocessados antes dos dois anos.

Apesar dessas orientações, a realidade brasileira segue outro caminho. Grande parte das crianças consome produtos ultraprocessados ainda nos primeiros anos de vida, cenário favorecido pela publicidade intensa, pela praticidade oferecida pelas embalagens e pelas dificuldades enfrentadas por famílias que convivem com jornadas extensas de trabalho, insegurança alimentar e ausência de políticas públicas suficientes para apoiar a amamentação.

A pesquisa argumenta que esse contexto cria um mercado altamente lucrativo, no qual fórmulas, cereais e engrossantes são apresentados como soluções nutricionais completas, ainda que muitos deles sejam produtos ultraprocessados cuja utilização, salvo situações específicas no caso das fórmulas infantis, não é recomendada para uma alimentação saudável.

Um vazio regulatório que permanece

Um dos pontos centrais do relatório é a ausência de regulamentação específica para resíduos de agrotóxicos em alimentos ultraprocessados. Enquanto frutas, cereais e outros alimentos in natura ou minimamente processados são monitorados pelo Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos, produtos industrializados destinados à primeira infância permanecem fora desse acompanhamento sistemático.

Na avaliação dos autores, essa lacuna cria uma falsa percepção de segurança sanitária. Sem parâmetros próprios para esses alimentos, a presença de resíduos deixa de ser objeto de monitoramento contínuo justamente em produtos direcionados a uma fase do desenvolvimento humano marcada por maior vulnerabilidade biológica.

Por isso, a cartilha defende a criação de limites máximos específicos para ultraprocessados destinados a bebês e crianças pequenas, a inclusão desses produtos no monitoramento oficial da Anvisa, a realização de avaliações periódicas transparentes e a implementação efetiva do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos, instituído em 2025.

Um debate sobre alimentação, saúde e direitos

Mais do que apresentar resultados laboratoriais, o quarto volume de Tem Veneno Nesse Pacote amplia a discussão sobre o modelo alimentar contemporâneo e seus impactos sobre a infância. O estudo sustenta que proteger a alimentação dos primeiros anos de vida exige políticas públicas capazes de fortalecer o aleitamento materno, ampliar o acesso a alimentos frescos e reduzir a dependência de produtos ultraprocessados.

Ao reunir evidências científicas, dados de consumo e análises laboratoriais, a publicação reforça a necessidade de maior transparência sobre a composição dos alimentos infantis e de uma atuação regulatória compatível com a importância dessa etapa do desenvolvimento. Em um cenário no qual a publicidade promete praticidade e nutrição, a pesquisa convida a sociedade a olhar com mais atenção para aquilo que chega às primeiras colheres, mamadeiras e refeições das crianças brasileiras.

Baixe aqui a cartilha “Tem veneno nesse pacote Vol 4

Os três primeiros volumes da cartilha “Tem veneno nesse pacote” estão disponíveis para download em https://ifz.org.br/tem-veneno-nesse-pacote-agrotoxicos-nos-alimentos-ultraprocessados/