Blog do IFZ | 14/07/2026
Com apenas quatro anos restantes para o prazo da Agenda 2030, a comunidade internacional dedicada à segurança alimentar e à nutrição enfrenta um momento decisivo. É essa a principal mensagem do relatório “Da Fragmentação ao Foco: uma Agenda Compartilhada para o ODS 2 na reta final até 2030” (From Fragmentation to Focus: A Shared SDG2 Agenda for the Last Mile to 2030), publicado pelo SDG2 Advocacy Hub.
Mais do que um novo diagnóstico sobre a fome mundial, o documento procura oferecer uma agenda política comum para orientar governos, organismos internacionais, sociedade civil, setor privado e instituições financeiras a perseguir o Objetivo Fome Zero em três anos e meio, concentrando esforços naquilo que realmente pode fazer diferença até o final da década.
O relatório parte de um reconhecimento importante: o mundo dispõe hoje de conhecimento, evidências, tecnologias e políticas capazes de reduzir significativamente a fome e todas as formas de má nutrição. O problema, segundo os autores, já não é descobrir o que funciona.
O verdadeiro desafio passou a ser alinhar prioridades, mobilizar financiamento, coordenar atores e implementar soluções em escala, em um contexto internacional marcado por conflitos, mudanças climáticas, restrições fiscais e crescente fragmentação da governança global.
A publicação lembra que, embora o mundo tenha registrado avanços expressivos desde os anos 1990 — com redução da fome, da mortalidade infantil e da desnutrição crônica —, esse progresso encontra-se ameaçado.
A fome voltou a crescer em diversas regiões, especialmente na África, enquanto conflitos armados, eventos climáticos extremos, volatilidade dos preços dos alimentos, endividamento dos países em desenvolvimento e cortes na ajuda internacional reduzem a capacidade de resposta dos governos. O documento alerta que a comunidade internacional vive hoje não apenas uma crise de financiamento, mas também uma crise de coordenação e de narrativa, na qual múltiplas iniciativas competem entre si sem produzir o impacto necessário.
Nesse contexto, o relatório propõe uma mudança de enfoque. Em vez de multiplicar novas iniciativas, defende fortalecer os mecanismos já existentes, reduzir sobreposições institucionais e concentrar esforços em um número limitado de prioridades estratégicas. A ideia central é substituir a lógica da fragmentação por uma abordagem integrada, capaz de conectar agricultura, proteção social, saúde, educação, clima e nutrição em torno de sistemas nacionais mais resilientes.
Outro aspecto relevante é a defesa de uma nova lógica de financiamento. Diante da redução da Assistência Oficial ao Desenvolvimento (ODA), o documento argumenta que será necessário combinar diferentes fontes de recursos — bancos multilaterais, financiamento climático, fundos concessionais, filantropia, garantias financeiras e maior mobilização de recursos domésticos — sempre alinhados às prioridades definidas pelos próprios países. Ao mesmo tempo, reforça a necessidade de ampliar investimentos em prevenção, resiliência e preparação para crises, em vez de concentrar recursos apenas em respostas emergenciais.
O relatório também identifica sinais positivos. Destaca iniciativas recentes como a Declaração de Kampala para a agricultura africana, o Nutrition for Growth, o movimento SUN e, particularmente, a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada durante a Presidência brasileira do G20, como exemplos de esforços voltados à coordenação internacional, fortalecimento dos sistemas nacionais e compartilhamento de políticas públicas baseadas em evidências. Trata-se de um reconhecimento importante da crescente centralidade da cooperação liderada pelos próprios países na agenda global de combate à fome.
Ao final, a publicação apresenta um chamado claro à ação. Segundo seus autores, não é hora de abandonar a ambição do ODS 2, mas de proteger os avanços conquistados nas últimas décadas e acelerar investimentos transformadores. A mensagem é particularmente relevante em um momento de incertezas geopolíticas, no qual segurança alimentar, desenvolvimento rural, estabilidade econômica e adaptação às mudanças climáticas tornam-se agendas cada vez mais inseparáveis.
O documento também dialoga diretamente com as conclusões da Comissão Global sobre Segurança Alimentar, presidida por Kofi Annan, que publicou em 2025 um amplo diagnóstico sobre os desafios da governança global da segurança alimentar. Assim como aquele relatório, Da Fragmentação ao Foco parte da constatação de que o principal obstáculo para avançar não é a falta de conhecimento técnico ou de soluções comprovadas, mas sim a crescente fragmentação institucional, a dispersão de recursos, a multiplicação de iniciativas pouco coordenadas e a dificuldade de alinhar diferentes atores em torno de prioridades comuns.
Ambos defendem uma governança internacional mais coerente, capaz de fortalecer a liderança dos países, coordenar melhor os mecanismos multilaterais existentes e mobilizar financiamento de forma mais estratégica. Em um contexto de restrição fiscal e crescente complexidade geopolítica, os dois documentos convergem ao afirmar que o desafio central da próxima década será menos criar novas instituições e mais fazer funcionar, de maneira integrada e eficiente, aquelas que já existem.
Principais mensagens do relatório
- O mundo não está no caminho para alcançar o ODS 2 até 2030, apesar dos avanços obtidos nas últimas décadas.
- O principal desafio deixou de ser técnico: existem soluções conhecidas, mas falta coordenação, financiamento e implementação em escala.
- A fragmentação da governança internacional reduz a eficácia das políticas de segurança alimentar e nutrição.
- É necessário fortalecer sistemas nacionais, integrando agricultura, proteção social, saúde, educação, clima e nutrição.
- A prevenção e a resiliência devem receber prioridade, reduzindo a dependência de respostas exclusivamente humanitárias.
- A queda da ajuda internacional exige novas estratégias de financiamento, combinando recursos públicos, privados e climáticos.
- Não é preciso criar novas iniciativas, mas fortalecer e articular melhor os mecanismos já existentes.
- A Aliança Global contra a Fome e a Pobreza é destacada como uma das principais iniciativas recentes para promover coordenação internacional e apoiar políticas nacionais baseadas em evidências.
Baixe aqui o documento “From Fragmentation to Focus: A Shared SDG2 Agenda for the Last Mile to 2030“
