Blog do IFZ | 14/07/2026
A guerra no Golfo Pérsico e o fechamento do Estreito de Ormuz voltaram a demonstrar uma realidade frequentemente negligenciada: a segurança alimentar mundial depende cada vez mais da estabilidade das cadeias globais de insumos agrícolas. Um novo levantamento do Secretariado da Organização Mundial do Comércio (OMC) – https://www.wto.org/english/blogs_e/data_blog_e/blog_dta_10jul26_451_e.htm – mostra que o comércio internacional de fertilizantes sofreu uma interrupção sem precedentes desde o início do conflito, colocando em risco a produção agrícola, pressionando os preços dos alimentos e aumentando a vulnerabilidade de diversos países em desenvolvimento.
O estudo revela que os embarques de fertilizantes através do Estreito de Ormuz praticamente paralisaram desde março de 2026. Como a região responde por cerca de 25% das exportações mundiais de fertilizantes nitrogenados e mais de 11% dos fertilizantes fosfatados, a interrupção rapidamente se refletiu nos mercados internacionais.
O impacto foi imediato sobre os preços. A ureia, principal fertilizante nitrogenado utilizado no mundo, mais do que dobrou de valor após o início do conflito, saltando de aproximadamente US$ 400 para mais de US$ 850 por tonelada, antes de recuar parcialmente com a expectativa de reabertura das rotas comerciais. Os fertilizantes fosfatados seguiram trajetória semelhante, embora ainda abaixo dos recordes observados durante a guerra na Ucrânia em 2022.
Mais do que uma crise comercial, trata-se de um problema diretamente relacionado à segurança alimentar. Fertilizantes são responsáveis por grande parte do aumento da produtividade agrícola das últimas décadas. Sem acesso a esses insumos, agricultores reduzem a aplicação nas lavouras, comprometendo rendimentos justamente em um momento em que eventos climáticos extremos, como o atual El Niño, já ameaçam a produção de alimentos em diversas regiões do planeta.
O relatório chama atenção para o fato de que a vulnerabilidade não é distribuída de forma igual. Países como Índia e Tailândia dependem fortemente dos fornecedores do Golfo para abastecer seus mercados. Entre os mais expostos encontram-se também diversas economias africanas e latino-americanas. O Brasil aparece no grupo de países particularmente vulneráveis à interrupção das exportações de fertilizantes nitrogenados, devido tanto à elevada dependência das importações quanto à forte concentração de fornecedores na região do Golfo.
Outro fator que agravou a situação foi a proliferação de restrições às exportações. Desde o início da crise, diversos países adotaram licenças especiais, cotas ou proibições temporárias para proteger seus mercados internos. Segundo a OMC, essas medidas podem afetar até 15% do comércio mundial de fertilizantes, chegando a mais de 23% quando se considera o bloqueio das exportações provenientes da região do Golfo. Embora algumas exportações tenham sido redirecionadas por rotas alternativas, os custos logísticos aumentaram significativamente.
Diante desse cenário, governos vêm adotando respostas emergenciais. A União Europeia suspendeu tarifas de importação sobre fertilizantes; Índia ampliou seus programas de subsídios; Estados Unidos anunciaram incentivos à produção doméstica; e diversos países africanos e asiáticos reforçaram programas de apoio aos agricultores.
O relatório também aponta caminhos para reduzir a vulnerabilidade estrutural. Entre eles estão a diversificação das fontes de suprimento, o fortalecimento da produção regional de fertilizantes, investimentos em armazenamento, maior eficiência no uso de nutrientes e expansão de alternativas como fertilizantes orgânicos, economia circular e amônia verde.
Para países como o Brasil, a crise reforça uma lição estratégica: garantir a segurança alimentar não depende apenas da produção agrícola, mas também da resiliência das cadeias de abastecimento de insumos essenciais. Em um mundo cada vez mais sujeito a conflitos geopolíticos e eventos climáticos extremos, fortalecer essas cadeias passa a ser parte integrante das políticas de segurança alimentar e de adaptação às mudanças climáticas.
Apesar de mencionar alternativas como a fertilização orgânica, a economia circular e a amônia verde, a análise da OMC dedica pouca atenção ao potencial dos bioinsumos e de substitutos naturais dos fertilizantes químicos. Soluções como compostagem, adubação verde, remineralizadores de solo, inoculantes biológicos e o aproveitamento de resíduos agrícolas e urbanos podem reduzir, especialmente em escala local, a dependência de insumos importados.
Essas alternativas não substituem integralmente os fertilizantes convencionais em todos os cultivos e regiões, mas podem diminuir custos, melhorar a saúde dos solos e ampliar a resiliência dos pequenos produtores diante de choques externos. Para países com grande diversidade agrícola, como o Brasil, investir em pesquisa, assistência técnica e produção descentralizada de bioinsumos deveria ocupar posição mais central nas estratégias de segurança alimentar e de redução da vulnerabilidade externa.
Principais mensagens
- O conflito no Golfo interrompeu grande parte do comércio mundial de fertilizantes através do Estreito de Ormuz.
- Os preços da ureia e dos fertilizantes fosfatados dispararam, aumentando os custos da produção agrícola.
- O Brasil está entre os países mais vulneráveis devido à elevada dependência de fertilizantes importados.
- Restrições às exportações agravaram ainda mais a escassez e a volatilidade dos mercados.
- A crise evidencia que segurança alimentar depende também da segurança das cadeias globais de insumos agrícolas.
- Diversificação de fornecedores, produção regional, eficiência no uso de fertilizantes e alternativas sustentáveis são fundamentais para aumentar a resiliência.
- Conflitos geopolíticos e mudanças climáticas tornam urgente integrar políticas agrícolas, comerciais e de segurança alimentar.
