Blog do IFZ | 21/07/2026
A América do Sul vive uma transformação importante em seu panorama alimentar. Segundo o SOFI 2026: Compreendendo e enfrentando o alto custo de uma dieta saudável, relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), divulgado em 21 de julho, a região foi a que mais reduziu a proporção de pessoas subalimentadas no mundo nos últimos anos. Atualmente, 3,5% dos sul-americanos consomem uma quantidade de calorias inferior à necessária para uma vida saudável, o menor índice já registrado pela organização.
Para Máximo Torero, economista-chefe da FAO, a América do Sul reúne hoje as condições mais favoráveis entre as grandes regiões do mundo para alcançar, até 2030, a meta das Nações Unidas de erradicar a fome extrema. Esse desempenho resulta da combinação de políticas públicas consistentes, recuperação econômica, fortalecimento dos sistemas de proteção social e maior capacidade institucional para enfrentar um problema que marcou profundamente a história recente do continente.
Os indicadores mais abrangentes do relatório, que incluem a insegurança alimentar moderada e grave, reforçam esse diagnóstico. Em 2025, 20,3% da população sul-americana encontrava-se nessa condição, o quinto recuo anual consecutivo e um patamar inferior ao observado em 2015, quando foi lançada a Agenda 2030. Desde o pico registrado em 2021, quando o índice alcançou 31,1%, a redução acumulada supera um terço.
O resultado ganha relevância por suceder um período de forte deterioração. A pandemia de covid-19 ampliou a vulnerabilidade econômica de milhões de famílias, interrompeu atividades produtivas e submeteu os sistemas de proteção social a uma pressão inédita. A recuperação observada desde então mostra que políticas públicas bem estruturadas e maior estabilidade econômica foram decisivas para restabelecer o acesso da população aos alimentos.

Uma trajetória que mudou ao longo do tempo
A redução da fome na América do Sul não começou agora. No início dos anos 2000, diversos países da região também registraram avanços expressivos. O crescimento econômico impulsionado pelo ciclo de valorização das commodities ampliou as receitas públicas e abriu espaço para a expansão de programas sociais.
Na Venezuela, Hugo Chávez criou redes de supermercados com preços subsidiados pelo Estado. Na Argentina, Néstor Kirchner e, posteriormente, Cristina Kirchner ampliaram uma extensa rede de refeitórios comunitários. No Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva fortaleceu as políticas de apoio à agricultura familiar e expandiu os mecanismos de transferência de renda.
Os resultados daquele período foram significativos, embora parte deles estivesse apoiada em um ambiente econômico excepcionalmente favorável. Com a queda dos preços internacionais das commodities, a partir de 2014, vários países passaram a enfrentar recessão, redução das receitas públicas e recrudescimento da insegurança alimentar. A pandemia acrescentou novos obstáculos a esse quadro.
O diferencial do momento atual está na capacidade de recuperação demonstrada pela maior parte dos países sul-americanos. Em muitos casos, eles não apenas retornaram aos níveis anteriores à crise sanitária como conseguiram superá-los.
O Brasil desempenhou papel central nesse processo. Ao retornar à Presidência da República em 2023, Lula recolocou a segurança alimentar entre as prioridades do governo. Em 2025, o país deixou o Mapa da Fome da ONU, classificação que reúne países onde a prevalência de subalimentação crônica supera 2,5% da população.
Chile e Guiana — beneficiada pela rápida expansão econômica associada à exploração de petróleo — também deixaram essa classificação. A Argentina aproxima-se desse resultado, com índice inferior a 3%. Colômbia e Paraguai registram taxas próximas de 4%, enquanto Peru e Venezuela permanecem em torno de 5%. Equador e Bolívia avançaram de forma mais lenta, alcançando aproximadamente 11% e 20%, respectivamente. O Suriname permanece como a principal exceção regional, com deterioração dos indicadores.
O panorama atual revela, portanto, uma região que conseguiu reduzir de forma expressiva a fome extrema, mas que ainda convive com diferenças profundas entre os países e desafios que exigem continuidade e aperfeiçoamento das políticas adotadas.
Duas bases para a recuperação
A melhora recente da segurança alimentar na América do Sul apoia-se, sobretudo, em dois pilares complementares: a estabilização econômica e o fortalecimento das políticas de proteção social.
O primeiro diz respeito ao controle da inflação. Nos últimos anos, os países da região conseguiram desacelerar a alta dos preços depois do choque provocado pela pandemia e pelas rupturas nas cadeias globais de abastecimento. Esse movimento teve impacto direto sobre a segurança alimentar, já que as famílias de menor renda destinam uma parcela proporcionalmente maior do orçamento à compra de alimentos e, por isso, são as mais afetadas pela inflação.
A estabilidade dos preços, porém, não basta para garantir alimentação adequada às famílias que continuam sem renda suficiente. Por essa razão, os programas de transferência de renda permaneceram no centro das políticas de combate à fome.
O exemplo mais conhecido é o Bolsa Família, que assegura um benefício mensal às famílias em situação de pobreza e estabelece compromissos relacionados à vacinação e à frequência escolar das crianças. O governo Lula também retomou a política de valorização real do salário-mínimo, elevando seu poder de compra acima da inflação.
“Estas são as políticas essenciais”, afirma José Graziano da Silva, ex-diretor-geral da FAO e diretor-geral do Instituto Fome Zero, ao destacar a transferência de renda e a valorização do salário-mínimo como elementos centrais da redução recente da fome.
Esses instrumentos já existiam, mas passaram por mudanças relevantes. Segundo Elisabetta Recine, do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), programas como o Bolsa Família ampliaram sua capacidade de identificar e acompanhar famílias por meio da integração entre cadastros sociais e sistemas digitais.
Esse aperfeiçoamento tornou possível alcançar grupos em situação de vulnerabilidade temporária, como trabalhadores sazonais que alternam períodos de emprego e desemprego. Outros países da região seguiram caminhos distintos. A Colômbia discute mudanças nas condicionalidades das transferências destinadas às famílias em extrema pobreza, especialmente em áreas onde crianças encontram dificuldades para frequentar a escola. No Chile, programas semelhantes passaram a incorporar iniciativas de qualificação profissional.
A experiência recente reforça uma constatação importante. Combater a fome exige mais do que ampliar a disponibilidade de alimentos; requer assegurar condições econômicas estáveis para que a população possa acessá-los de forma contínua e adequada.

As ameaças que permanecem
Embora os indicadores revelem avanços expressivos, a segurança alimentar sul-americana continua cercada por fatores de risco. Entre eles, as mudanças climáticas ocupam posição central.
O aumento das temperaturas tem favorecido a disseminação de pragas agrícolas, alterado ciclos produtivos e ampliado a probabilidade de perdas em diferentes regiões. A National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), agência climática do governo estadunidense, acompanha permanentemente os fenômenos associados ao El Niño, capazes de modificar regimes de chuva e temperatura em importantes áreas produtoras de alimentos.
Para Carolina Trivelli, ex-ministra do Peru, eventos climáticos mais intensos tendem a agravar dificuldades já enfrentadas por agricultores familiares, sobretudo naqueles países onde os mecanismos de adaptação ainda são limitados.
Esse contexto também evidencia a necessidade de aperfeiçoar as políticas de proteção social. Um dos principais desafios consiste em desenvolver mecanismos capazes de acompanhar a transição das famílias para situações econômicas mais estáveis, reduzindo a dependência prolongada de programas concebidos originalmente como instrumentos de proteção.
Um estudo mostrou que aproximadamente um quinto das crianças incluídas no Bolsa Família em 2005 continuava vinculado ao programa em 2024, já na vida adulta. Criado em 2003 como uma política focalizada de combate à pobreza, o Bolsa Família transformou-se em uma das maiores iniciativas de transferência de renda do mundo, alcançando milhões de famílias brasileiras e mobilizando recursos equivalentes a cerca de 1,5% do Produto Interno Bruto.
Para o economista Daniel Duque, da Fundação Getulio Vargas, o desenho atual pode criar barreiras para parte dos beneficiários que pretendem ingressar no mercado formal de trabalho, sugerindo a conveniência de ajustes capazes de preservar a proteção social sem reduzir os incentivos à autonomia econômica.
Encontrar esse equilíbrio será uma das tarefas mais delicadas dos próximos anos: proteger as famílias contra o retorno da insegurança alimentar e, simultaneamente, ampliar as oportunidades para que construam trajetórias sustentadas pelo trabalho e pela renda própria.
Da quantidade à qualidade do alimento
A redução da fome extrema representa uma conquista histórica para a América do Sul, mas não encerra o debate sobre alimentação. À medida que o acesso aos alimentos se amplia, ganha importância uma dimensão diferente do problema: a qualidade nutricional das dietas.
Nas últimas décadas, os índices de sobrepeso infantil e de obesidade entre adultos cresceram de forma contínua e hoje atingem patamares elevados, próximos de 10% entre crianças e de 30% entre adultos. Esses números colocam a América do Sul entre as regiões com maior prevalência desses problemas.
Essa realidade evidencia uma mudança importante. Uma sociedade pode reduzir a subalimentação e, ainda assim, conviver com padrões alimentares associados ao aumento das doenças crônicas. Garantir calorias suficientes não significa, necessariamente, assegurar uma alimentação saudável.
O custo dos alimentos ajuda a explicar parte dessa contradição. Quando ajustado pelo poder de compra da população, o preço de uma dieta saudável na América do Sul figura entre os mais elevados do mundo, superado apenas por algumas regiões, como o Caribe, o norte da África e o Sudeste Asiático.
As razões são diversas. Embora o continente disponha de uma das maiores capacidades agrícolas do planeta, parte significativa da produção destina-se às cadeias de exportação. Ao mesmo tempo, muitos alimentos frescos continuam sujeitos a limitações de produção, armazenamento, transporte e distribuição.
Deficiências de infraestrutura, longas distâncias entre áreas produtoras e centros consumidores e limitações nas cadeias de refrigeração elevam os custos ao longo da distribuição. Para famílias de baixa renda, produtos ultraprocessados acabam sendo, muitas vezes, a alternativa de menor preço e maior disponibilidade, apesar dos riscos associados ao consumo frequente desses alimentos.
A agenda da segurança alimentar sul-americana passa, portanto, por um novo patamar. Continuar reduzindo a fome permanece indispensável, mas será igualmente necessário criar condições para que a população tenha acesso regular a alimentos capazes de promover saúde ao longo da vida.
Um futuro alimentar em transformação
Os avanços registrados nos últimos anos indicam que a América do Sul reúne condições concretas para reduzir ainda mais a fome extrema. A continuidade desse progresso, porém, dependerá da capacidade dos países de responder a desafios que já começam a redefinir os sistemas alimentares.
A agricultura ocupará posição estratégica nesse processo. Tecnologias voltadas à adaptação às mudanças climáticas, ao uso mais eficiente dos recursos naturais e ao aumento sustentável da produtividade poderão ampliar a resiliência da produção diante de condições ambientais cada vez mais instáveis. Paralelamente, será necessário fortalecer políticas que estimulem sistemas alimentares diversificados e aproximem produtores e consumidores.
Os governos da região reconhecem que esse processo exige aperfeiçoamentos permanentes. No Brasil, na Bolívia e no Peru, o debate sobre formas mais eficientes de direcionar os programas sociais avança ao mesmo tempo que se buscam novas estratégias de enfrentamento da pobreza.
Também cresce a atenção dedicada à qualidade da alimentação. Medidas como a rotulagem nutricional e políticas destinadas a reduzir o consumo excessivo de produtos ultraprocessados passaram a ocupar espaço mais relevante nas discussões públicas. Segundo Juliana Tângari, do instituto brasileiro Comida do Amanhã, essas iniciativas integram uma agenda mais ampla voltada ao fortalecimento de sistemas alimentares capazes de conciliar saúde, sustentabilidade e acesso.
A experiência recente da América do Sul demonstra que avanços duradouros não resultam de uma única política nem de circunstâncias econômicas favoráveis. Eles dependem da continuidade de estratégias públicas, da produção de conhecimento científico e da capacidade institucional de adaptar respostas a uma realidade em permanente transformação.
Os resultados apresentados pela FAO mostram que a região alcançou uma posição inédita em sua história recente. Preservar esse patrimônio exigirá decisões que ultrapassam o combate imediato à fome. O desafio passa a ser construir sistemas alimentares capazes de garantir acesso, qualidade nutricional e resiliência climática como dimensões inseparáveis de uma mesma política de desenvolvimento.
Com informações do The Economist e dados do relatório SOFI 2026: Compreendendo e enfrentando o alto custo de uma dieta saudável
