Por José Graziano da Silva e Joanna Martins | 06/08/2026
Durante muito tempo, a obesidade foi tratada quase exclusivamente como um problema de saúde individual. A recomendação parecia simples: comer melhor, fazer mais exercícios. Hoje sabemos que essa visão é insuficiente.
A obesidade é um fenômeno muito mais complexo. É um problema de saúde pública, mas também uma questão de segurança alimentar, desigualdade social, renda, educação, produção de alimentos e mau funcionamento dos sistemas alimentares.
O Brasil vive uma situação paradoxal. Depois de décadas de luta contra a fome e a desnutrição, enfrenta agora uma nova forma de má alimentação. A fome continua existindo e precisa ser combatida com toda determinação. Mas cresce ao mesmo tempo uma epidemia silenciosa, mas visível de sobrepeso e obesidade que afeta crianças, adolescentes e adultos em todas as regiões do país.
Os números são alarmantes. Segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2026, cerca de 68% da população brasileira apresenta excesso de peso e 31% já vive com obesidade. Entre crianças e adolescentes de 5 a 19 anos, o total de pessoas com excesso de peso chega a 16,5 milhões. Além disso, mais de 60 mil mortes prematuras por ano estão relacionadas às doenças associadas ao excesso de peso.
Nas Amazônias, esse retrato nacional ganha contornos próprios e, em alguns casos, ainda mais preocupantes. Levantamento sobre o excesso de peso e a obesidade nas capitais da Amazônia Legal realizado pelo Instituto Escolhas e a Cátedra Josué de Castro (2024) mostra que, em 2023, Manaus (63,5% com excesso de peso e 27% com obesidade), Belém (64% e 26%) e, sobretudo, Macapá (62% de excesso de peso e 30,4% de obesidade) já superavam a média do conjunto das capitais e do Distrito Federal (61% e 24%, respectivamente).
Esses dados são frequentemente analisados sob a ótica das doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer. Essa abordagem é correta, mas incompleta.
Precisamos compreender que a obesidade também é resultado de uma profunda transformação dos sistemas alimentares. Ela surge quando alimentos saudáveis deixam de ser economicamente acessíveis e quando produtos ultraprocessados passam a ocupar cada vez mais espaço na alimentação cotidiana.
Essa transformação tem nome na literatura sobre os sistemas alimentares: monotonia agroalimentar. Ou seja, a substituição progressiva da diversidade de frutas, raízes, sementes e peixes por um número cada vez menor de commodities e por produtos ultraprocessados derivados delas. Na região Norte a monotonia agrícola que se espalhou no território nos últimos 40 anos já aparece no prato dos amazônidas. Entre 2008/2009 e 2017/2018, a participação dos ultraprocessados no total de calorias consumidas pela população da região subiu de 15% para 18%, representando um crescimento mais acelerado do que o observado no país como um todo. Entre a população indígena, o consumo desses produtos aumentou quase 6% no mesmo período.
A pergunta central deixa de ser apenas “o que as pessoas escolhem comer?” e passa a ser “o que as pessoas conseguem comprar para comer?”. Essa mudança de perspectiva é fundamental.
A insegurança alimentar não se manifesta apenas pela falta de alimentos. Ela também aparece quando famílias conseguem consumir calorias suficientes, mas não têm condições econômicas de acessar uma alimentação adequada e nutritiva.
Essa realidade é persistente nas Amazônias. Em 2024, mais de um terço dos domicílios da região Norte enfrentava incerteza quanto ao acesso à comida, com percentuais particularmente elevados em estados como Pará, Amazonas, Roraima e Amapá. Esses dados da EBIA-IBGE consolidam a região como epicentro da insegurança alimentar grave no país, mesmo em um contexto de melhora relativa dos indicadores nacionais.
Milhões de famílias conseguem encher o prato, mas encontram enormes dificuldades para consumir regularmente frutas, legumes, verduras, feijões, castanhas, leite e outros alimentos recomendados pelo Guia Alimentar para a População Brasileira. Em contrapartida, alimentos ultraprocessados apresentam elevada disponibilidade, intensa publicidade, longa duração e preços frequentemente mais competitivos. O resultado é uma dieta que mata lentamente.
Nas Amazônias, esse desequilíbrio tem raízes estruturais na própria organização do abastecimento, a dependência de cadeias logísticas extensas e de transporte fluvial em condições precárias compromete a regularidade da oferta de alimentos in natura, favorecendo a disseminação de ultraprocessados, que apresentam maior durabilidade e menor custo de conservação. Esse cenário ajuda a explicar por que esses produtos chegam, com preços competitivos, até as localidades mais remotas da região. Mais recentemente, o aumento da frequência de extremos climáticos na região tem contribuído ainda mais para esse aumento.
Nesse contexto, o artigo “Saber o que comemos”, recentemente publicado pelo ex-Ministro Arthur Chioro, chama atenção para um aspecto importante: o direito à informação. A proposta de fortalecer a rotulagem e ampliar advertências sobre produtos ultraprocessados representa um avanço relevante. O consumidor tem o direito de saber claramente o que está comprando e consumindo.
No Brasil, essa consciência começou a tomar forma institucional com a Lei nº 13.666/2018, que tornou obrigatória a inclusão da educação alimentar e nutricional de forma transversal nos currículos da educação básica. Na prática, contudo, o cumprimento dessa lei permanece fragmentado em grande parte do país, com lacunas especialmente acentuadas nas regiões mais afastadas dos centros de formação docente. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) avançou ao restringir a presença de produtos ultraprocessados no cardápio escolar e ao exigir que ao menos 45% dos recursos sejam destinados à compra da agricultura familiar. Aqui, a distância entre a norma e a realidade cotidiana é significativa, sobretudo nos municípios amazônicos, onde a cadeia de abastecimento local ainda é frágil e a fiscalização, insuficiente. A escola precisa ser, de fato, o primeiro espaço de educação alimentar, mas hoje, em muitos territórios, ela ainda reproduz os mesmos padrões que pretende combater.
A experiência internacional demonstra que a rotulagem frontal pode influenciar escolhas alimentares e reduzir a assimetria de informação entre indústria e consumidores. Como ocorreu com os cigarros, informar não elimina a liberdade de escolha. Ao contrário, fortalece decisões conscientes.
Mas também precisamos reconhecer que informação, sozinha, não resolve o problema. Uma família que vive em um território sem acesso adequado a alimentos frescos continuará enfrentando dificuldades, mesmo conhecendo os riscos dos ultraprocessados. Por isso, a obesidade deve ser tratada simultaneamente como uma questão de saúde pública e de segurança alimentar e nutricional.
Na Amazônia, esse ponto merece uma camada adicional de reflexão. A informação é insuficiente quando não acompanhada de acesso econômico e estrutura de abastecimento e acaba assumindo um papel ainda mais estratégico em uma região onde décadas de colonização cultural construíram um imaginário que associa o produto industrializado, vindo de fora, à modernidade e ao progresso. Esse processo impulsionou a substituição das roças tradicionais pelo consumo nos mercados: não apenas por falta de renda ou acesso, mas por uma percepção, fortemente alimentada pela publicidade e pela ausência de referências locais positivas, de que o ultraprocessado é mais seguro, mais prático e, até, de maior status social. Reverter esse imaginário é parte indispensável da solução: exige informação contextualizada, educação alimentar enraizada nos territórios e nas culturas locais, e narrativas públicas que celebrem, em vez de invisibilizar, a riqueza e o valor nutritivo do que as Amazônias produzem. Em uma região com tão pouco acesso à informação qualificada sobre alimentação, o conhecimento é, sim, a base de tudo.
O Governo Federal deu um passo importante ao instituir a Estratégia Intersetorial de Prevenção da Obesidade, reconhecendo oficialmente que a obesidade é não apenas uma doença crônica, mas também uma questão social que exige respostas intersetoriais. A estratégia mobiliza diversos ministérios e busca integrar políticas de saúde, assistência social, educação e segurança alimentar.
Esse é um avanço importante. Mas a estratégia pode e deve ser fortalecida.
Em primeiro lugar, é necessário colocar a questão do custo da dieta saudável no centro das políticas públicas. Não basta recomendar o consumo de alimentos saudáveis. É preciso torná-los economicamente acessíveis. Isso exige políticas de incentivo à produção e comercialização de frutas, legumes e verduras, fortalecimento da agricultura familiar, ampliação dos mercados institucionais e redução das distâncias entre produtores e consumidores.
Nas Amazônias, essa agenda passa por estruturar circuitos curtos de abastecimento conectando feiras livres, mercados municipais, compras públicas como o PAA e o PNAE e estruturas comunitárias e solidárias de distribuição de comida saudável e culturalmente adequada à população urbana, tendo em vista a concentração da fome nas cidades. Além disso, também por desenvolver cinturões produtivos periurbanos nas cidades da região, hoje fortemente dependentes da importação de alimentos das regiões Sudeste e Sul.
Em segundo lugar, precisamos avançar na regulação dos ambientes alimentares. A publicidade dirigida ao público infantil continua sendo uma das principais portas de entrada para padrões alimentares inadequados. Crianças não podem ser tratadas como consumidores plenamente capazes de avaliar riscos e estratégias de marketing.
Em terceiro lugar, o debate sobre tributação precisa amadurecer. A taxação de bebidas açucaradas e outros produtos comprovadamente associados ao aumento da obesidade já vem sendo discutida e implementada em diversos países. Evidentemente, não existe solução única. Mas instrumentos fiscais podem ajudar a corrigir distorções hoje existentes, especialmente se acompanhados de incentivos ao consumo de alimentos saudáveis.
Nas Amazônias, esse debate exige especificidade regional. Em boa parte da região, a produção da agricultura familiar consegue se beneficiar de isenção como produto rural, ou seja, a barreira ao pequeno produtor nem sempre é de ordem tributária. O que falta, de fato, é acesso a crédito com juros adequados, educação financeira, assistência técnica continuada e infraestrutura de armazenamento e escoamento da produção. Sem isso, mesmo quem produz diversidade não consegue abastecer os mercados locais de forma estável e competitiva. Ao mesmo tempo, é imprescindível regular a estrutura de distribuição, hoje marcada por forte concentração e assimetrias de mercado que encarecem o alimento in natura para o consumidor final, tornando o ultraprocessado, paradoxalmente, o mais acessível.
Em quarto lugar, é necessário ampliar e aperfeiçoar a rotulagem frontal de alimentos. O consumidor brasileiro merece informações mais claras, simples e facilmente compreensíveis sobre os riscos associados ao consumo excessivo de determinados produtos.
Por fim, devemos valorizar um dos maiores patrimônios das políticas públicas brasileiras: o Guia Alimentar para a População Brasileira. Reconhecido internacionalmente, o Guia foi pioneiro ao mostrar que a qualidade da alimentação não depende apenas de nutrientes isolados, mas também do grau de processamento dos alimentos e das formas de produção e consumo. Essa visão continua extremamente atual.
Há uma razão concreta para esse reconhecimento ir além das fronteiras: foi no Brasil que pesquisadores da Universidade de São Paulo desenvolveram a classificação NOVA, sistema que categoriza os alimentos não por nutrientes isolados, mas pelo grau e propósito de seu processamento industrial. Essa inovação conceitual transformou o debate global sobre alimentação: a categoria dos ultraprocessados, hoje adotada em políticas públicas e guias alimentares de dezenas de países, é uma contribuição brasileira à saúde pública mundial. Poucos brasileiros sabem disso. Valorizar esse legado científico é também reconhecer a capacidade do país de não apenas diagnosticar o problema, mas de oferecer ao mundo ferramentas para enfrentá-lo.
Nas Amazônias, esse patrimônio tem potencial para ganhar diversas traduções territoriais, considerando a diversidade de espécies da biodiversidade que podem ser utilizadas na alimentação. Entre as ações prioritárias para aumentar o acesso à comida nutritiva e sustentável na região estão a adoção de guias alimentares adaptados às realidades culturais e territoriais amazônicas e a ampliação de sistemas alimentares capazes de garantir saúde, alimentação adequada e um meio ambiente ecologicamente equilibrado.
A obesidade não será enfrentada apenas nos consultórios médicos. Ela será enfrentada nas escolas, nas políticas agrícolas, nos programas de proteção social, nos sistemas alimentares, nos supermercados, nas cozinhas domésticas e nas decisões regulatórias do Estado.
A obesidade crescente em um território com elevada disponibilidade de alimentos diversos e nutritivos evidencia mais uma vez que o problema não está na escassez, mas na forma como os alimentos são produzidos, distribuídos e acessados.
A mesma sociedade que foi capaz de construir políticas inovadoras de combate à fome pode agora liderar uma nova geração de políticas voltadas ao enfrentamento de todas as formas de má nutrição. Começar esse movimento pela Amazônia é reconhecer que a magnitude do desafio da má alimentação nesses territórios é proporcional ao potencial para produzir alimentos saudáveis, diversos, sustentáveis e culturalmente adaptados. É justamente dessa convergência entre desafio e oportunidade, monotonia e diversidade, que pode emergir um modelo agroalimentar capaz de entregar o que o Brasil e o mundo precisam: saúde, alimentação adequada e um meio ambiente ecologicamente equilibrado.
Afinal, combater a obesidade não significa apenas reduzir indicadores de doenças crônicas. Significa garantir que todos tenham acesso permanente a uma alimentação adequada, saudável, sustentável e compatível com a dignidade humana. Essa sempre foi — e continua sendo — a essência da verdadeira segurança alimentar.
José Graziano da Silva é Diretor do Instituto Fome Zero e professor emérito da UNICAMP
Joanna Martins é co-secretária-executiva da Uma Concertação pela Amazônia, fundadora da Manioca e pesquisadora em cultura alimentar amazônica
