Cátedra Josué de Castro celebra cinco anos e inicia novo ciclo sob coordenação de Walter Belik

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Blog do IFZ | 21/08/2026

A Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis celebrou seus cinco anos de atividade com um seminário realizado na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). O encontro reuniu pesquisadores, gestores públicos e representantes da sociedade civil para fazer um balanço da trajetória da iniciativa e discutir os desafios científicos e políticos da transição para sistemas alimentares mais saudáveis, sustentáveis e justos.

A celebração ocorre em um ano de especial significado: em 2026, completam-se 80 anos da primeira publicação de Geografia da Fome, obra seminal na qual Josué de Castro demonstrou que a fome não decorre de fenômenos naturais ou da simples escassez de alimentos, mas de estruturas econômicas, sociais e políticas.

Criada em 2021, quando o Brasil voltava ao Mapa da Fome, a Cátedra foi concebida como um espaço interdisciplinar dedicado à pesquisa, à formação, à disseminação de conhecimentos e à incidência pública. Ao longo de seus primeiros cinco anos, ampliou progressivamente sua agenda, incorporando às discussões sobre fome e insegurança alimentar temas como obesidade, alimentos ultraprocessados, mudanças climáticas, biodiversidade, desenvolvimento territorial e bem-estar humano e animal.

Na abertura, a coordenadora acadêmica da Cátedra, Patrícia Jaime, destacou que a iniciativa não nasceu apenas para homenagear Josué de Castro, mas para atualizar sua tradição intelectual e seu compromisso com uma ciência voltada à transformação da realidade. O seminário também marcou o lançamento do livro Da fome à transição para sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis, acompanhado de um minidocumentário sobre a trajetória da Cátedra.

A publicação, que reúne as vozes de diferentes participantes dessa construção, conta com prefácio de José Graziano da Silva, ex-diretor-geral da FAO e diretor do Instituto Fome Zero (IFZ). Em sua intervenção no seminário, Graziano definiu a Cátedra como uma verdadeira “fábrica de ideias”, capaz de integrar áreas como nutrição, meio ambiente, agricultura, obesidade e políticas públicas.

Graziano concentrou sua análise nos rumos assumidos pelos sistemas alimentares. Para ele, é necessário reconhecer que o lucro e os mercados têm orientado as principais transformações do setor, enquanto os mecanismos públicos de coordenação se mostram crescentemente fragmentados.

O diretor do IFZ recordou que essa fragmentação está presente tanto no sistema internacional quanto na estrutura governamental brasileira. No plano global, citou a progressiva divisão de atribuições entre organizações como FAO, Programa Mundial de Alimentos e Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola. No Brasil, chamou a atenção para a dispersão das competências relacionadas à alimentação entre numerosos ministérios, estados e municípios, muitas vezes com políticas sobrepostas ou contraditórias.

“As decisões são fundamentalmente políticas”, afirmou Graziano, ressaltando que a ciência pode produzir evidências, identificar diferenças e desfazer interpretações equivocadas, mas não substitui a construção política e democrática das soluções.

Ele defendeu maior rigor na produção e no uso de dados científicos. Como exemplo, mencionou estudos sobre a expansão da soja e a retração de culturas como feijão e mandioca que, em muitos casos, estabelecem correlações estatísticas sem demonstrar diretamente uma relação de causalidade. Para Graziano, pesquisas frágeis podem acabar enfraquecendo causas legítimas e abrindo espaço para contestações sustentadas por interesses econômicos.

O ex-diretor-geral da FAO também relatou uma tentativa de articulação entre FAO, Organização Mundial da Saúde e Organização Mundial do Comércio para estabelecer restrições ao comércio de produtos prejudiciais à saúde. Segundo ele, a proposta enfrentou um bloqueio provocado pela convergência de interesses entre grandes países exportadores e importadores. O episódio ilustra a dificuldade de reformar a governança mundial dos alimentos e a necessidade de construir formas democráticas e efetivas de regulação e coordenação.

O seminário marcou ainda a conclusão do ciclo coordenado por Arilson Favareto e a passagem da titularidade da Cátedra para Walter Belik, professor da Unicamp e diretor do Instituto Fome Zero. Reconhecido por sua extensa trajetória de pesquisa e formulação de políticas de segurança alimentar e nutricional, Belik assume a coordenação do novo ciclo da iniciativa.

A escolha reforça os vínculos entre a Cátedra e o legado das políticas brasileiras de combate à fome. Sob sua coordenação, a expectativa é avançar na integração entre produção científica, políticas públicas e participação social, preservando a abordagem interdisciplinar que caracterizou os primeiros cinco anos.

Ao renovar sua liderança, a Cátedra Josué de Castro reafirma que combater a fome continua sendo um imperativo ético e político, mas que essa tarefa exige hoje enfrentar simultaneamente a má alimentação, os ultraprocessados, as desigualdades territoriais, a crise climática e a perda da biodiversidade. Mais do que celebrar o caminho percorrido, o encontro apontou para a urgência de construir o futuro dos sistemas alimentares.