A Impakter e a FoodDiplomacy Network têm o prazer de lançar “Perspectivas sobre Diplomacia Alimentar”, uma série editorial que dá voz à diplomacia alimentar como um campo emergente de colaboração internacional
Por Stefanos Fotiou e Andrej Pavicevic | Impaketr | 17/09/2026
A Diplomacia Alimentar é o uso estratégico do diálogo, da negociação e da coordenação política para administrar as dimensões geopolíticas, as interdependências, as tensões e as assimetrias de poder que moldam os sistemas alimentares globais — e para construir a vontade coletiva necessária para governá-los em benefício de todos.
A FoodDiplomacy Network oferece um espaço para o desenvolvimento dos conceitos e das abordagens exigidos pela diplomacia alimentar. É onde formuladores de políticas, diplomatas, cientistas, lideranças empresariais e profissionais podem atuar de forma preventiva, antes que as crises imponham uma resposta, para formular ideias capazes de influenciar concretamente a evolução dos sistemas alimentares.
A Rede é construída por profissionais cujas trajetórias contribuíram para moldar a forma como as nações tratam os alimentos como um ativo estratégico. Entre outros, Ibrahim Mayaki, enviado especial da União Africana para Sistemas Alimentares; Inaya Ezzeddine, coordenadora nacional dos Sistemas Alimentares do Líbano; e José Graziano da Silva, diretor-geral do Instituto Fome Zero, integram o núcleo de um grupo cuja experiência institucional abrange diferentes continentes e crises.
A série Perspectivas sobre Diplomacia Alimentar, lançada com este artigo, leva esse trabalho ao debate público. Por meio dela, damos visibilidade às reflexões que emergem de diálogos baseados na confiança, documentamos o desenvolvimento intelectual da diplomacia alimentar como campo de atuação e ampliamos as vozes dos profissionais que constroem novas formas de cooperação entre setores e através das fronteiras que atualmente fragmentam a governança.
A série pretende consolidar a diplomacia alimentar como uma prática reconhecida, distinta e necessária. Ela demonstra que as pessoas que moldam a governança alimentar já estão pensando de maneira diferente, buscando soluções intersetoriais e desafiando as estruturas institucionais compartimentalizadas. A série oferece uma plataforma a essas vozes e abre para o mundo uma janela para esse debate.
Isso reflete a missão da Impakter e o papel que a organização procura desempenhar desde a sua criação: levar ao debate público o conhecimento especializado sobre desenvolvimento sustentável e aproximar perspectivas frequentemente separadas por fronteiras institucionais ou disciplinares. Os sistemas alimentares ocupam uma posição cada vez mais central nos debates sobre mudanças climáticas, saúde, comércio, segurança e desigualdade — e são, por natureza, intersetoriais. Compreendê-los e aperfeiçoá-los exige olhar para além dos setores individualmente e considerar como suas dimensões econômicas, políticas, sociais e ambientais interagem.
A série começa com o Manifesto da FoodDiplomacy Network, apresentado a seguir, que marcou o lançamento preliminar da Rede. Nos próximos meses, integrantes do círculo fundador de lideranças globais da Rede contribuirão para a série, apresentando suas perspectivas em diferentes áreas de especialização, do comércio e das finanças à ação climática, à segurança nutricional e à reforma institucional. Em 2027, a série será aberta a um ecossistema mais amplo de vozes, incluindo parceiros fundadores e organizações aliadas.
Convidamos você a acompanhar o desenvolvimento da série. É um debate que ajudará a remodelar a governança alimentar.

Manifesto da FoodDiplomacy Network
A alimentação sempre foi política: ignorar essa realidade foi o que provocou as crises alimentares.
A alimentação é uma das questões políticas mais determinantes do nosso tempo. Ela determina quem detém o poder, quem enfrenta a fome, quais nações mantêm soberania sobre seus recursos e necessidades mais básicos e quais permanecem permanentemente expostas às decisões de outros. Da pandemia de COVID-19 à guerra na Ucrânia, os choques geopolíticos demonstraram, com uma clareza devastadora, a rapidez com que seus efeitos repercutem nos sistemas alimentares — e o quanto esses sistemas influenciam o desenrolar dos acontecimentos globais.
Ainda assim, a resposta mundial continua sendo, em sua essência, de natureza técnica. Os governos recorrem a projeções de produtividade e indicadores das cadeias de abastecimento. As instituições internacionais negociam dentro de mandatos concebidos para outra época. As questões mais profundas — relacionadas à soberania, à vontade política e a quem arca com os custos das falhas sistêmicas — são consideradas difíceis demais, controversas demais ou políticas demais para serem enfrentadas diretamente. Essa omissão constitui, por si só, uma escolha política — e uma escolha que produz consequências.
A governança alimentar global atualmente não está respondendo a esses desafios. Não porque faltem dados ou conhecimentos especializados às instituições, mas porque os marcos que orientam a interação entre as nações em torno da alimentação foram concebidos para um mundo diferente — um mundo no qual os Estados eram os principais atores, os mandatos eram setoriais e estáveis e as fronteiras entre o poder público e o privado estavam claramente definidas. Hoje, os atores não estatais — do setor privado à sociedade civil — não são observadores periféricos: ocupam uma posição central no funcionamento dos sistemas alimentares e, em muitos casos, exercem uma influência comparável ou superior à dos governos.
Enfrentar essa realidade exige uma abordagem fundamentalmente diferente para o engajamento internacional — uma abordagem que denominamos Diplomacia Alimentar: o uso estratégico do diálogo, da negociação e da coordenação política para administrar as interdependências, as tensões e as assimetrias de poder que moldam os sistemas alimentares globais, bem como para construir a vontade coletiva necessária para governá-los em benefício de todos.
A FoodDiplomacy Network não é mais uma instituição nem outra agência de implementação. É um espaço no qual governos, pesquisadores e acadêmicos, organizações da sociedade civil, empresas e aqueles cujas vozes nunca foram adequadamente ouvidas pelo sistema vigente podem participar genuinamente da construção do futuro da governança alimentar global — negociando e coordenando de uma nova maneira, que a arquitetura atual não é capaz de proporcionar.
“A FoodDiplomacy Network é um espaço onde um grupo de pessoas, unido por relações de confiança, pode pensar para além das divisões setoriais, dizer aquilo que não diria em ambientes formais e formular ideias capazes de influenciar concretamente a evolução dos sistemas alimentares.”
Acreditamos que a alimentação deve se tornar uma verdadeira política de Estado — elevada ao mesmo nível da energia, da defesa e das relações exteriores — e que a segurança alimentar, a soberania alimentar e a sustentabilidade são inseparáveis. Para isso, é necessária uma nova forma de engajamento internacional: verdadeiramente multiator, politicamente honesta e capaz de aprender em tempo real.
Nosso trabalho começa pelo diálogo estratégico — reunindo aqueles que moldam os sistemas alimentares e aqueles que sofrem suas consequências para promover o tipo de debate que os ambientes formais não permitem. A partir dessa base, construiremos uma liderança intelectual capaz de reformular a maneira como a alimentação é compreendida na política global e promoveremos experiências de governança que testem, na prática, novas formas de coordenação.
Este é um convite aberto a governos, instituições internacionais, lideranças empresariais, pesquisadores, acadêmicos, organizações da sociedade civil e indivíduos, onde quer que atuem, que acreditam que a maneira como o mundo governa os sistemas alimentares precisa mudar fundamentalmente — e que uma forma diferente de diálogo não é apenas necessária, mas também possível.
A FoodDiplomacy Network está sendo construída agora. Junte-se a nós.
Dr. Stefanos Fotiou é fundador e diretor-executivo da FoodDiplomacy Network e membro do Conselho da Universidade Agrícola de Atenas
Andrej Pavicevic é editor-chefe da Impakter
Originalmente publicado na Impakter
https://impakter.com/the-emergence-of-a-practice-introducing-food-diplomacy/
