Rótulos de advertência para alimentos ultraprocessados reforçam os sistemas de rotulagem existentes e ajudam os consumidores a identificar e evitar produtos que podem prejudicar a saúde
Global Food Research Program | 02/11/2026
Um novo estudo publicado na revista Frontiers in Nutrition constatou que a inclusão de um rótulo de advertência específico para alimentos ultraprocessados (AUP) nas embalagens modificou a percepção de pais chilenos sobre o quanto esses produtos são saudáveis e influenciou sua intenção de compra. Os efeitos foram particularmente expressivos nos casos em que os produtos não apresentavam outros rótulos de advertência ou exibiam apenas um número reduzido deles.
Para compreender melhor como a rotulagem de alimentos ultraprocessados pode atuar em conjunto com os avisos nutricionais já existentes, pesquisadores da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (UNC-Chapel Hill) e do Instituto de Nutrição e Tecnologia de Alimentos da Universidade do Chile conduziram um ensaio on-line, randomizado e controlado. Os participantes foram distribuídos em dois grupos:
- Grupo de controle: avaliou produtos que apresentavam apenas os rótulos de advertência atualmente adotados no Chile, indicativos de alto teor de sódio ou de gordura saturada.
- Grupo com advertência para alimentos ultraprocessados: avaliou produtos que, além dos rótulos chilenos referentes ao alto teor de sódio e de gordura saturada, apresentavam, quando aplicável, um rótulo octogonal branco adicional com a inscrição “ultraprocessado”.

Antes do início do estudo, os participantes receberam informações sobre o significado do termo “ultraprocessado”. A medida buscou reproduzir, de maneira mais realista, um cenário de implementação de política pública no qual o governo também informa os consumidores sobre o significado de um novo rótulo alimentar.
Durante a pesquisa on-line, mais de 3.500 participantes avaliaram sua intenção de compra, identificaram se os produtos eram ultraprocessados e avaliaram se os consideravam saudáveis.
De modo geral, os pesquisadores constataram que a maior redução na intenção de compra ocorreu quando o rótulo de advertência para alimentos ultraprocessados era o único presente, em comparação com produtos que, além desse rótulo, apresentavam advertências relativas a dois nutrientes. Os resultados sugerem que, no atual cenário regulatório, a rotulagem específica para alimentos ultraprocessados pode exercer maior influência sobre as percepções e o comportamento dos consumidores quando esses produtos não apresentam advertências nutricionais ou exibem apenas um número reduzido delas.
“A principal contribuição deste estudo é nos ajudar a compreender que valor adicional os rótulos de advertência para alimentos ultraprocessados podem oferecer em contextos nos quais já existe um sistema de rotulagem nutricional”, afirma Aline D’angelos Campos, PhD, pesquisadora de pós-doutorado do Programa Global de Pesquisa Alimentar da UNC-Chapel Hill e primeira autora do estudo.
“Em muitos casos, os rótulos nutricionais e os específicos para alimentos ultraprocessados serão aplicáveis aos mesmos produtos. Nessas circunstâncias, nosso estudo mostra que os dois tipos de advertência podem ser redundantes para os consumidores. Entretanto, se uma parcela expressiva dos alimentos ultraprocessados não atender aos critérios para receber advertências nutricionais — como ocorre no Chile e em outros países —, os rótulos específicos para essa categoria serão os únicos aplicáveis a muitos produtos. Nosso estudo indica que é justamente nessas situações que eles produzem os maiores efeitos. Portanto, nesses casos, podem representar um importante benefício adicional.”
Estima-se que 40% dos alimentos ultraprocessados comercializados no Chile não apresentem qualquer rótulo de advertência nutricional. Assim, a adoção de uma advertência específica para essa categoria de produtos poderia influenciar significativamente as decisões de compra dos consumidores e a qualidade geral da alimentação no país.
Embora os alimentos ultraprocessados frequentemente apresentem elevada densidade calórica e altos teores de nutrientes cujo consumo excessivo é motivo de preocupação — como açúcar, sódio e gordura saturada, contemplados pela regulamentação chilena vigente —, seus efeitos negativos sobre a saúde persistem mesmo quando se considera sua composição nutricional.
Os processos industriais podem tornar os alimentos particularmente saborosos e fáceis de digerir, favorecendo o consumo excessivo e prejudicando o microbioma e outros sistemas do organismo. Além disso, os fabricantes podem reformular seus produtos para atender aos critérios nutricionais estabelecidos pela regulamentação vigente sem, contudo, modificar os ingredientes ou os processos industriais que os tornam ultraprocessados.
O interesse pela regulamentação dos alimentos ultraprocessados vem crescendo de maneira consistente. No Chile, onde os rótulos de advertência nutricional na parte frontal das embalagens são obrigatórios há uma década, o Senado vem discutindo a possibilidade de acrescentar uma advertência específica para alimentos ultraprocessados às embalagens dos produtos correspondentes.
“No Chile, as discussões sobre a possibilidade de regulamentar os alimentos ultraprocessados ainda estão em estágio inicial, e as primeiras conversas sobre o tema estão ocorrendo na Comissão de Saúde do Senado”, afirma Natalia Rebolledo, PhD, professora assistente do Instituto de Nutrição e Tecnologia de Alimentos da Universidade do Chile e autora sênior do estudo.
“Nossos resultados oferecem evidências oportunas que podem ajudar a orientar essas discussões e subsidiar o desenvolvimento de políticas públicas fundamentadas em evidências científicas, voltadas à melhoria dos ambientes alimentares e à proteção da saúde pública. Embora sejam necessárias novas pesquisas, este estudo representa um primeiro passo importante para compreender como os rótulos de advertência para alimentos ultraprocessados podem funcionar no contexto chileno.”
A pesquisa contou com o apoio da Bloomberg Philanthropies, como parte de seu Programa de Política Alimentar.
Baixe aqui o estudo “Front-of-package ultraprocessed warning labels: a randomized controlled trial with Chilean parents“
Citação do artigo
D’Angelo Campos A, Smith Taillie L, Hall MG, Ng SW and Rebolledo N (2026) Front-of-package ultraprocessed warning labels: a randomized controlled trial with Chilean parents. Front. Nutr. 13:1973978. doi: 10.3389/fnut.2026.1973978
Publicado originalmente pelo Global Food Research Program da University of North Carolina at Chapel Hill
https://www.globalfoodresearchprogram.org/ultra-processed-food-labels-give-existing-labeling-systems-a-boost-help-consumers-identify-and-avoid-purchasing-foods-that-may-harm-health/
