Fome recua na América Latina e Caribe, mas pobreza rural segue estagnada, diz FAO

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Em apresentação divulgada online, o economista-chefe da FAO, Máximo Torero, defende combinar proteção social, apoio à agricultura familiar e oportunidades de geração de renda.

Blog do IFZ | 06/11/2026

A América Latina e o Caribe avançaram no combate à fome. Entre 2020 e 2025, a proporção de pessoas em situação de insegurança alimentar moderada ou grave caiu de 33% para 22,9%. No mesmo período, a prevalência da subalimentação, indicador que a FAO usa para medir a fome, passou de 6,1% para 4,8%. Já a redução da pobreza extrema rural ficou praticamente estagnada entre 2014 e 2024, segundo dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) para 18 países latino-americanos. Mulheres e populações rurais continuam mais expostas à insegurança alimentar.

Os dados apresentados por Torero ajudam a entender por que é tão difícil reduzir a pobreza no campo. Em 2024, 77,3% dos trabalhadores rurais estavam em ocupações de baixa produtividade, ante 59,5% dos trabalhadores urbanos nos 18 países analisados. Em um recorte de 16 países, a renda média dos agricultores por conta própria equivalia a 2,6 vezes a linha nacional de pobreza, ante 6,5 vezes entre os assalariados agrícolas.

Da proteção social à geração de renda

Programas como o Progresa, no México, e a Renta Dignidad, na Bolívia, mostram como a proteção social pode melhorar a renda e o bem-estar das famílias. Ampliar a cobertura continua sendo necessário. Para reduzir a pobreza de forma duradoura, Torero defende associar as transferências a instrumentos que ajudem as famílias a produzir, acessar mercados e obter renda.

Na Índia, participantes de um programa que combinou transferências, ativos produtivos e capacitação tinham renda 30% maior após dez anos. Em Bangladesh, um programa semelhante ajudou mulheres a passar de trabalhos ocasionais à criação de animais, com ganhos sustentados ao longo de sete anos. No Peru, a articulação do Haku Wiñay com o programa de transferências Juntos combinou apoio produtivo, assistência técnica e educação financeira, com efeitos positivos sobre a renda e o bem-estar das famílias rurais.

O que mostra a experiência brasileira

Na estratégia Brasil Sem Fome, o Bolsa Família sustenta a renda das famílias, as compras públicas abrem mercado para a agricultura familiar e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) garante refeições aos estudantes da rede pública. Quando a escola compra alimentos da agricultura familiar, a mesma política melhora o acesso dos estudantes à alimentação e cria demanda para os produtores locais. No triênio 2022–2024, a prevalência da subalimentação no Brasil ficou abaixo de 2,5%, e o país voltou a sair do Mapa da Fome da FAO.

Para ampliar essas políticas, Torero defende instituições capazes de coordená-las e avaliar seus resultados, além de financiamento estável. Entre as opções estão a arrecadação progressiva, o combate à evasão fiscal e a revisão de subsídios regressivos. Despesas permanentes exigem receitas permanentes. Para secas, enchentes e outros choques, instrumentos financeiros contratados de antemão permitem agir mais cedo e reduzir a dependência de endividamento emergencial. Essa capacidade de resposta ajuda a preservar tanto o acesso à alimentação quanto os meios de vida das famílias rurais.

Baixe aqui a apresentação “Políticas y programas efectivos de la región para erradicar el hambre y la pobreza, y reducir la malnutrición y la desigualdad“