Mais de 20 mil ataques contra mercados, áreas agrícolas e sistemas de distribuição de alimentos foram registrados desde 2018
Por Mark Townsend no The Guardian | 24/05/2026
A fome vem sendo cada vez mais usada como arma de guerra. Uma nova análise identificou mais de 20 mil episódios documentados de “violência relacionada à alimentação” ao longo dos últimos oito anos.
Os ataques incluem 1.261 bombardeios contra mercados frequentados por famílias em suas compras diárias e 863 incidentes em que sistemas de distribuição de alimentos foram deliberadamente atingidos, com trabalhadores mortos durante as ofensivas.
A análise examinou o período posterior à aprovação da Resolução 2417 do Conselho de Segurança da ONU, que, em 2018, condenou por unanimidade o uso deliberado da fome contra civis. O estudo conclui que a fome vem sendo progressivamente transformada em arma de guerra, com o abastecimento de alimentos rotineiramente atacado em Gaza, no Sudão, no Líbano, no Haiti e em outros territórios.
Dados compilados pela organização Insecurity Insight registraram 21.403 incidentes em 15 países nos quais o abastecimento alimentar foi deliberadamente atacado desde 2018, quando o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou, também por unanimidade, uma resolução condenando a negação ilegal de ajuda humanitária como tática de guerra.
Os pesquisadores identificaram 1.909 ataques militares contra áreas agrícolas e outros 563 contra infraestruturas hídricas essenciais para as lavouras, comprometendo a segurança alimentar em mais de 42 países e territórios.
O maior número de ocorrências foi registrado no Território Palestino Ocupado, com 9.013 ataques, seguido pelo Iêmen, com 1.863 incidentes, e pelo Sudão, onde o abastecimento de alimentos foi alvo de 1.605 ataques. Um dos episódios mais recentes ocorreu na terça-feira, quando um drone atingiu um mercado movimentado no Sudão, matando 28 pessoas.
Segundo testemunhas, o principal mercado da cidade de Ghubaysh, no estado de Kordofan Ocidental, parece ter sido deliberadamente atacado por forças militares enquanto estava lotado de civis.
Outros países que registraram ataques recorrentes contra o abastecimento de alimentos incluem a Síria, com 1.538 incidentes — muitos deles atribuídos às forças do governo sírio ou a militares russos antes da queda do regime Assad —, além do Mali, onde foram registrados 1.415 ataques enquanto a junta militar lutava para manter o poder no país da África Ocidental.
A pesquisa, que será divulgada na segunda-feira, coincidindo com o aniversário da resolução da ONU, descreve um “aumento acentuado” nos ataques a mercados, áreas agrícolas e sistemas de distribuição de alimentos.
Giulia Contò, responsável pela área de advocacy sobre conflitos e fome da organização Action Against Hunger, afirmou:
“A fome em Gaza e no Sudão ganhou as manchetes internacionais nos últimos dois anos, mas a maior parte da fome provocada por conflitos raramente recebe a mesma atenção. Ela se desenrola diariamente, por meio de ataques incessantes aos sistemas dos quais as comunidades dependem para sobreviver: rebanhos saqueados, mercados bombardeados, comboios humanitários bloqueados.”
Os pesquisadores também constataram que civis frequentemente eram atacados enquanto tentavam obter alimentos. Entre outubro de 2023 e o fim de 2025, mais de 10.300 pessoas morreram ou ficaram feridas ao tentar acessar ajuda humanitária.
Christina Wille, diretora da Insecurity Insight, instou a comunidade internacional a implementar efetivamente a resolução da ONU, afirmando que os Estados têm a responsabilidade de “agir diante das violações”.
Segundo ela:
“O problema não é que a Resolução 2417 tenha fracassado, mas que os Estados-membros falharam em implementá-la e em demonstrar vontade política para impedir precisamente as práticas que a comunidade internacional afirma condenar.”
Wille observou ainda que as mulheres são afetadas de maneira desproporcional pelo uso da fome como arma de guerra.
“As mulheres, em particular, enfrentam algumas das escolhas mais difíceis: o acesso precário aos alimentos pode significar percorrer distâncias maiores, aumentando os riscos à sua segurança em contextos de violência.
“Mulheres que antes eram principalmente responsáveis pelos cuidados da família são forçadas a assumir também o papel de provedoras, frequentemente reduzindo sua própria alimentação para priorizar outros membros da casa. Sem comida suficiente, crianças deixam de brincar, aprender e se desenvolver plenamente — e as consequências para seu desenvolvimento podem durar a vida inteira.”
Os conflitos continuam sendo o principal fator impulsionador da fome no mundo, respondendo por mais da metade de todas as pessoas submetidas à fome severa.
No mês passado, agências das Nações Unidas alertaram que uma parcela cada vez maior da fome global está concentrada em um pequeno grupo de países devastados por conflitos armados: atualmente, dois terços das pessoas em situação de insegurança alimentar aguda vivem em apenas dez países.
Publicado originalmente no The Guardian
https://www.theguardian.com/global-development/2026/may/24/hunger-weapon-of-war-food-violence-surges
Traduzido pelo Blog do IFZ
