Brasil avança contra a pobreza, mas grandes capitais ainda sentem o peso da desarticulação das políticas sociais

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Por Mauro Delgrossi | 29/12/2025

Baixe aqui o estudo “Brasil avança contra a pobreza, mas grandes capitais ainda sentem o peso da desarticulação das políticas sociais – 2015 a 2024

O Brasil encerrou 2024 com uma notícia histórica: o menor nível de pobreza e desigualdade em 30 anos, ao mesmo tempo em que a renda média da população alcançou o maior patamar desde meados da década de 1990. Os dados do IBGE e as análises do IPEA indicam uma recuperação social robusta após anos de instabilidade econômica. Mas, por trás da melhora nacional, há uma realidade menos homogênea — especialmente nas grandes capitais brasileiras.

Uma década marcada por altos e baixos

Entre 2015 e 2024, o país reduziu em mais de 4 milhões o número de pessoas vivendo em extrema pobreza, considerando o critério internacional de renda inferior a US$ 2,15 por dia (PPC 2017). No entanto, esse resultado esconde movimentos bastante distintos ao longo desses dez anos.
Entre 2015 e 2018, período marcado pelo último ano de crise do governo Dilma e inteiramente sob o governo Temer, a pobreza cresceu fortemente, com quase 3,8 milhões de brasileiros empurrados para essa condição. O impacto foi especialmente severo no Nordeste, que concentrou mais da metade desse aumento.
Já entre 2019 e 2022, no governo Bolsonaro, houve uma redução de cerca de 2,8 milhões de pessoas em situação de pobreza, impulsionada por programas de transferência de renda emergenciais durante a pandemia da Covid-19. Ainda assim, várias capitais — como Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre e Rio Branco — registraram aumento da miséria nesse período.
A virada mais expressiva ocorreu entre 2023 e 2024, no governo Lula 3. Em apenas dois anos, o Brasil retirou quase 5 milhões de pessoas da pobreza extrema, resultado associado principalmente à retomada e à ampliação do Bolsa Família e das políticas sociais.

Capitais: recuperação desigual

Embora o país tenha avançado, nem todas as capitais acompanharam o mesmo ritmo de melhora. Cidades como Rio de Janeiro, João Pessoa, Porto Velho, Rio Branco e Cuiabá apresentaram quedas significativas no número de pessoas em extrema pobreza nos últimos dois anos, revertendo parte das perdas acumuladas anteriormente.
Por outro lado, São Paulo, Salvador, Belo Horizonte, Fortaleza e Recife ainda não conseguiram recuperar totalmente o retrocesso observado entre 2015 e 2022. Em alguns casos, como São Paulo e Salvador, o número de pessoas extremamente pobres em 2024 permanecia acima do registrado no início do período.

O papel dos governos locais

Os números chamam atenção para um fator muitas vezes ignorado no debate público: o papel decisivo das prefeituras. Ao longo do período analisado, o país passou por três ciclos completos de governos municipais, com orientações políticas e prioridades distintas.
A atuação local influencia diretamente a capacidade de identificar famílias vulneráveis, cadastrá-las no Cadastro Único e garantir acesso aos programas federais de transferência de renda. Em outras palavras, mesmo com políticas nacionais eficazes, a pobreza pode persistir onde a gestão municipal falha.

O que os números revelam

Os dados mostram que a redução da pobreza não é automática nem garantida. Ela depende de crescimento econômico com inclusão, políticas de transferência de renda bem estruturadas e gestão pública eficiente nos níveis federal, estadual e municipal.
A experiência da última década deixa uma lição clara: quando políticas sociais são desmontadas ou enfraquecidas, a pobreza avança rapidamente; quando são retomadas com força, os resultados aparecem — mas de forma desigual entre regiões e cidades.

Um alerta para o futuro

O Brasil entra na segunda metade da década de 2020 com indicadores sociais melhores, mas o mapa da pobreza mostra que as grandes cidades ainda são um desafio central. Para a classe média urbana, o recado é direto: a redução da pobreza não é apenas uma questão humanitária, mas também de qualidade de vida, segurança, mobilidade e coesão social nas cidades.
Manter e aperfeiçoar políticas públicas eficazes nos próximos anos será decisivo para evitar que os avanços recentes se percam novamente.

Tabela 1: Evolução da pobreza no Brasil, Estados e Capitais, segundo os mandatos dos Presidentes da República.
(pessoas com rendimento domiciliar per capita menor que US$ 2,15 PPC 2017)

Tabela01 Evolução da pobreza no Brasil, Estados e Capitais, segundo os mandatos dos Presidentes da República

Fonte: organizado pelo autor, com base nas informações do IBGE

Tabela 2: Evolução do número de pessoas com rendimento domiciliar menor que US$ 2,15 PPC 2017

Tabela02 Evolução do número de pessoas com rendimento domiciliar menor que US$ 2,15 PPC 2017

Fonte: IBGE / Síntese dos Indicadores Sociais (SIS) – 2025.

Baixe aqui o estudo “Brasil avança contra a pobreza, mas grandes capitais ainda sentem o peso da desarticulação das políticas sociais – 2015 a 2024