Por Tristan Quinn-Thibodeau e Jordan Treakle para a National Family Farm Coalition | 23/02/2026
Embora a luta das comunidades rurais pelo acesso à terra se prolongue há séculos, a apropriação global de terras intensificou-se de maneira significativa após a crise dos preços dos alimentos de 2007–2008 e a crise financeira concomitante de 2008. Corporações do Norte Global — como empresas do agronegócio e fundos de hedge, conhecidas por suas práticas agressivas e exploratórias — passaram a adquirir extensas áreas no Sul Global, impulsionadas pela alta das commodities e pela valorização crescente da terra.
Não é irrelevante que tais processos tenham se desencadeado quase imediatamente após a Primeira Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (CIRADR), realizada em 2006, bem como após o evento paralelo organizado por movimentos sociais, o Fórum “Terra, Território e Dignidade”. A CIRADR, sediada no Brasil e promovida pelas Nações Unidas, foi um marco histórico ao abrir um novo espaço político para que movimentos sociais pudessem incidir, em escala global, sobre as políticas fundiárias.
Atualmente, os povos rurais enfrentam ameaças e desafios inéditos à segurança da posse da terra e ao controle democrático dos territórios. Entre essas ameaças figuram a especulação financeira e a expansão da propriedade corporativa da terra; a destruição ecológica, os eventos climáticos extremos e a crise climática; a desigualdade; bem como o agravamento da fome e da pobreza. A apropriação de terras, em particular, tornou-se mais volumosa, mais disseminada e mais complexa. Já não se trata de um fenômeno circunscrito a âmbitos locais, regionais ou nacionais: trata-se de um processo global. Tampouco é conduzido apenas por elites agrárias internas. Algumas das maiores instituições financeiras do mundo — como fundos de pensão e de aposentadoria, que administram ativos globais estimados em quase 60 trilhões de dólares e figuram entre os agentes mais poderosos do setor financeiro — passaram a incorporar terras agrícolas em diferentes regiões do planeta como uma nova classe de ativos financeiros.
Além disso, a dinâmica contemporânea da apropriação global de terras já não se caracteriza exclusivamente por corporações agressivas do Norte Global explorando o Sul. Também terras situadas no próprio Norte passaram a ser alvo de aquisição massiva, ao passo que fundos financeiros e empresas do Sul Global são progressivamente incorporados a esses novos arranjos internacionais de transações fundiárias.
Trata-se de um momento decisivo para a Segunda Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (CIRADR+20), prevista para ocorrer em Cartagena, Colômbia, entre 24 e 26 de fevereiro de 2026. Duas décadas após a conferência inaugural, movimentos sociais globais de povos rurais e produtores de alimentos afirmam esperar que a CIRADR+20 avance para além do reconhecimento dos problemas: que confronte a concentração fundiária, assegure direitos coletivos e consuetudinários, promova uma reforma agrária de caráter redistributivo, garanta justiça de gênero e entre gerações e defenda os territórios como espaços de resistência, esperança e transformação.
Baixe aqui o documento “ICARRD+20: Linking National and Global Land Policy Debates to Advance Land Justice and Reform“
Publicado originalmente no Farmlandgrab
https://farmlandgrab.org/post/33336-icarrd-20-linking-national-and-global-land-policy-debates-to-advance-land-justice-and-reform
