Pobreza além da renda: 1,2 bilhão de pessoas enfrentam privações simultâneas no mundo

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Blog do IFZ | 12/10/2026

A pobreza se manifesta na alimentação inadequada, na interrupção dos estudos, na falta de saneamento, na precariedade da moradia e nas dificuldades de acesso a serviços essenciais. Quando essas privações se acumulam, comprometem as possibilidades de desenvolvimento das pessoas e a capacidade das famílias de superar sua vulnerabilidade. O relatório Índice Global de Pobreza Multidimensional 2026: Atualização Estatística (Global Multidimensioonal Poverty Index 2026: Statistical Update), publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e pela Iniciativa de Oxford sobre Pobreza e Desenvolvimento Humano (OPHI), apresenta a dimensão desse desafio.

Nos 108 países analisados, que reúnem 6,3 bilhões de habitantes, aproximadamente 1,2 bilhão de pessoas vivem em pobreza multidimensional aguda. Isso corresponde a 18,9% da população abrangida pelo estudo. Entre essas pessoas, 534 milhões enfrentam pobreza severa, acumulando privações em pelo menos metade dos indicadores ponderados. Outros 952 milhões são considerados vulneráveis, pois apresentam desvantagens simultâneas que ainda não atingem o limiar utilizado para identificar a pobreza multidimensional.

O Índice de Pobreza Multidimensional (IPM) reúne dez indicadores em três dimensões: saúde, educação e condições de vida. São considerados aspectos como nutrição, mortalidade infantil, escolaridade, frequência escolar, acesso à água, saneamento, eletricidade, combustível para cozinhar, moradia e bens básicos. Uma pessoa é identificada como pobre quando suas privações alcançam pelo menos um terço do total ponderado. O índice combina a incidência da pobreza com sua intensidade, permitindo observar quantas pessoas são afetadas e quantas desvantagens enfrentam simultaneamente.

As crianças estão no centro dessa realidade. Cerca de 617 milhões de menores de 18 anos vivem em pobreza multidimensional, representando 51,5% de todas as pessoas pobres identificadas pelo relatório. Aproximadamente uma em cada três crianças é pobre, contra um em cada sete adultos. Essa desigualdade compromete o presente e pode perpetuar desvantagens ao longo da vida, especialmente quando dificuldades alimentares se combinam com condições inadequadas de saúde e educação.

O recorte territorial é igualmente expressivo. 83,3% das pessoas multidimensionalmente pobres vivem em áreas rurais, aproximadamente 998 milhões de indivíduos. A incidência da pobreza nessas áreas chega a 28,7%, comparada a 7% nas cidades. A intensidade das privações também é maior no campo. Esses resultados reforçam a necessidade de políticas que conectem desenvolvimento rural, serviços públicos, proteção social e oportunidades econômicas.

A África Subsaariana concentra aproximadamente 616 milhões de pessoas pobres, mais da metade do total identificado. O Sul da Ásia reúne outros 393 milhões, seguido pelo Leste Asiático e Pacífico, com 104 milhões, e pelos Estados Árabes, com 51 milhões. Na América Latina e no Caribe, cerca de 33 milhões de pessoas enfrentam pobreza multidimensional, com incidência regional de 5,5%.

A distribuição por renda nacional traz outra mensagem relevante: 65,1% das pessoas multidimensionalmente pobres vivem em países de renda média. Portanto, o crescimento econômico e a classificação de renda de um país não garantem, por si sós, que todos tenham acesso a condições adequadas de vida. Médias nacionais podem ocultar desigualdades profundas entre territórios e grupos populacionais.

Os perfis de privação também variam. Mais de um bilhão de pessoas pobres vivem em domicílios que utilizam combustíveis sólidos para cozinhar. Na África Subsaariana, as carências associadas às condições de vida têm grande peso, enquanto, no Sul da Ásia, nutrição e educação se destacam. Para o Instituto Fome Zero, essa diversidade reforça a importância de respostas ajustadas às necessidades de cada população, articulando alimentação adequada com outras dimensões do bem-estar.

O relatório também demonstra que reduzir a pobreza multidimensional é possível. Entre 89 países com séries comparáveis, 76 registraram redução estatisticamente significativa do IPM em pelo menos um período analisado. Em 54, a redução ocorreu em todos os períodos observados. Além disso, 33 países reduziram seu índice pela metade em menos de 15 anos.

Esses avanços, porém, convivem com retrocessos. Na Nigéria, entre 2021 e 2024, aproximadamente 17,9 milhões de pessoas passaram a integrar o contingente em pobreza multidimensional. O documento alerta também que o aumento do total global entre as edições de 2025 e 2026 não representa uma medição simples de piora em um ano: resulta de crescimento populacional, atualização de pesquisas e mudanças na cobertura.

Para o IFZ, os resultados sustentam uma agenda de políticas integradas e contínuas. Transferências de renda, alimentação escolar, atenção nutricional, educação, saneamento e desenvolvimento rural podem enfrentar privações que se reforçam mutuamente. A proteção social antecipatória também pode contribuir para preservar conquistas diante de choques, evitando que famílias comprometam sua alimentação ou interrompam o acesso a serviços essenciais.

No caso brasileiro, o relatório apresenta incidência de 3,8% de pobreza multidimensional, mas utiliza uma pesquisa de 2015, sem uma série comparável que permita avaliar a evolução posterior. A estimativa também não inclui o indicador de nutrição. Sua contribuição para analisar a situação atual do país é, portanto, limitada, reforçando a necessidade de dados mais recentes e completos.

Mensagens principais

  • Cerca de 1,2 bilhão de pessoas vivem em pobreza multidimensional nos países analisados.
  • Crianças e populações rurais enfrentam riscos desproporcionalmente elevados.
  • Quase dois terços das pessoas pobres vivem em países de renda média, onde médias nacionais ocultam desigualdades.
  • Avanços são possíveis: 33 países reduziram seu IPM pela metade em menos de 15 anos.
  • Combater privações simultâneas exige políticas integradas, com alimentação adequada e proteção social.
  • Os dados brasileiros são de 2015 e não permitem avaliar a trajetória recente do país.

Baixe aqui o relatório “Global Multidimensioonal Poverty Index 2026: Statistical Update“