Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) realiza conferência regional em Brasília e define prioridades para América Latina e Caribe
Blog do IFZ | 04/03/2026
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), agência das Nações Unidas dedicada à promoção de políticas públicas eficazes nas áreas de agricultura, alimentação e nutrição, iniciou hoje, em Brasília, a 39ª Sessão de sua Conferência Regional para a América Latina e o Caribe. O encontro, que se estenderá por três dias, reúne ministras, ministros e altas autoridades dos 32 países-membros da região com a responsabilidade de definir as prioridades que orientarão a atuação da Organização no biênio 2026-2027.
Impulsionados pelos resultados registrados no relatório The State of Food Security and Nutrition in the World (SOFI), publicado pela FAO, os países da América Latina e do Caribe chegam a esta conferência com evidências concretas de redução da insegurança alimentar, ainda que atravessadas por assimetrias internas. Em 2024, mais de seis milhões de pessoas deixaram a condição de fome em comparação com 2020, conforme os dados apresentados na abertura dos trabalhos. Esse avanço decorre de políticas públicas estruturadas, do fortalecimento de mecanismos de proteção social e de maior coordenação entre diferentes esferas institucionais. Persistem, entretanto, desafios relevantes, sobretudo o elevado custo das dietas saudáveis, que restringe o acesso pleno à alimentação adequada e indica que o progresso alcançado exige continuidade, aperfeiçoamento técnico e compromisso político duradouro.
Na cerimônia de abertura, o diretor-geral da FAO, QU Dongyu, ressaltou que a América Latina e o Caribe contam com instrumentos técnicos, experiência institucional e capital humano para transformar desafios em oportunidades concretas. Ele destacou que o progresso recente resulta de políticas públicas inovadoras e uma coordenação eficaz entre diferentes setores e instituições.
Ao mesmo tempo, Qu advertiu que fatores externos — como preços em ascensão dos alimentos, restrições fiscais, queda no financiamento ao desenvolvimento, tensões geopolíticas e eventos climáticos extremos — tornam os sistemas agroalimentares mais complexos e suscetíveis a choques. Para responder a esse cenário, propôs uma evolução institucional que ultrapasse ajustes incrementais, priorizando resiliência produtiva, ciência, tecnologia e inclusão social.
O diretor-geral também ressaltou a importância de integrar respostas imediatas com estratégias de longo prazo para proteger os mais vulneráveis e fortalecer o impacto sustentável das políticas públicas. Em um contexto de recursos cada vez mais seletivos, ele sublinhou que credibilidade institucional e coordenação eficiente são elementos centrais para manter a confiança de governos, investidores e sociedade civil.
Segundo os dados apresentados, Brasil, Costa Rica, Guiana e Uruguai reportam prevalência de subalimentação inferior a 2,5 % da população, parâmetro utilizado no Mapa da Fome da FAO, enquanto Chile, República Dominicana e México estão no caminho de alcançar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 2 – Fome Zero até 2030.

A participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
A sessão inaugural contou com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que reiterou o combate à fome como uma responsabilidade política e ética. Em seu discurso, Lula afirmou que a insegurança alimentar não decorre de fatos naturais inevitáveis, mas de decisões governamentais e prioridades de financiamento.
O presidente apresentou um cálculo comovente: os gastos globais com armamentos no ano anterior somaram US$ 2,7 trilhões. Se esse montante fosse redistribuído entre as cerca de 630 milhões de pessoas que passam fome hoje no mundo, cada uma poderia receber cerca de US$ 4.285. Para Lula, essa comparação evidencia que a fome persiste por falta de vontade política.
Lula dirigiu um apelo direto aos membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas — França, Inglaterra, Rússia, China e Estados Unidos — para que priorizem a segurança alimentar global em vez da corrida armamentista. Ele questionou a centralidade do discurso militar e defendeu que a autoridade internacional deveria estar vinculada à capacidade de produzir e distribuir alimentos.
O presidente criticou ainda iniciativas ligadas à reconstrução de áreas devastadas por conflitos recentes e instou a ONU a retomar com vigor os princípios inscritos em sua carta fundadora, colocando a dignidade humana e a justiça social no centro de suas ações.
Baixe aqui a transcrição do discurso do presidente Lula na Abertura da 39ª Conferência Regional da FAO para a América Latina e o Caribe

Lula fala do Fome Zero
Ao tratar da experiência brasileira, Lula recordou que o país deixou o Mapa da Fome da FAO em 2014 após a implementação do Programa Fome Zero, da ampliação da proteção social, do apoio à agricultura familiar e dos programas de transferência de renda. Mencionou, nesse contexto, o papel desempenhado por José Graziano da Silva, um dos formuladores do programa e que posteriormente dirigiu a própria FAO, entre 2012 e 2019, levando ao plano internacional a agenda de combate estrutural à fome.
O presidente reconheceu que, em anos recentes, o Brasil voltou a registrar agravamento da insegurança alimentar, que chegou a atingir 33 milhões de pessoas. Segundo afirmou, a retomada de políticas públicas estruturadas possibilitou reverter esse quadro e reduzir novamente os índices de fome, reforçando a avaliação de que resultados consistentes dependem de continuidade administrativa e coordenação federativa.
Para Lula, a experiência brasileira demonstra que é possível acabar com a fome quando existe vontade política e políticas públicas consistentes. O presidente enfatizou que o combate à fome não deve ser tratado como ação assistencial pontual, mas como um direito fundamental, garantindo que todas as pessoas tenham acesso à alimentação adequada diariamente.
A agenda dos três dias de trabalhos
Ao longo de três dias, a conferência examinará e deliberará prioridades alinhadas ao Marco Estratégico da FAO, ao Plano de Médio Prazo e aos marcos de programação por país, com ênfase nos seguintes temas:
- Mesa ministerial sobre políticas para erradicar a fome e reduzir a pobreza, com foco em programas que mitigaram os impactos da alta de preços dos alimentos por meio de proteção social e cadeias locais de abastecimento mais curtas.
- Rodada ministerial sobre a reversão da desaceleração dos ganhos de produtividade agrícola na região, reconhecendo que mais de 100 milhões de meios de vida dependem dos sistemas agroalimentares.
- Debate sobre os drivers, gatilhos e estratégias para transformar os sistemas agroalimentares, com o objetivo de enfrentar a desindustrialização que limita oportunidades de agregação de valor.
- Discussão sobre caminhos de política pública para agricultura e silvicultura sustentáveis, adaptadas às necessidades de desenvolvimento resiliente ao clima.
- **Evento especial de alto nível sobre a *Iniciativa Hand-in-Hand*, que estruturou quase *US$ 3 bilhões em projetos financiáveis na região*, ampliando o financiamento com foco em inclusão e resiliência.
Outros temas da agenda incluem gestão sustentável de água e solos e a abordagem One Health, que integra saúde humana, animal e ambiental — um marco essencial para lidar com riscos que afetam simultaneamente populações, ecossistemas e cadeias de produção.
Expectativas e desafios para a região
À medida que a etapa inaugural se encerra, permanece a expectativa de que os compromissos debatidos em Brasília se convertam em decisões coordenadas, mensuráveis e eficazes. A América Latina e o Caribe ocupam posição singular no cenário global por serem grandes exportadores líquidos de alimentos e guardiões de vastos patrimônios ambientais, incluindo ecossistemas críticos como a Bacia Amazônica e uma bioversidade única. O desafio posto aos governos e instituições é harmonizar essa relevância estratégica com a garantia concreta de acesso regular a uma alimentação adequada, nutritiva e saudável para toda a população.
