‘A fome não é um problema de produção, mas de acesso’, aponta José Graziano, idealizador do Fome Zero

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Professor emérito participa do 1º Fórum de Engenharia de Alimentos da Unicamp, na FEA; desperdício, saúde e desafios do clima são temas em pauta

Por Fabio Gallacci no Jornal da Unicamp | 11/03/2026

Safras recordes não são, necessariamente, a solução para acabar com a fome ou oferecer uma dieta saudável no prato da população em geral. No Brasil, a mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) aponta que 6,4 milhões de pessoas ainda enfrentam insegurança alimentar grave diariamente, mesmo com 292,5 milhões de toneladas de grãos colhidas em 2024. O economista e filósofo indiano Amartya Sen, ganhador do Nobel de Ciências Econômicas em 1998, já alertava sobre a questão. Essa incômoda marca foi um dos destaques da palestra do engenheiro agrônomo, doutor em Economia e professor emérito da Unicamp, José Graziano da Silva, intitulada “Combate à fome e desperdício de alimentos”. Ao lado de outros especialistas da área, ele participou do “1º Fórum de Engenharia de Alimentos da Unicamp”, realizado pela Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), nesta terça-feira (10).

O evento, direcionado para a comunidade acadêmica e para integrantes de instituições públicas, serviu para debater temas como a fome e o desperdício. As mudanças climáticas e seus impactos na cadeia produtiva, o papel da alimentação na promoção da saúde e a importância do processamento de alimentos no desenvolvimento da humanidade também estiveram em pauta.

Da esquerda para a direita, o ex-reitor Antonio Meirelles, a pró-reitora de Pós-Graduação, Cláudia Morelli e o diretor da FEA, Anderson de Souza Sant'Ana: Primeira edição do Fórum tratou do combate à fome e desperdício de alimentos
Da esquerda para a direita, o ex-reitor Antonio Meirelles, a pró-reitora de Pós-Graduação, Cláudia Morelli e o diretor da FEA, Anderson de Souza Sant’Ana: Primeira edição do Fórum tratou do combate à fome e desperdício de alimentos

Graziano, que foi um dos idealizadores do Programa Fome Zero – implantado em 2003 como uma iniciativa focada em agricultura familiar, educação nutricional e transferência de renda como forma de combater um problema crônico brasileiro –, afirmou que não basta apenas o sucesso no campo. De acordo com o pesquisador, é preciso investir em uma diversidade maior de produtos que realmente tragam nutrição saudável no dia a dia e que as pessoas possam comprar. “No Brasil, temos recorde atrás de recorde e continuamos com números assustadores da fome. Isso não é um problema de produção, mas de acesso. No caso da dieta saudável, temos um cenário ainda pior. Uma região que é o grande celeiro do mundo, como a América Latina, deveria ter um cardápio barato, mas não tem. Paradoxalmente, os latino-americanos têm uma das dietas saudáveis – que incluem frutas, verduras e legumes – com um dos custos mais altos do mundo.”

A transformação desse cenário – continuou Graziano – passa por uma nova mentalidade, e o meio acadêmico tem função estratégica nisso. “A universidade tem esse papel social, não apenas de formar pessoas que vão trabalhar nesses temas, mas também de aportar soluções. Muitas das políticas públicas desse país surgiram de iniciativas gestadas aqui na Unicamp, começando até mesmo pelo Fome Zero”, salientou. “Cada vez mais, precisamos envolver e complementar a formação técnica com essa responsabilidade social. Um seminário como esse da FEA vai nessa linha, já que o propósito é exatamente ajudar a chamar a atenção de alunos e professores, que transmitem esses conhecimentos”, acrescentou.

Desafios nacionais e mundiais

A professora Cláudia Vianna Maurer Morelli, pró-reitora de Pós-graduação, representante do reitor Paulo Cesar Montagner no evento, também destacou o papel da Universidade como difusora de novas formas de atuar perante os desafios nacionais e mundiais. “Atualmente, temas como fome, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida são essenciais. E a Unicamp é uma das universidades que mais fomentam políticas públicas no país.”

Já o ex-reitor da Unicamp e docente da FEA, Antonio José de Almeida Meirelles, abordou os “Marcos no processamento de alimentos no desenvolvimento da humanidade”. Segundo Meirelles, num país que possui uma agricultura forte e produz muitos alimentos – tanto na agroindústria como na agricultura familiar –, é preciso pensar em alimentos que, cada vez mais, dialoguem com a saúde. “Isso coloca necessidades e desafios para a Engenharia de Alimentos, para o processamento e a industrialização crescentes. Temos uma variedade grande de produtos para pessoas que têm algum tipo de restrição, por exemplo, e essa é uma preocupação que precisa estar cada vez mais presente, até pelo envelhecimento da população. Para nosso país, é uma grande oportunidade.”

Temas urgentes e estruturais

Anderson de Souza Sant’Ana, diretor da FEA, ressaltou que é importante construir um espaço dedicado a discutir temas que são, ao mesmo tempo, urgentes e estruturais para o Brasil. “Nossa pauta vai muito além da Engenharia, da Ciência e da Tecnologia de Alimentos. Essas áreas são importantes para a soberania, a saúde e o futuro da nossa sociedade.”

Sant’Ana lembrou ainda que, historicamente, a Engenharia de Alimentos sempre foi vista sob uma ótica estritamente industrial. No entanto, os desafios contemporâneos exigem um outro papel de protagonismo. “Devido ao seu caráter multidisciplinar, a Engenharia de Alimentos deve se apropriar desses problemas reais do país. É fundamental que esses temas discutidos no fórum se tornem pontos centrais nos currículos de graduação e pós-graduação. Precisamos formar profissionais que não apenas dominem o processamento, mas que também compreendam o alimento como um vetor de saúde pública e desenvolvimento social.”

Professor UFABC Arilson da Silva Favareto: desigualdades no mundo
Professor UFABC Arilson da Silva Favareto: desigualdades no mundo

Mudanças climáticas

Também como palestrante, o professor da UFABC Arilson da Silva Favareto abordou o tema “Como as mudanças climáticas poderão impactar na cadeia produtiva de alimentos”. De acordo com Favareto, aprimorar a relação entre a forma de produzir e distribuir alimentos e a conservação ambiental é um dos grandes desafios mundiais. “É um assunto tão importante quanto o combate ao aumento das desigualdades no mundo, a ameaça à paz e a defesa da democracia. Temas incontornáveis que são enfrentados pela nossa geração e serão encarados pelas próximas também”, apontou.

O fórum contou ainda com a presença do professor Licio Augusto Velloso, que tratou sobre o “Papel dos alimentos e da alimentação na promoção à saúde”, reforçando a mentalidade de aliar produção, acesso, responsabilidade social e preocupação com o bem-estar da população. Ao final, os presentes debateram os assuntos abordados.

Aula Magna na Feagri

A Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) realiza, no próximo dia 18, a partir das 9h30, a 1ª Aula Magna de seu programa de pós-graduação. Na ocasião, o professor Graziano falará sobre “O que ainda falta no Brasil depois de sair do Mapa da Fome”. 

Autoria: Fabio Gallacci | Edição de Imagem: Alex Calixto | Fotografia: Antoninho Perri

Publicado originalmente pelo Jornal da Unicamp
https://jornal.unicamp.br/noticias/2026/03/11/a-fome-nao-e-um-problema-de-producao-mas-de-acesso-aponta-jose-graziano-idealizador-do-fome-zero/