Por Joseph Glauber, no blog do IFPRI | 03/06/2026
O ataque ao Irã por forças dos Estados Unidos e de Israel, seguido da retaliação iraniana contra aliados estadunidenses no Golfo Pérsico, desorganizou os mercados de energia ao comprometer o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz — a única via de ligação do Golfo com o oceano aberto. Por esse corredor transitam cerca de 27% das exportações mundiais de petróleo, 20% do comércio global de gás natural liquefeito (GNL) e entre 20% e 30% das exportações de fertilizantes, incluindo ureia, amônia, fosfatos e enxofre.
Ataques com drones e foguetes contra petroleiros constituem risco permanente e elevaram os prêmios de seguro marítimo a patamares proibitivos, provocando uma retração superior a 70% no fluxo de embarcações desde o início do conflito. Caso se prolongue, a crise tende a estrangular o comércio marítimo com o Golfo Pérsico, pressionando os custos da energia e dos fertilizantes em escala global, ameaçando diretamente a segurança alimentar dos países da região — altamente dependentes da importação de grãos, oleaginosas e óleos vegetais por essa rota — e potencialmente repercutindo sobre a produção e os preços de alimentos em outras partes do mundo.
Impactos potenciais sobre o abastecimento alimentar no Golfo Pérsico
Os países do Golfo Pérsico¹ dependem fortemente da importação de commodities agrícolas. À semelhança do que ocorre em grande parte do Oriente Médio e do Norte da África, o consumo per capita de trigo é elevado, frequentemente superior a 100 kg anuais. Omã constitui exceção relativa, uma vez que o arroz importado desempenha papel central na dieta cotidiana.
A região também apresenta forte dependência de óleos vegetais e sementes oleaginosas importadas, como a soja. O açúcar figura igualmente entre os principais itens importados, sendo parte dele posteriormente processada e reexportada para a África e outras regiões.
Nos últimos dezoito meses, a inflação de alimentos manteve-se relativamente moderada na região, com a maioria dos países registrando variações anuais inferiores a 2%. A principal exceção é o Irã, que, já antes do conflito atual, enfrentava um quadro persistente de inflação elevada, decorrente de desequilíbrios macroeconômicos, sanções internacionais e seu envolvimento em conflitos regionais. Em setembro de 2025, os preços de alimentos no varejo iraniano apresentaram alta de 42% em relação ao mesmo período do ano anterior (FAOSTAT). Em Teerã, os preços de itens essenciais vêm registrando aumentos expressivos nos últimos meses.
Caso o Estreito de Ormuz permaneça, na prática, fechado à navegação, os países do Golfo terão de recorrer a rotas alternativas de abastecimento. Parte dos grãos poderá ser transportada por via terrestre — da Rússia ao Irã, ou da Síria e da Turquia ao Iraque —, ainda que a custos mais elevados. A Arábia Saudita dispõe da alternativa de seus portos no Mar Vermelho, mas esse corredor também enfrenta restrições: o volume diário de transporte marítimo recuou cerca de 60% desde dezembro de 2023, em decorrência de ataques de rebeldes houthis, aliados do Irã.
Impactos das disrupções marítimas nos mercados de energia e fertilizantes
Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Iraque escoam a maior parte de seu petróleo bruto pelo Estreito de Ormuz, sobretudo com destino à Ásia. Segundo o IMF Portwatch, aproximadamente 60% das embarcações que atravessam o estreito são petroleiros. Desde o início do conflito, em 28 de fevereiro, esse fluxo praticamente cessou, impulsionando acentuadamente os preços da energia.
Os contratos futuros de petróleo para entrega em maio de 2026 avançaram mais de US$ 10 por barril (cerca de 15%). Já os contratos do TTF holandês — referência europeia para o gás natural — superaram 65 euros por megawatt-hora em 3 de março, após um ataque com drones a uma instalação de GNL no Catar, permanecendo mais de 50% acima dos níveis anteriores ao conflito.
A abrupta retração do transporte marítimo também pressionou os preços globais dos fertilizantes. A redução nos embarques de gás natural — insumo fundamental para fertilizantes nitrogenados — elevou custos, ao passo que as exportações do Golfo Pérsico sofreram queda acentuada. Catar, Arábia Saudita, Bahrein e Omã figuram entre os principais exportadores, sobretudo de ureia, fosfato diamônico (DAP) e amônia anidra. Estimativas indicam que até um terço do comércio mundial de fertilizantes pode ser afetado. O Irã também é importante produtor de fertilizantes nitrogenados, embora exporte volumes reduzidos.
Diversos países dependem da região como fornecedora desses insumos. Como observado em 2022 e 2023 — quando disrupções no Mar Negro e restrições chinesas às exportações de nitrogênio e fosfatos tensionaram o mercado —, os importadores tenderão a buscar fontes alternativas. Tais ajustes, ainda que viáveis, implicam custos significativamente mais elevados.
Os preços já refletem essa pressão: a ureia no Oriente Médio superou US$ 590 por tonelada métrica em 5 de março, alta superior a US$ 90 em relação à semana anterior (19%). No Golfo dos EUA, o DAP atingiu US$ 655 por tonelada, com incremento de cerca de 5%. Embora ainda distantes dos picos de 2021–2022, esses aumentos ocorrem em um contexto adverso para os produtores, que enfrentam preços deprimidos para grãos e oleaginosas.
O encarecimento dos fertilizantes comprime as margens de rentabilidade e pode induzir mudanças no padrão de cultivo — seja pela adoção de culturas menos intensivas em insumos, seja pela redução das aplicações. No curto prazo, os efeitos tendem a ser limitados, dado que muitos produtores já adquiriram insumos para o plantio no Hemisfério Norte. Contudo, um conflito prolongado poderá influenciar decisões futuras, com impactos sobre safras no Hemisfério Sul e sobre o cultivo de arroz no Sul e Sudeste Asiático.
O aumento dos custos de energia também tende a repercutir ao longo de toda a cadeia produtiva, da produção agropecuária ao processamento, transporte e armazenamento, reacendendo pressões inflacionárias sobre os alimentos.
Implicações para a segurança alimentar
No curto prazo, os impactos concentram-se na região do Golfo Pérsico, cuja dependência de importações é estrutural. Uma interrupção prolongada do tráfego pelo Estreito de Ormuz comprometerá significativamente o abastecimento e pressionará os preços, mesmo com a utilização de rotas alternativas.
Os Estados Unidos anunciaram medidas como escolta naval e oferta de seguros contra riscos de guerra para transportadoras. Ainda assim, permanece incerto se tais iniciativas serão suficientes para mitigar os efeitos de um bloqueio de fato. Em 4 de março, a Maersk suspendeu temporariamente novas reservas de carga na região.
No médio e longo prazos, a persistência das interrupções nas exportações de petróleo, GNL e fertilizantes implicará pressões adicionais sobre os preços globais e exigirá a reconfiguração das cadeias de suprimento. Para produtores agrícolas, já pressionados por custos elevados e preços baixos, isso tende a significar margens ainda mais estreitas e ajustes nas decisões de plantio e no uso de insumos.
A experiência de choques recentes — como a pandemia de COVID-19 e a guerra na Ucrânia — sugere que os mercados possuem capacidade de acomodação, desde que não sejam agravados por restrições à exportação e outras políticas protecionistas. À medida que o conflito evolui e as respostas governamentais se delineiam, os riscos permanecem elevados: a alta dos custos de energia e insumos pode reacender a inflação global de alimentos, justamente quando os preços vinham retornando a patamares mais estáveis em diversas economias.
Joseph Glauber é pesquisador emérito do gabinete do diretor-geral do IFPRI. As opiniões expressas são de responsabilidade do autor.
¹ Para fins desta análise, consideram-se países do Golfo Pérsico: Bahrein, Irã, Iraque, Kuwait, Omã, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Publicado originalmente no blog do IFPRI
https://www.ifpri.org/blog/the-iran-war-potential-food-security-impacts/
