Blog do IFZ | 20/03/2026
O auditório da Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro, tornou-se ontem um amplo espaço de reflexão sobre a trajetória recente do Brasil no enfrentamento da fome. Promovido com o apoio do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, o seminário reuniu pesquisadores, gestores públicos e representantes da sociedade civil para examinar, com rigor analítico e sensibilidade social, os avanços alcançados e os desafios persistentes no campo da segurança alimentar e nutricional.
A mesa de abertura apresentou um panorama da reconstrução institucional iniciada em 2023, quando o país se deparava com um quadro de forte deterioração social. A secretária extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome, Valéria Burity, recordou que cerca de 33 milhões de brasileiros viviam, à época, em situação de fome. Segundo ela, a retomada de uma estratégia articulada recolocou o tema no centro das prioridades governamentais, compreendendo a fome como expressão direta das desigualdades estruturais.
Sob essa orientação, o governo estruturou o Plano Brasil Sem Fome, articulado no âmbito do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional e aprovado pela Câmara Interministerial da área, envolvendo 24 ministérios. A iniciativa buscou recompor a capacidade de coordenação do Estado com uma abordagem sistêmica, que abrange desde a produção até o consumo de alimentos, sem ignorar os impactos do regime climático contemporâneo.
Valéria Burity atribuiu a saída do Brasil do Mapa da Fome à combinação entre dinamismo econômico e políticas sociais integradas. O crescimento com redução das desigualdades, a geração de emprego, a valorização da renda e o controle da inflação de alimentos foram elementos decisivos, associados à atuação coordenada do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Ela destacou ainda o fortalecimento recente dos instrumentos de vigilância, desenvolvidos em diálogo com o IBGE e baseados em metodologias como a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar. A advertência que deixou ao auditório foi precisa: sair do Mapa da Fome representa um marco relevante, mas a permanência fora dele exige compromisso contínuo.

A dimensão internacional do tema foi abordada por Jorge Meza, da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Ele situou o Brasil em contraste com o cenário global, no qual cerca de 8,5% da população ainda enfrenta subalimentação. O índice brasileiro, inferior a 2,5%, foi apresentado como evidência de que políticas consistentes podem produzir resultados significativos mesmo fora do grupo de países de alta renda. Para Meza, a experiência brasileira reafirma a importância da centralidade política do tema, da articulação intersetorial, da garantia de financiamento e da participação social.
Entre as intervenções mais densas do encontro, destacou-se a do diretor-geral do Instituto Fome Zero, José Graziano da Silva, cuja trajetória intelectual e política se entrelaça com a própria história das políticas de combate à fome no país. Ao recuperar referências como Josué de Castro e o programa Fome Zero, Graziano situou o presente em uma linha de continuidade que não se limita à superação estatística da fome. Seu diagnóstico desloca o foco para a qualidade da alimentação.

Segundo ele, o país enfrenta hoje uma contradição inquietante: embora tenha reduzido a subalimentação, convive com a expansão de dietas inadequadas. O alto custo de alimentos saudáveis, especialmente frutas, verduras e legumes, configura um obstáculo decisivo, chegando a representar parcela significativa do custo de uma dieta equilibrada. Em contrapartida, alimentos ultraprocessados tornam-se relativamente mais acessíveis, favorecendo padrões de consumo que repercutem no aumento da obesidade, inclusive entre crianças e adolescentes.
Graziano propôs um conjunto de medidas que articula regulação, incentivo e coordenação institucional. Entre elas, o fortalecimento do sistema nacional de segurança alimentar, a redução do custo dos alimentos saudáveis, a ampliação do Programa de Aquisição de Alimentos, a tributação de produtos ultraprocessados e o aprimoramento da rotulagem nutricional frontal. Sua intervenção conferiu ao debate um horizonte mais exigente, no qual o direito à alimentação adequada ultrapassa a mera disponibilidade calórica.
A presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, Elisabetta Recine, reforçou a ideia de que a saída do Mapa da Fome não decorre de um único fator. Trata-se, segundo ela, de um processo composto por múltiplas articulações institucionais, compromissos políticos e ações coordenadas ao longo do tempo.
Na mesma direção, Charlotte Bilo, vinculada ao mecanismo de apoio da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, destacou o papel do Brasil na criação dessa iniciativa internacional durante a presidência do G20 em 2024. Com mais de 200 membros, a aliança expressa uma ampliação do compromisso brasileiro para além das fronteiras nacionais. Bilo sintetizou três lições da experiência brasileira com relevância global: a priorização política do tema, a integração entre políticas de proteção social, agricultura e nutrição, e a centralidade dos grupos mais vulneráveis. Ressaltou, contudo, que tais princípios devem ser adaptados às especificidades de cada país.
O seminário integrou as comemorações dos vinte anos do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, instituído pela Lei nº 11.346 de 2006, marco jurídico que consolidou o direito humano à alimentação adequada no Brasil. Coordenado pelo Grupo de Trabalho de Cooperação Acadêmica para a Aliança Global, o encontro organizou sua programação em quatro eixos, voltados à análise da saída do país do Mapa da Fome e à reconstrução de sua infraestrutura social nas dimensões política, econômica e institucional.
Ao longo das discussões, consolidou-se uma percepção comum entre os participantes: a superação da fome, embora mensurável por indicadores, depende de uma vigilância permanente e de escolhas políticas sustentadas. A contribuição de José Graziano, em particular, imprimiu ao debate um sentido mais amplo, ao recordar que o desafio contemporâneo não se limita a garantir acesso aos alimentos, mas a assegurar condições para que a alimentação seja, de fato, adequada, saudável e socialmente justa.
Baixe aqui as apresentações de:
José Graziano da Silva “Brasil: o que falta depois de sair do Mapa da Fome“
Jorge Meza “Como o Brasil saiu do Mapa da Fome e os desafios atuais“
Elisabetta Recine “Como o Brasil saiu do Mapa da Fome” (notas)
Renata Mainenti “Como o Brasil saiu do Mapa da Fome“
Patricia Gentil “Como o Brasil saiu do Mapa da Fome“
Marina Godoi “Como o Brasil saiu do Mapa da Fome“

