Por Paola Ligasacchi, especial para o Blog do IFZ | 20/03/2026
O diretor-geral do Instituto Fome Zero, José Graziano da Silva, participou de dois eventos nos últimos dias, nos quais enfatizou a necessidade de transformar políticas públicas de combate à fome e de segurança alimentar e nutricional em políticas de Estado. O primeiro encontro foi uma aula magna realizada no Programa de Pós-Graduação de Engenharia Agrícola da Unicamp, em Campinas, interior de São Paulo. O segundo evento, no Rio de Janeiro, foi uma conferência entre o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) e a Fundação Getúlio Vargas.
Na FEAGRI, antes da aula magna que deu início ao novo ciclo letivo de 2026, a pró-reitora de pós-graduação, Claudia Morelli, o diretor da FEAGRI, Dr. Ariovaldo da Silva, e a coordenadora, Dra. Andrea de Oliveira, reforçaram a importância de valorizar uma ciência comprometida com a produção sustentável de alimentos. O curso da FEAGRI obteve nota de excelência da CAPES, uma vez que o programa acadêmico desempenha um papel social relevante na comunidade e na sociedade.
Graziano da Silva iniciou suas apresentações com uma pergunta: o que falta ao Brasil, depois de sair do Mapa da Fome? As respostas foram sendo elaboradas ao longo das conferências e dos debates. “Nós tiramos o Brasil do Mapa da Fome, mas agora precisamos erradicar a fome e combater a obesidade do Mapa do Brasil.”

Como a fome é um problema de percepção, sua mensuração apresenta dificuldades. Ainda assim, existem dois ou três indicadores relevantes: um da FAO, o PoU, que mede a disponibilidade de alimentos no país, e o FIES, que se baseia em pesquisas de opinião para aferir se as pessoas dispõem de recursos suficientes para adquirir alimentos, captando a experiência concreta de acesso, tanto em qualidade quanto em quantidade.
O Brasil sempre se destacou no enfrentamento da fome por meio de campanhas e políticas públicas. Essa trajetória remonta ao Programa Fome Zero, formulado em 2001 e implementado a partir de 2003, no primeiro governo Lula, quando se introduziu um novo modelo de desenvolvimento voltado à erradicação da fome e à inclusão social, articulando políticas macroeconômicas e ações de segurança alimentar e nutricional. Entre 2003 e 2010, o programa contribuiu para retirar 28 milhões de brasileiros da extrema pobreza, consolidando uma Política Nacional de Segurança Alimentar.
Em 2014, o país saiu do Mapa da Fome e foi reconhecido como o primeiro país em desenvolvimento a alcançar esse resultado. No entanto, retornou ao Mapa no período de 2018 a 2020, em decorrência do enfraquecimento de políticas sociais, chegando a 33 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave em 2022, no contexto pós-pandemia.
Já em 2024, o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome em apenas dois anos, com menos de 2,5% da população em risco de desnutrição, resultado da retomada de políticas de valorização do salário mínimo, geração de empregos e programas de transferência de renda.
Graziano da Silva observou que essa trajetória deixa uma lição clara: a fome pode retornar rapidamente quando as políticas públicas são desmontadas. Em sentido inverso, a saída do Mapa da Fome foi impulsionada pela valorização do salário mínimo, pela geração de empregos, pela retomada do Bolsa Família, pela ampliação do Programa de Aquisição de Alimentos e pela reativação do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional.

Sair do Mapa da Fome representa uma conquista relevante, mas não encerra o percurso. Segundo a ONU, o Brasil apresentou melhora em três e piora em nove das doze categorias analisadas, incluindo o aumento do risco de obesidade entre adultos e crianças de até cinco anos.
Ao mesmo tempo, o elevado custo de uma dieta saudável agravou o acesso a uma alimentação adequada. A proporção de brasileiros capazes de arcar com esse padrão alimentar diminuiu, uma vez que seu custo vem crescendo desde 2017. Atualmente, o valor de uma dieta saudável no país gira em torno de US$ 4,69 por dia, o que implica que uma família de cinco pessoas necessitaria de cerca de R$ 3.750,00 mensais para se alimentar de forma adequada, excluindo uma parcela crescente da população.
O resultado é o avanço da obesidade. Projeções do Atlas de 2026 indicam crescimento acentuado, com maior incidência entre mulheres, podendo atingir 46%, em comparação a 33% entre homens até 2030. Hoje, um terço da população é obesa e mais de um terço apresenta sobrepeso. Dois terços dos brasileiros têm excesso de peso. A gravidade do quadro se intensifica ao atingir crianças e adolescentes, contribuindo para o aumento de mortes prematuras associadas a doenças relacionadas ao excesso de peso.
Para enfrentar esse cenário, Graziano da Silva apresentou dez propostas. Entre elas, o fortalecimento do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional e a criação de um canal de acesso para quem enfrenta a fome, como um serviço telefônico gratuito. Defendeu também a redução do custo de alimentos saudáveis, com políticas voltadas à produção e distribuição de frutas, legumes e verduras; a tributação de produtos ultraprocessados; a expansão do Programa de Aquisição de Alimentos; o fortalecimento da merenda escolar; o aprimoramento da rotulagem nutricional frontal; a limitação da publicidade de alimentos; o investimento em educação alimentar; a promoção da transição agroecológica; e a manutenção de compromisso político contínuo.
Graziano da Silva enfatizou, por fim, que sem compromisso político essas medidas não se sustentam. “Sair do Mapa da Fome foi uma conquista, mas o desafio, agora, é não voltar. Ainda temos fome. Essa foi apenas uma das metas. O Brasil cumpriu três até agora. Faltam nove.”
Baixe aqui a apresentação “Brasil O que falta depois de sair do Mapa da Fome“
















