Segurança alimentar em um mundo mais quente: por que o clima está aprofundando a fome e a desigualdade

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Um novo relatório do Instituto Internacional para Meio Ambiente e Desenvolvimento (International Institute for Environment and Development – IIED) lança um alerta que interessa diretamente ao debate sobre proteção social antecipatória: a mudança do clima não está apenas agravando crises alimentares já existentes, mas corroendo, de forma progressiva, as bases estruturais da segurança alimentar no mundo. O estudo, intitulado Segurança Alimentar em um mundo em ebulição: quem está sob risco, por que e o que vem por aí? (“Food security in a warming world: who is at risk, why and what comes next?), constrói um novo Índice de Segurança Alimentar para 162 países e mostra que os danos do aquecimento global se distribuem de forma profundamente desigual, recaindo com mais força sobre os países e populações com menor capacidade de resposta.

A principal contribuição do relatório está em ir além das métricas tradicionais, que normalmente medem apenas um pedaço do problema — como subalimentação, calorias disponíveis ou mortalidade infantil. Em vez disso, os autores organizam a análise a partir de quatro pilares da segurança alimentar: disponibilidade, acesso, utilização e sustentabilidade. Com isso, conseguem mostrar não apenas onde a insegurança alimentar é maior, mas também por que ela é maior em cada contexto.

A mensagem central é clara: o aquecimento global reduz a segurança alimentar por múltiplos canais ao mesmo tempo. Temperaturas mais altas, chuvas irregulares, secas, enchentes e tempestades afetam a produção agrícola, reduzem a produtividade do gado, comprometem a pesca e desorganizam cadeias de abastecimento. Ao mesmo tempo, a elevação dos preços, a destruição de infraestrutura e a perda de renda tornam os alimentos menos acessíveis. Some-se a isso o aumento de doenças, o estresse hídrico e a piora das condições sanitárias, e o resultado é uma deterioração também na qualidade nutricional e na capacidade das famílias de se recuperar depois de cada choque.

O índice criado pelo relatório vai de 0 a 10 e apresenta uma média global de 6,74, mas com enormes disparidades: 30 países têm pontuação abaixo de 5, enquanto 47 países ficam acima de 8. Os países desenvolvidos registram média de 8,68, contra 6,91 nos países em desenvolvimento. Já os países menos desenvolvidos chegam a apenas 5,13, e os Estados frágeis e afetados por conflitos ficam em 4,29. Os pequenos Estados insulares em desenvolvimento aparecem pouco abaixo da média global, com 6,40, combinando alguma resiliência em certos aspectos com forte dependência de importações e grande exposição a choques externos.

O relatório mostra também que a fragilidade não se distribui igualmente entre os quatro pilares. Em 73 países, o pior desempenho está na disponibilidade de alimentos. Já a sustentabilidade aparece como a segunda restrição mais frequente. Na prática, isso significa que muitas nações até conseguem assegurar algum nível mínimo de calorias, mas enfrentam grandes dificuldades quando se trata de diversidade alimentar, estabilidade da produção, capacidade de absorver choques e manutenção de sistemas de abastecimento ao longo do tempo.

Onde o clima bate primeiro — e mais forte

Um dos achados mais importantes do estudo é que o risco climático não atinge todos os pilares da segurança alimentar da mesma forma. Com base em regressões comparando renda per capita e exposição ao risco climático, os autores concluem que sustentabilidade e utilização são os componentes mais sensíveis ao clima. Um aumento de 1 ponto no índice de risco climático está associado a uma queda de 0,84 ponto na sustentabilidade e de 0,81 ponto na utilização. O acesso também reage fortemente, com queda de 0,71 ponto. Já a disponibilidade se deteriora de forma mais gradual, com redução de 0,43 ponto.

Isso ajuda a entender por que a crise alimentar contemporânea não pode ser reduzida a um debate sobre produção agrícola. O dano climático aparece cedo nos sistemas de água, saneamento e higiene, no acesso à saúde, na perda de renda, nas dificuldades de transporte, no aumento do preço dos alimentos e na erosão dos mecanismos de proteção que impedem uma família de cair em crise permanente. Em outras palavras, a fome e a má nutrição em um mundo mais quente resultam da interação entre clima, pobreza, desigualdade, infraestrutura precária e baixa capacidade institucional.

As projeções feitas pelo relatório para cenários de aquecimento de 1,5°C, 2°C e 4°C reforçam essa preocupação. Nos Estados frágeis e afetados por conflitos, a pontuação média do índice cai cerca de 9% já em 1,5°C e quase 39% em 4°C. Nos países menos desenvolvidos, a queda chega a cerca de 24% em 4°C, enquanto os países desenvolvidos teriam uma redução de aproximadamente 6%. A diferença cresce porque os países partem de bases muito distintas e possuem capacidades muito desiguais para absorver impactos sem entrar em espiral de perdas sucessivas.

O estudo mostra ainda que essa vulnerabilidade tem raízes estruturais. Nos países de baixa renda, cerca de 57% do emprego está na agricultura, contra apenas 3% nos países de alta renda. Isso significa que qualquer choque climático atinge de modo mais direto tanto a oferta de alimentos quanto a renda familiar. Além disso, a cobertura de redes de proteção é mais fraca, deixando as famílias mais expostas quando sobem os preços, fracassam as colheitas ou desaparecem os meios de vida.

Há, portanto, uma dimensão incontornável de justiça climática. Os países que tendem a sofrer a maior deterioração da segurança alimentar são justamente os que menos contribuíram para o aquecimento global. Segundo o relatório, os países de baixa renda respondem por menos de 1% das emissões globais de dióxido de carbono, enquanto os países de renda alta e média-alta concentram mais de 80%. Os pequenos Estados insulares contribuíram com cerca de 0,5% das emissões históricas, mas enfrentam riscos muito altos associados à dependência de importações e a choques externos.

Diante disso, os autores defendem uma mudança sistêmica. Não basta reagir quando a crise já explodiu. É preciso construir proteção social antecipatória e sensível a choques, capaz de se expandir antes que as famílias recorram a estratégias destrutivas de sobrevivência. Também é necessário manter funcionando, durante os choques, os sistemas de pagamento, registros e entrega na “última milha”; ligar alerta precoce a ação precoce com gatilhos e protocolos previamente acordados; e garantir financiamento previsível e antecipado para os países de maior risco.

Esse ponto dialoga diretamente com a agenda do IFZ e da parceria com o IIED. O relatório reforça que segurança alimentar, clima e proteção social não podem mais ser tratados como políticas separadas. Em um mundo mais quente e instável, proteger a alimentação exige fortalecer instituições, ampliar a capacidade de resposta antes do desastre, integrar sistemas de risco e investir em resiliência de forma permanente. A questão já não é apenas como responder à fome quando ela aparece. A questão estratégica, agora, é como impedir que ela se reproduza e se agrave a cada novo choque climático.

E o Brasil?

No relatório, o Brasil não aparece como um caso analisado em profundidade, mas surge no mapa global e nos apêndices comparativos como um país de posição intermediária: está acima dos contextos mais críticos, sobretudo os países frágeis e de baixa renda, mas longe do grupo de melhor desempenho. 

No recorte regional, a América Latina e Caribe tem média geral de 6,70 no Índice de Segurança Alimentar (Food Security Index), muito próxima da média global de 6,74, e o mapa sugere que o Brasil se situa nesse patamar intermediário, sem figurar entre os extremos globais. 

Ao mesmo tempo, o apêndice mostra um alerta importante: o Brasil aparece entre os cinco piores da América Latina e Caribe em um dos pilares do índice, com nota 4,35, ao lado de Colômbia, Honduras, México e Haiti, indicando fragilidade relevante justamente na dimensão que mede a capacidade de sustentar a segurança alimentar diante de choques, riscos e pressões estruturais.

Mensagens principais do relatório

  • O IIED criou um novo Índice de Segurança Alimentar para 162 países, baseado em quatro pilares: disponibilidade, acesso, utilização e sustentabilidade.
  • A média global do índice é 6,74, mas com forte desigualdade: 30 países estão abaixo de 5 e 47 acima de 8.
  • Os países mais vulneráveis são os Estados frágeis e afetados por conflitos, os países menos desenvolvidos e os pequenos Estados insulares em desenvolvimento.
  • A disponibilidade é o pior pilar em 73 países, e a sustentabilidade é a segunda restrição mais frequente.
  • O risco climático afeta mais fortemente sustentabilidade e utilização, antes mesmo de colapsos visíveis na produção.
  • Em cenário de 1,5°C, os Estados frágeis já perderiam cerca de 9% em segurança alimentar média; em 4°C, a queda chegaria a quase 39%.
  • Nos países de baixa renda, 57% do emprego está na agricultura; nos de alta renda, apenas 3%, o que amplia a exposição aos choques climáticos.
  • Os países que mais sofrerão são os que menos contribuíram para o problema: os de baixa renda emitem menos de 1% do CO2 global.
  • A resposta precisa ir além da produção agrícola: exige proteção social antecipatória, sistemas de entrega resilientes, gatilhos de ação precoce e financiamento previsível.
  • O relatório reforça que a segurança alimentar do futuro dependerá da capacidade de integrar clima, proteção social e resiliência em uma mesma estratégia pública.

Baixe aqui o relatório “Food Security In A Warming World: Who Is At Risk, Why and What Comes Next