EUA liberam nova onda de ajuda alimentar e humanitária

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Os Estados Unidos anunciaram uma segunda parcela de US$ 1,8 bilhão em recursos para a agência da ONU responsável pela coordenação humanitária, enquanto o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) abriu novas inscrições para o programa Food for Peace. Ao mesmo tempo, líderes globais da saúde pública compartilham algumas verdades incômodas às vésperas da 79ª Assembleia Mundial da Saúde (WHA79)

Por Elissa Miolene na DEVEX | 15/05/2026

O principal programa norte-americano de combate global à fome divulgou sua mais recente rodada de financiamento, liberando milhões de dólares para sete países ao redor do mundo.

O dinheiro, porém, vem acompanhado de condicionantes: 50% dos recursos deverão ser destinados à compra de commodities agrícolas produzidas nos Estados Unidos e ao frete marítimo. Além disso, apenas um dos sete países contemplados aparece na mais recente lista da ONU das nações com os níveis mais graves de insegurança alimentar.

A política dos grãos

Durante décadas, o Food for Peace levou produtos agrícolas cultivados nos Estados Unidos a países em situação de vulnerabilidade ao redor do mundo. No fim do ano passado, o USDA assumiu o controle do programa, antes administrado pela USAID — e, em janeiro, anunciou a concessão de US$ 452 milhões ao Programa Mundial de Alimentos.

Esses recursos foram destinados à distribuição de commodities agrícolas americanas em sete países — e a nova rodada de financiamento seguirá, em larga medida, o mesmo caminho. Entre os beneficiários estão República Democrática do Congo, El Salvador, Etiópia, Guatemala, Haiti, Quênia e Ruanda. Permanecem fora da lista, porém, os dois territórios onde a fome foi oficialmente confirmada no ano passado: Gaza e Sudão.

“Ao concentrar recursos em muitos dos mesmos países onde o Programa Mundial de Alimentos já havia recebido financiamento para operar apenas quatro meses atrás, o plano corre o risco de criar sistemas paralelos nas mesmas localidades”, afirma Dina Esposito, última administradora adjunta do Escritório de Resiliência, Meio Ambiente e Segurança Alimentar da USAID. “Sem uma explicação mais clara sobre a lógica da decisão, a abordagem parece altamente ineficiente.”

O USDA, naturalmente, vê a questão sob outra ótica. Segundo a agência, a nova rodada de concessões reforça uma “abordagem America First para a assistência alimentar internacional”, com previsão de financiar até 14 projetos, cada um com duração entre 18 e 24 meses.

Os financiamentos variarão de US$ 20 milhões a US$ 200 milhões e exigem um piso mínimo de 50% dos gastos destinados a commodities produzidas nos EUA e ao transporte marítimo. Segundo o USDA, a medida recoloca o Food for Peace em sua “função central”: apoiar agricultores americanos no esforço de alimentar as populações mais vulneráveis do mundo.

A nova leva de recursos

Na quarta-feira, o repórter global sênior da Devex, Colum Lynch, antecipou uma informação de última hora: os Estados Unidos estavam prestes a destinar pelo menos US$ 1,5 bilhão em novos recursos ao Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), órgão responsável por articular a atuação de organizações em contextos de crise.

Ontem, autoridades americanas confirmaram os detalhes. O novo compromisso, de US$ 1,8 bilhão, representa a segunda maior parcela de financiamento ao OCHA desde o retorno do presidente Donald Trump à Casa Branca e amplia os recursos para três países anteriormente excluídos da lista americana: República Centro-Africana, Líbano e Venezuela.

“Existe uma narrativa segundo a qual os Estados Unidos, em razão das reformas implementadas pelo presidente no início do mandato, deixaram de se importar com as Nações Unidas e com a ajuda humanitária ou salvadora de vidas”, afirmou Jeremy Lewin, chefe de assistência externa do Departamento de Estado dos EUA, durante discurso na sede da ONU, em Nova York. “Nada poderia estar mais distante da verdade.”

Lewin afirmou ainda que os EUA lançarão uma série de grandes pacotes de financiamento para países que não receberam recursos do OCHA, ao mesmo tempo em que seguem firmando acordos bilaterais com outras agências da ONU e organizações privadas.

Tudo isso compõe uma política de assistência externa ainda em plena reformulação nos Estados Unidos. Até o momento, não está claro se a diretriz da administração Trump denominada Promoting Human Flourishing in Foreign Assistance — que restringe atividades relacionadas ao aborto, identidade de gênero e políticas de diversidade, equidade e inclusão — será aplicada a essa nova parcela de financiamento. O chefe do OCHA, Tom Fletcher, já declarou anteriormente, em Londres, que não aceitaria os recursos caso essas condições fossem impostas.

Verdades incômodas

À medida que líderes globais da saúde chegam a Genebra para a reunião da próxima semana, a Devex perguntou a 11 nomes centrais da arquitetura internacional da saúde — da Gavi, a Aliança para Vacinas, e do Fundo Global de Combate à AIDS, Tuberculose e Malária até empreendimentos sociais que vêm reformulando a prestação de serviços na linha de frente — o que o setor precisa ouvir, mas provavelmente não dirá no plenário.

O sentimento dominante não é o desespero, mas a impaciência. O que une os 11 entrevistados é a percepção de que a antiga arquitetura ruiu, o consenso sobre financiamento mudou e reformas graduais já não bastam. A questão agora é saber se essa impaciência será finalmente suficiente para construir algo novo.

Reconstruir sob bombardeio

Nos últimos três dias, a Rússia intensificou os ataques com mísseis contra a Ucrânia. Somente ontem, bombardeios contra um edifício residencial deixaram nove mortos, segundo a Associated Press, entre eles uma menina de 12 anos em Kiev.

Mas, à medida que a guerra entra em seu quinto ano, muitos atores internacionais passaram a integrar iniciativas de desenvolvimento às respostas humanitárias dos países bálticos, que reconstroem escolas, à Coreia do Sul, que investe em infraestrutura, relata Jesse Chase-Lubitz, repórter de clima da Devex.

“Estamos fazendo as duas coisas”, afirma Arvid Tuerkner, diretor-gerente para Ucrânia e Moldávia do Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento (BERD). “Estamos nos preparando para o longo prazo e, ao mesmo tempo, respondendo às emergências.”

O BERD é hoje o maior investidor institucional na reconstrução da Ucrânia, tendo destinado mais de € 9,7 bilhões (US$ 11,3 bilhões) à economia ucraniana desde 2022. Isso inclui apoio a projetos de energia renovável — mais rápidos de construir e mais difíceis de destruir — além de garantias para o trânsito de mercadorias.

Ainda assim, a Ucrânia continua sendo um país em guerra, o que torna investimentos de reconstrução em larga escala quase impossíveis. Mesmo assim, Tuerkner afirma que o banco trabalha com diferentes cenários — e que “tudo”, acrescenta, “é possível”.

Corrupção sem saída

Em alguns países, não são guerra, conflito ou violência que impedem o progresso — mas a corrupção interna. Analistas alertam que esse pode ser exatamente o caso do Malaui, que tenta ampliar sua capacidade de arrecadação enquanto enfrenta corrupção sistêmica.

“Estamos apenas despejando água em um balde furado se não corrigirmos a corrupção e a má gestão dos recursos públicos que vêm drenando nossas riquezas”, afirma Mavuto Bamusi, especialista malauiano em política e economia, em entrevista à colaboradora da Devex Madalitso Wills Kateta.

O Malaui ocupa a 109ª posição entre 182 países no índice global de corrupção, e sua dívida pública alcança US$ 13,92 bilhões. O país também tenta elevar impostos, automatizar taxas públicas e criar um fundo soberano — algo que, segundo Bamusi, não será possível sem enfrentar padrões de corrupção profundamente arraigados.

“Seguimos presos a um ciclo vicioso quando o assunto é corrupção”, afirma Sylvester Namiwa, diretor executivo do Centro para Iniciativas de Democracia e Desenvolvimento Econômico. “Não podemos dizer que estamos combatendo a corrupção se aqueles com conexões políticas não são responsabilizados.”

O problema não se limita ao Malaui, mas se estende por todo o continente. O Banco Africano de Desenvolvimento estima que a África perde mais de US$ 1,6 bilhão por dia devido à corrupção, à transferência artificial de lucros e aos fluxos financeiros ilícitos, escreve Madalitso — tendência evidenciada por escândalos recentes da Zâmbia ao Zimbábue.

Publicado originalmente na DEVEX
https://www.devex.com/news/devex-newswire-the-us-opens-the-floodgates-on-food-humanitarian-aid-112496