Possível El Niño de 2026/2027 amplia preocupação com segurança alimentar e abastecimento no Brasil

  • Tempo de leitura:8 minutos de leitura

Blog do IFZ | 21/05/2026

A possibilidade de formação de um episódio intenso de El Niño entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027 recolocou a segurança alimentar no centro das preocupações climáticas brasileiras. A nova nota técnica divulgada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) sustenta que o país poderá enfrentar uma combinação particularmente severa de secas prolongadas, ondas de calor, enchentes e pressões simultâneas sobre sistemas agrícolas, hídricos e urbanos.

O fenômeno ainda está em fase de monitoramento, mas os pesquisadores chamam atenção para um aspecto decisivo. Os impactos climáticos já alcançam diretamente abastecimento de alimentos, disponibilidade de água, geração de energia, transporte de mercadorias e estabilidade social em regiões vulneráveis.

A preocupação ganha dimensão ainda maior diante do papel desempenhado pela agricultura familiar no abastecimento cotidiano da população brasileira. A nota técnica recorda que, durante o El Niño de 2023/2024, houve expansão significativa das áreas sob risco de seca agrícola, sobretudo no Norte, Nordeste e Brasil Central.

Os pesquisadores identificaram deterioração persistente das condições de umidade do solo em diferentes regiões do país, comprometendo culturas dependentes de chuva e ampliando a exposição de pequenos produtores rurais a perdas sucessivas de produtividade.

Em várias áreas monitoradas, o risco de seca agrícola evoluiu de moderado para muito alto ao longo do ciclo climático. As consequências ultrapassam a redução imediata das safras. Quando eventos extremos atingem cadeias produtivas vulneráveis, os efeitos se espalham pelos sistemas de transporte, armazenamento e abastecimento urbano, além de pressionarem os preços dos alimentos.

A nota observa ainda que, já no primeiro quadrimestre de 2026, algumas regiões historicamente sensíveis aos impactos do El Niño apresentavam sinais iniciais de agravamento do risco potencial de seca agrícola, especialmente no Nordeste, no Centro-Oeste e no noroeste da Amazônia.

A prevenção passa a ocupar posição central nas políticas públicas

O documento do Cemaden também procura deslocar o debate climático para além das respostas emergenciais. Em vez de concentrar esforços apenas na reação posterior aos desastres, os pesquisadores defendem a construção de capacidades permanentes de antecipação e prevenção.

Entre as recomendações apresentadas estão o fortalecimento do monitoramento hidrometeorológico, a revisão de áreas sujeitas a enchentes e deslizamentos, a integração entre sistemas de alerta e defesa civil, o funcionamento contínuo de radares e estações hidrológicas e a coordenação entre União, estados e municípios.

Essa perspectiva se aproxima do conceito de Proteção Social Antecipatória, desenvolvido no campo das políticas de redução de riscos climáticos. A proposta consiste em agir antes da consolidação das emergências, utilizando informação científica, planejamento territorial e monitoramento contínuo para reduzir danos humanos, econômicos e sociais.

Na prática, isso envolve fortalecer comunidades vulneráveis, ampliar sistemas públicos de alerta, proteger infraestrutura crítica e criar mecanismos rápidos de apoio antes que as crises alcancem maior gravidade.

A nota técnica atribui importância particular às populações com menor capacidade de recuperação após secas, enchentes e perdas produtivas. Em um país marcado por desigualdades territoriais profundas, a antecipação dos riscos climáticos também assume dimensão social e ética.

O possível El Niño de 2026/2027 preocupa centros internacionais de monitoramento

O alerta do Cemaden se apoia em projeções produzidas por instituições internacionais de referência, entre elas o European Centre for Medium-Range Weather Forecasts (ECMWF), a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) e o Bureau of Meteorology (BoM).

Segundo o documento, já existem sinais consistentes de aquecimento anômalo abaixo da superfície do Pacífico Equatorial, condição frequentemente associada ao início do fenômeno.

Embora previsões de longo prazo ainda envolvam margens elevadas de incerteza, parte importante dos modelos converge para um cenário de forte intensidade. Algumas simulações apontam anomalias próximas de 3°C na região Niño 3.4 do Pacífico, patamar superior ao utilizado para caracterizar episódios classificados como “Super El Niño”.

Os pesquisadores ressaltam, contudo, que a relevância do debate não está apenas na magnitude final do fenômeno, mas na capacidade de transformar informação climática em planejamento público antes do agravamento dos impactos.

Ciência climática trabalha com probabilidades e monitoramento contínuo

A nota técnica insiste em uma distinção frequentemente ignorada no debate público. Estudos climáticos não funcionam como previsões absolutas do futuro.

As análises realizadas pelo Cemaden utilizam anos análogos, projeções atmosféricas e tendências probabilísticas para identificar cenários de risco mais plausíveis. Isso significa que o Brasil não repetirá necessariamente os mesmos eventos registrados em episódios anteriores de El Niño.

Ainda assim, o documento sustenta que o contexto climático atual possui um componente adicional de gravidade. O possível El Niño de 2026/2027 tende a interagir com o aquecimento global já em curso, elevando temperaturas médias e ampliando a intensidade de eventos extremos.

A combinação entre oceanos mais quentes, atmosfera mais energética e vulnerabilidades territoriais acumuladas pode produzir impactos mais severos do que aqueles observados em décadas anteriores.

O fenômeno redistribui secas e enchentes em todo o país

Historicamente, episódios intensos de El Niño alteram a circulação atmosférica e modificam o regime de chuvas no território brasileiro.

O Sul costuma enfrentar aumento expressivo das precipitações, enquanto parte do Norte e do Nordeste registra redução das chuvas e agravamento das estiagens.

A nota técnica estabelece paralelos importantes com o evento de 2023/2024, período em que o Brasil enfrentou a maior seca dos últimos 70 anos em extensão territorial. Em setembro de 2024, mais de 80% dos municípios brasileiros apresentavam algum grau de seca, sendo que 1.349 cidades estavam sob condição severa ou extrema.

Segundo os pesquisadores, a tendência para 2026/2027 aponta para ampliação simultânea de riscos hidrológicos, agrícolas e urbanos.

Sul do Brasil apresenta maior propensão a chuvas extremas

A Região Sul aparece como a área de maior preocupação no campo hidrológico. O Cemaden identificou aumento consistente da propensão a episódios de chuva intensa e persistente em anos considerados análogos ao cenário atual.

No Rio Grande do Sul, os sinais são descritos como os mais robustos da análise. Municípios como Ijuí, Uruguaiana, Santa Maria, Passo Fundo, Caxias do Sul e Pelotas apresentam maior probabilidade de precipitações volumosas em intervalos curtos, ampliando riscos de enchentes, enxurradas urbanas e deslizamentos.

O documento também chama atenção para a vulnerabilidade estrutural da região metropolitana de Porto Alegre, marcada pela combinação entre urbanização intensa, alta densidade populacional e conexão com grandes sistemas fluviais.

Em Santa Catarina, os alertas alcançam cidades como Joinville, Criciúma, Lages, Chapecó e Caçador. O relevo acidentado e a ocupação urbana em áreas suscetíveis ampliam o risco de enchentes rápidas e movimentos de massa.

O Paraná permanece sob observação especialmente em áreas da Serra do Mar, do litoral e da região centro-sul do estado.

Norte, Nordeste e Amazônia podem enfrentar estiagens prolongadas

Enquanto o Sul tende a enfrentar excesso hídrico, parte do Norte e do Nordeste aparece associada ao risco oposto. O documento projeta redução das chuvas, temperaturas mais elevadas e pressão crescente sobre rios, reservatórios e aquíferos.

A análise das grandes bacias amazônicas mostra que os efeitos hidrológicos do El Niño podem persistir durante meses mesmo após o enfraquecimento do aquecimento do Pacífico. Esse prolongamento compromete abastecimento humano, navegação, pesca e geração de energia.

As bacias dos rios Xingu, Tocantins-Araguaia e Madeira aparecem entre as mais sensíveis ao fenômeno. A redução das vazões pode afetar usinas hidrelétricas estratégicas e comprometer a qualidade da água em diferentes regiões.

O Pantanal e áreas da Amazônia também podem registrar agravamento do risco de incêndios florestais, sobretudo se estiagens prolongadas coincidirem com ondas de calor mais frequentes.

Ondas de calor devem se intensificar entre 2026 e 2027

Outro eixo importante da nota técnica está relacionado ao crescimento das ondas de calor no Brasil. O Cemaden registra que 2023, 2024 e 2025 concentraram a maior ocorrência desses eventos desde o início da série histórica, em 1980.

O fenômeno passou a atingir com maior frequência regiões do Norte e do Nordeste, ampliando impactos sobre saúde pública, disponibilidade hídrica e risco de incêndios.

Segundo os pesquisadores, a combinação entre El Niño e aquecimento global pode produzir episódios mais longos, persistentes e severos nos próximos anos, afetando especialmente populações urbanas vulneráveis, trabalhadores expostos ao calor intenso e ecossistemas já submetidos a forte pressão ambiental.

Um teste para a capacidade pública de antecipar riscos

A nota técnica procura demonstrar que o país dispõe hoje de instrumentos científicos mais sofisticados para reconhecer riscos emergentes antes que eles se convertam em desastres de grande escala.

O desafio passa a ser transformar conhecimento climático em capacidade efetiva de proteção social, preservação do abastecimento e redução das vulnerabilidades territoriais.

O possível El Niño de 2026/2027 surge, assim, como um tete importante para a capacidade brasileira de antecipar riscos em um cenário global de aquecimento crescente.