José Graziano da Silva defende atualização do legado do Fome Zero e celebra os 80 anos de “Geografia da Fome”, de Josué de Castro, no Brazil Forum UK 2026

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Blog do IFZ | 18/05/2026

O diretor do Instituto Fome Zero (IFZ), José Graziano da Silva, participou do Brazil Forum UK 2026, em Oxford, levando ao debate internacional uma reflexão sobre o legado do Fome Zero, os novos desafios da segurança alimentar e a necessidade de transformar o combate à fome em uma política de Estado irreversível. Durante o evento, Graziano integrou um painel sobre políticas públicas, desigualdade e segurança alimentar, além de realizar a entrega do Prêmio Josué de Castro de Impacto Social.

Em sua exposição no painel “Fome Zero, Compromisso Permanente: Da Experiência Brasileira ao Compromisso Global”, Graziano destacou que a fome continua sendo, antes de tudo, uma escolha política. Segundo ele, a experiência brasileira demonstrou que não existe incompatibilidade entre crescimento econômico, inclusão social e combate à pobreza. Ao contrário: políticas públicas integradas podem gerar desenvolvimento, dinamizar economias locais e ampliar direitos.

Sandra Chaves, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), integrante da REDE PENSSAN e membro do IFZ, e Carla Carneiro, representante permanente do Brasil junto às agências da ONU em Roma, foram as outras integrantes do painel, moderado por Paulo Lima, oficial de ligação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura junto à União Europeia.

Ao revisitar a trajetória do Fome Zero, Graziano ressaltou que a principal inovação do programa foi sua construção a partir de experiências locais concretas já existentes no país. Segundo ele, o grande diferencial esteve na capacidade de articular essas iniciativas territoriais com políticas públicas macroeconômicas inclusivas, combinando crescimento econômico, geração de empregos e valorização do salário-mínimo.

O diretor do IFZ também alertou que o debate global sobre a fome precisa abandonar a ideia de que o problema decorre da falta de alimentos. Segundo ele, o grande obstáculo continua sendo o acesso desigual a dietas adequadas e saudáveis. Em sua apresentação, Graziano lembrou que os custos necessários para erradicar a fome são modestos quando comparados aos gastos militares globais, reforçando que a persistência da fome decorre muito mais de prioridades políticas do que da escassez de recursos.

Outro eixo central da participação de Graziano foi a defesa de uma atualização do legado do Fome Zero diante dos desafios contemporâneos. O diretor do IFZ argumentou que o combate à fome hoje precisa incorporar novas dimensões, como mudanças climáticas, desigualdades territoriais, obesidade, expansão dos ultraprocessados e fragilidade das cadeias globais de abastecimento.

Nesse contexto, Graziano apresentou o conceito de “Fome Zero 2.1”, uma evolução da experiência original brasileira. A proposta inclui fortalecer políticas territorializadas, ampliar sistemas alimentares locais, integrar a proteção social com mecanismos de ação antecipatória frente a eventos climáticos extremos e avançar em políticas de alimentação saudável.

A dimensão territorial apareceu como um dos pontos centrais da exposição. Graziano destacou que os dados recentes mostram fortes desigualdades regionais na segurança alimentar brasileira, especialmente entre as regiões Norte e Nordeste, em comparação com o Sul e o Sudeste. Segundo ele, a fome e a insegurança alimentar não se distribuem de forma homogênea e exigem respostas diferenciadas, conectadas às realidades locais.

O painel também reforçou a importância da preservação da memória histórica do combate à fome. Graziano lembrou que políticas públicas bem-sucedidas precisam ser continuamente defendidas, atualizadas e institucionalizadas para resistir às mudanças políticas e econômicas.

Durante o evento, José Graziano da Silva também realizou a entrega do Prêmio Josué de Castro de Impacto Social. Em sua fala, destacou o simbolismo especial de 2026, ano em que se celebram os 80 anos da publicação de Geografia da Fome, obra clássica do geógrafo e historiador lançada em 1946.

Segundo Graziano, Josué de Castro revolucionou a compreensão da fome ao demonstrar que ela possuía geografia, história e estrutura social, deixando claro que não se tratava de uma fatalidade natural, mas do resultado de desigualdades e escolhas políticas.

O diretor do IFZ afirmou ainda que o legado de Josué permanece profundamente atual em um mundo marcado por desigualdades territoriais, mudanças climáticas e novas formas de má nutrição. Para Graziano, atualizar esse pensamento significa reconhecer que o combate à fome exige políticas públicas permanentes, participação social e compromisso institucional duradouro.

Durante a cerimônia, foram reconhecidas três iniciativas voltadas à transformação social em diferentes territórios brasileiros: a Associação Égide, o projeto Retratos das Enchentes, do Instituto Decodifica, e o Instituto Mondó, com seu Programa de Desenvolvimento Territorial no Marajó. Graziano destacou que as experiências premiadas refletem exatamente a visão territorial defendida por Josué de Castro e pela experiência do Fome Zero.

Baixe aqui as apresentações utilizadas no Brazil Forum UK 2026