Carlo Petrini: o homem que ajudou a transformar a alimentação em um tema de dignidade, cultura e justiça

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Instituto Fome Zero | 22/05/2026

O mundo da alimentação, da agricultura e da cultura perdeu nesta quinta-feira, 21 de maio de 2026, uma de suas vozes mais originais e influentes. Carlo Petrini, fundador do movimento Slow Food, faleceu aos 76 anos em Bra, no Piemonte italiano, deixando um legado que ultrapassa em muito a gastronomia. 

Petrini ajudou a transformar a forma como governos, organismos internacionais, universidades e movimentos sociais passaram a enxergar a alimentação: não apenas como produção agrícola ou consumo, mas como cultura, biodiversidade, saúde, território, identidade e justiça social.

Poucas pessoas conseguiram conectar de maneira tão profunda temas aparentemente distantes: pequenos produtores, alimentos tradicionais, mudanças climáticas, biodiversidade, nutrição, prazer de comer, desenvolvimento rural e combate à fome. Petrini compreendeu cedo que os sistemas alimentares modernos produziam abundância para alguns, exclusão para muitos e homogeneização cultural para todos.

Fundado oficialmente em 1989, o Slow Food surgiu como uma reação à crescente padronização da alimentação global e ao avanço de uma lógica industrial baseada apenas em produtividade, velocidade e escala. Em vez disso, Petrini defendia alimentos “bons, limpos e justos”: bons para quem come, limpos para o meio ambiente e justos para quem produz.

Mas talvez uma das maiores contribuições de Carlo Petrini tenha sido recolocar os agricultores, os povos tradicionais e os alimentos esquecidos no centro do debate internacional. Muito antes de o tema da biodiversidade alimentar ganhar espaço em conferências climáticas ou documentos multilaterais, o Slow Food já promovia campanhas de valorização de variedades agrícolas locais, sementes tradicionais, culinárias territoriais e produtos ameaçados de desaparecimento.

Essa visão dialogou profundamente com a agenda que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) passou a fortalecer na década passada: a necessidade de transformar os sistemas alimentares para além da produção de commodities agrícolas. Sob a liderança de José Graziano da Silva, diretor do Instituto Fome Zero, na Direção-Geral da FAO (2012–2019), a organização ampliou significativamente sua abordagem sobre alimentação saudável, nutrição, obesidade e dietas sustentáveis — temas que durante muitos anos permaneceram periféricos em organismos internacionais historicamente concentrados apenas na produção agrícola.

Carlo Petrini foi um aliado importante desse processo.

Em 27 de maio de 2016, há quase exatamente dez anos, José Graziano da Silva nomeou Carlo Petrini como Embaixador Especial do Fome Zero para a Europa, reconhecendo sua contribuição histórica para o combate à fome, à pobreza rural e à promoção de sistemas alimentares sustentáveis. Na ocasião, Graziano destacou que Petrini ajudava a construir pontes entre agricultura, cultura, meio ambiente e inclusão social — algo essencial para os desafios alimentares do século XXI.

A parceria entre a FAO e o movimento Slow Food ganhou força especialmente em temas ligados à biodiversidade alimentar, alimentação saudável e valorização de alimentos tradicionais e “forgotten foods” — alimentos negligenciados ou marginalizados pelos mercados globais.

Entre os exemplos mais simbólicos esteve a quinoa. Durante décadas, o grão andino foi frequentemente visto fora da América do Sul como um alimento “de pobres” ou regional, recebendo pouca atenção internacional diante de commodities globais como trigo, milho ou arroz. A mobilização internacional em torno da quinoa — incluindo o Ano Internacional da Quinoa promovido pelas Nações Unidas em 2013 — ajudou a transformar a percepção sobre o alimento, reconhecendo seu enorme valor nutricional, cultural e climático.

Petrini foi um dos grandes defensores dessa mudança de paradigma: mostrar que muitos dos alimentos capazes de contribuir para sistemas alimentares mais resilientes e sustentáveis já existiam há séculos nos territórios locais, preservados por agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais.

Ao mesmo tempo, Carlo Petrini ajudou a impulsionar internacionalmente uma agenda que hoje parece evidente, mas que por muito tempo encontrou resistência: a ideia de que alimentação saudável e nutrição deveriam ocupar posição central nas políticas agrícolas e alimentares globais.

Essa transformação foi decisiva para aproximar debates sobre obesidade, ultraprocessados, dietas saudáveis e sustentabilidade ambiental das agendas multilaterais. Também abriu espaço para que temas como compras públicas de alimentos saudáveis, alimentação escolar, proteção da biodiversidade agrícola e preservação das culturas alimentares passassem a ser tratados como questões estratégicas de desenvolvimento.

Seu legado também pode ser visto no fortalecimento de universidades e redes de conhecimento voltadas à alimentação sustentável, como a Universidade de Ciências Gastronômicas de Pollenzo, criada por ele no Piemonte italiano e que se tornou referência internacional em sistemas alimentares, gastronomia e biodiversidade.

Mais do que um ativista da alimentação, Carlo Petrini foi um pensador político da comida. Entendeu antes de muitos que o ato de comer é também um ato econômico, social, ambiental e cultural. Em um mundo marcado pela expansão dos ultraprocessados, pela erosão da biodiversidade e pela crescente desconexão entre produção e consumo, sua mensagem ganha ainda mais atualidade.

Num momento em que o debate internacional volta a discutir sistemas alimentares, clima, obesidade e desigualdade, o legado de Carlo Petrini permanece vivo como um lembrete poderoso: combater a fome não significa apenas produzir mais calorias, mas garantir dignidade, diversidade, cultura e alimentação saudável para todos.

O Instituto Fome Zero presta homenagem a Carlo Petrini e manifesta solidariedade à sua família, aos amigos e a toda a comunidade global do Slow Food. Sua trajetória continuará inspirando aqueles que acreditam que transformar a alimentação é também transformar o mundo.