Destravando o financiamento climático para a agricultura inteligente: garantias de crédito e seguros ganham protagonismo

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Blog do IFZ | 22/05/2026

Um novo estudo do Shamba Centre for Food & Climate, intitulado “Destravando o financiamento para a agricultura inteligente para o clima: um olhar sobre garantias de crédito e seguros” (De-risking climate-smart agriculture: a spotlight on credit guarantees and insurance), reforça um debate cada vez mais central para o futuro dos sistemas alimentares globais: como reduzir os riscos financeiros da agricultura diante da crise climática e, ao mesmo tempo, ampliar os investimentos em produção sustentável e resiliente.

O documento parte de um paradoxo que já se tornou recorrente nas discussões internacionais sobre clima e alimentação. Embora os sistemas agroalimentares sejam altamente vulneráveis às mudanças climáticas — e também responsáveis por cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa — eles continuam recebendo uma parcela muito pequena do financiamento climático internacional. Segundo o paper, entre 2021 e 2022 apenas cerca de 7,2% do financiamento climático global foi direcionado aos sistemas agroalimentares.

A situação é ainda mais preocupante nas regiões mais vulneráveis do planeta. África Subsaariana, Sul da Ásia e América Latina receberam juntas apenas cerca de US$ 15 bilhões em financiamento climático para agricultura e alimentação, o equivalente a apenas 1% do financiamento climático total global.

O estudo destaca que transformar os sistemas agroalimentares de países de baixa e média renda exigirá mais de US$ 4 trilhões entre 2024 e 2030. Isso inclui investimentos em agricultura resiliente, manejo sustentável da água, restauração ambiental, agroflorestas, variedades agrícolas adaptadas ao clima e redes de proteção social.

Diante desse enorme déficit de financiamento, o paper defende que o desafio não é apenas aumentar recursos, mas sobretudo criar mecanismos capazes de reduzir os riscos percebidos pelos mercados financeiros. É nesse contexto que entram as garantias de crédito e os seguros climáticos.

As garantias de crédito funcionam como instrumentos de compartilhamento de risco entre governos, fundos públicos ou organismos multilaterais e instituições financeiras privadas. Na prática, parte das possíveis perdas em caso de inadimplência é coberta pelo garantidor, reduzindo o receio dos bancos em conceder crédito ao setor agrícola.

O relatório mostra que esse tipo de mecanismo é particularmente importante para pequenos produtores rurais, que frequentemente não possuem garantias reais, títulos de terra formalizados ou histórico bancário suficiente para acessar crédito tradicional. Além disso, a agricultura sustentável costuma exigir investimentos de longo prazo, com retorno lento, algo pouco compatível com os modelos tradicionais de financiamento bancário.

O texto cita exemplos relevantes como o AGRI3 Fund, fundo internacional criado para financiar projetos agrícolas livres de desmatamento e ambientalmente sustentáveis, e o sistema de garantias do Quênia, que ampliou o acesso ao crédito para milhares de pequenas e médias empresas agrícolas.

O Brasil aparece no documento como um caso relativamente bem-sucedido de mobilização doméstica de financiamento climático agrícola. Segundo o estudo, cerca de 97% do financiamento climático voltado ao uso da terra no país vem de fontes nacionais, públicas e privadas. O texto destaca o papel do crédito rural subsidiado e dos programas públicos de seguro agrícola como instrumentos importantes de mitigação de risco e estímulo à agricultura sustentável.

Mas o estudo argumenta que garantias de crédito, sozinhas, não resolvem o problema. Eventos extremos, secas prolongadas, enchentes e oscilações de mercado continuam tornando o setor agrícola altamente arriscado. É aí que entram os seguros climáticos.

O paper dedica uma seção importante aos chamados seguros paramétricos ou indexados, nos quais os pagamentos são acionados automaticamente a partir de indicadores objetivos, como índices de chuva, seca ou vegetação, sem necessidade de comprovação individual de perdas.

Segundo os autores, esse modelo reduz custos administrativos, amplia a escala dos seguros e diminui problemas clássicos dos seguros tradicionais, como risco moral e seleção adversa. O documento traz exemplos de experiências na Mongólia, Etiópia, Senegal, Índia e Quênia, onde seguros indexados foram combinados com crédito rural, assistência técnica e programas de fortalecimento produtivo.

Um dos casos mais interessantes apresentados é o da Nigéria, por meio do programa NIRSAL (Nigeria Incentive-Based Risk Sharing System for Agricultural Lending). O sistema integra garantias de crédito, seguros climáticos, assistência técnica e incentivos financeiros para bancos e agricultores. Desde sua criação, o programa mobilizou bilhões de dólares em crédito agrícola, mantendo níveis relativamente baixos de inadimplência.

Apesar dos avanços, o estudo reconhece limitações importantes. Muitos programas ainda dependem fortemente de subsídios públicos ou apoio internacional. Além disso, seguros indexados podem enfrentar problemas de “basis risk”, quando os indicadores utilizados não refletem exatamente as perdas reais enfrentadas pelos agricultores.

Ainda assim, a principal conclusão do relatório é clara: enfrentar a crise climática nos sistemas alimentares exigirá novas arquiteturas financeiras capazes de combinar crédito, seguro, assistência técnica e políticas públicas de longo prazo. Mais do que proteger produtores individuais, esses mecanismos podem se tornar instrumentos centrais para garantir segurança alimentar, estabilidade econômica rural e resiliência climática nas próximas décadas.

Mensagens principais

  • O financiamento climático para sistemas agroalimentares ainda é extremamente insuficiente diante das necessidades globais.
  • Garantias de crédito podem ampliar significativamente o acesso ao financiamento para agricultura sustentável.
  • Seguros climáticos indexados ajudam produtores rurais a enfrentar secas, enchentes e eventos extremos.
  • A combinação entre crédito, seguro e assistência técnica reduz riscos e atrai investimentos privados.
  • O Brasil aparece como referência regional em financiamento climático agrícola baseado em fontes domésticas.
  • Experiências como NIRSAL (Nigéria) mostram que modelos integrados podem reduzir inadimplência e ampliar crédito rural.
  • A agricultura resiliente ao clima dependerá cada vez mais de mecanismos financeiros inovadores e de longo prazo.

Baixe aqui o polcy paper “De-risking climate-smart agriculture: a spotlight on credit guarantees and insurance