Blog do IFZ | 26/05/2026
O Brasil alcançou, pela primeira vez, o patamar de muito alto desenvolvimento humano. O dado, divulgado nesta terça-feira pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, marca uma inflexão histórica na trajetória social do país e sintetiza décadas de expansão de políticas públicas voltadas à educação, à saúde, à renda e à inclusão social. Em 2024, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, o IDHM, chegou a 0,805, o maior nível já registrado desde o início da série histórica. Em 2012, o índice era de 0,744.
Baixe aqui o relatório completo do “RADAR IDHM: Evolução do IDHM e seus componentes | Período 2012 a 2024“
O resultado aparece na nova edição do Radar IDHM, publicação retomada após dez anos, justamente quando o país completa três décadas desde a elaboração do primeiro Relatório de Desenvolvimento Humano produzido no Brasil. Quando o PNUD iniciou esse acompanhamento, nos anos 1990, o país ainda se encontrava na faixa de baixo desenvolvimento humano, com indicadores inferiores a 0,555.
A passagem para o grupo de muito alto desenvolvimento humano não representa apenas uma mudança estatística. O índice sintetiza transformações prolongadas na estrutura social brasileira. O IDHM considera três dimensões centrais da vida coletiva: saúde e longevidade, educação e geração de renda. O avanço registrado em 2024 decorre do crescimento simultâneo dessas áreas, embora em ritmos distintos e ainda atravessados por profundas desigualdades.
Segundo o representante do PNUD no Brasil, Claudio Providas, o novo patamar resulta de um processo histórico sustentado por políticas públicas permanentes.
“Não é um número insignificante. Representa décadas de investimento público, de políticas que prolongaram vidas, abriram as portas das escolas e colocaram renda nas mãos das pessoas. Isso merece ser reconhecido”, afirmou.
A educação foi o principal motor dessa transformação. Entre 2012 e 2024, o componente educacional do IDHM passou de 0,679 para 0,798, aproximando-se da faixa de muito alto desenvolvimento. O avanço aparece associado à ampliação do acesso escolar, à permanência de crianças e adolescentes nas salas de aula e à redução do trabalho infantil.
Bolsa Família e a transformação silenciosa da educação brasileira
Nesse processo, o Bolsa Família ocupa posição central. O programa, criado em 2003, aparece no relatório do PNUD como uma das políticas públicas de maior impacto estrutural sobre os indicadores educacionais brasileiros nas últimas duas décadas.
A lógica do programa produziu efeitos que ultrapassaram a transferência imediata de renda. Ao vincular o benefício à frequência escolar e ao acompanhamento de saúde das crianças, o Bolsa Família ajudou a retirar milhões de meninos e meninas do trabalho precoce e criou condições para permanência contínua na escola, sobretudo entre famílias submetidas à pobreza persistente.
Segundo a economista Betina Barbosa, os resultados começaram a aparecer de forma mais visível cerca de dez anos após a criação do programa, quando as primeiras gerações de estudantes beneficiários conseguiram concluir ciclos completos da educação básica.
“É o programa Bolsa Família que retira quantidade enorme de crianças do trabalho e dá a elas a condição da escola e a obrigatoriedade, também, de estar na escola. Então, aqui vejo diretamente o efeito de uma política pública brasileira”, afirmou.
O relatório mostra que a melhora educacional observada no período foi particularmente intensa entre famílias negras e de baixa renda. Em muitos territórios, especialmente nas periferias urbanas e em regiões historicamente negligenciadas pelo poder público, o acesso mais estável à escola alterou trajetórias familiares inteiras.
Betina Barbosa observa que esse movimento permitiu incorporar grupos historicamente excluídos ao processo de desenvolvimento humano brasileiro.
“É aqui que a população negra começa a apresentar melhores indicadores, melhor performance em educação. Então, a política pega um grupo que estava excluído e bota esse grupo para dentro do diálogo do desenvolvimento humano”, explicou.
O estudo também identifica um efeito territorial importante. Regiões metropolitanas do Nordeste, durante décadas associadas aos menores indicadores sociais do país, passaram a registrar níveis elevados de desenvolvimento humano. A região metropolitana de Teresina, por exemplo, alcançou IDHM de 0,809, entrando na faixa de muito alto desenvolvimento humano.
Para o PNUD, a expansão de políticas de transferência de renda articuladas à educação ajudou a modificar o padrão histórico de desigualdade regional brasileira. Territórios que antes pressionavam a média nacional para baixo agora participam diretamente da elevação do índice do país.
SUS e a construção prolongada da longevidade brasileira
O relatório atribui ao Sistema Único de Saúde um papel decisivo na consolidação dos avanços sociais observados no país ao longo das últimas décadas. Entre os três componentes do IDHM, o indicador relacionado à saúde e à longevidade foi justamente aquele que alcançou primeiro o nível de muito alto desenvolvimento.
Em 2012, essa dimensão já registrava índice de 0,829. Em 2024, chegou a 0,860. O crescimento aparece associado à consolidação gradual do sistema público universal de saúde criado pela Constituição de 1988, especialmente por meio da ampliação da atenção básica, das campanhas nacionais de vacinação, da medicina preventiva e da expansão do acesso ao atendimento médico em regiões historicamente desassistidas.
O avanço da expectativa de vida no Brasil nas últimas décadas modificou profundamente a estrutura demográfica do país. Doenças infecciosas antes responsáveis por elevadas taxas de mortalidade infantil foram progressivamente controladas, enquanto políticas públicas de saúde materna, vacinação e acompanhamento pré-natal ampliaram a proteção social de milhões de famílias.
O relatório observa, contudo, que os efeitos da pandemia de Covid-19 interromperam parte desse processo. Entre 2020 e 2021, os indicadores de longevidade sofreram retração em todo o território nacional, provocando impactos ainda perceptíveis sobre a esperança de vida da população brasileira.
Segundo Betina Barbosa, a velocidade insuficiente da resposta pública durante os momentos mais críticos da crise sanitária agravou os danos sociais produzidos pela pandemia.
“Ainda não nos recuperamos aqui, em termos de esperança de vida, do baque da covid-19”, afirmou.
O documento destaca que a mortalidade infantil permanece como um dos indicadores mais sensíveis da recuperação brasileira no período pós-pandemia. Para o PNUD, a preservação e o fortalecimento das estruturas públicas de saúde continuarão sendo determinantes para a continuidade do avanço do desenvolvimento humano no país.
O componente da renda apresentou crescimento mais lento. Passou de 0,732 em 2012 para 0,760 em 2024, mantendo-se na faixa de alto desenvolvimento. Mesmo assim, o relatório indica que políticas de transferência de renda e inclusão social contribuíram para reduzir parte das desigualdades históricas do país.
As diferenças raciais continuam entre os aspectos mais contundentes revelados pelo levantamento. Enquanto a população branca apresenta IDHM de 0,851, acima da média nacional, a população negra registra 0,774. O relatório mostra, contudo, que a distância entre esses grupos começou a diminuir nos últimos anos.
Em 2021, estimava-se que a população negra levaria 35 anos para alcançar o mesmo nível de desenvolvimento humano da população branca. Em 2024, essa projeção caiu para 26 anos.
As disparidades regionais seguem igualmente marcantes. O estudo aponta contrastes expressivos de expectativa de vida e renda entre diferentes partes do país. No Rio Grande do Sul, por exemplo, um homem branco possui expectativa média de vida de 81 anos. Já no Amapá, um homem negro vive, em média, 73 anos.
Na renda, o contraste também permanece intenso. Uma pessoa branca no Distrito Federal possui rendimento médio de R$ 1.987, enquanto uma pessoa negra no Maranhão registra média de R$ 446.
O levantamento mostra ainda diferenças persistentes entre homens e mulheres. Quando ajustado pela renda do trabalho, o índice masculino alcança 0,802, enquanto o feminino fica em 0,798. A distância pode parecer pequena na média nacional, mas revela obstáculos estruturais relacionados ao mercado de trabalho, à distribuição de renda e à sobrecarga de cuidados domésticos.
Ao ajustar o IDHM pelas desigualdades internas, o índice brasileiro cai de 0,805 para 0,641. O dado evidencia que uma parcela significativa da população ainda permanece distante das condições médias observadas no país.
O PNUD considera que o país entra, a partir deste momento, em uma nova etapa de seu processo de desenvolvimento. Para Claudio Providas, o desafio já não consiste apenas em elevar médias nacionais, mas em enfrentar desigualdades persistentes e preparar a sociedade para transformações econômicas, tecnológicas e climáticas das próximas décadas.
“O fato de o Brasil ter alcançado um IDH muito alto nos dá uma plataforma. A tarefa agora é não se contentar com a média. É usar essa plataforma para construir um sistema educacional à altura do momento, tecnologicamente fluente, informado sobre as questões climáticas e economicamente honesto sobre o que o futuro exige”, afirmou.
A travessia brasileira até o patamar de muito alto desenvolvimento humano não elimina os contrastes que ainda estruturam o país. O próprio relatório insiste nesse ponto. O avanço registrado em 2024 convive com desigualdades raciais persistentes, diferenças regionais profundas e uma distribuição de renda ainda fortemente concentrada.
Mas o novo índice estabelece um marco raro na história social brasileira. Depois de décadas em que pobreza extrema, mortalidade infantil elevada e exclusão escolar definiam parte significativa da experiência nacional, o país alcança um nível de desenvolvimento antes restrito a um grupo reduzido de sociedades. O dado não encerra os desafios brasileiros. Apenas demonstra, com clareza inédita, que políticas públicas continuadas podem alterar trajetórias históricas que durante muito tempo pareceram imutáveis.
Baixe aqui o relatório completo do “RADAR IDHM: Evolução do IDHM e seus componentes | Período 2012 a 2024“
