Melhor prevenir que remediar: com o El Niño à porta, o Brasil precisa de proteção social antecipatória

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Blog do IFZ | 29/06/2026

Reportagem recente de O Globo expõe uma contradição preocupante do desenvolvimento brasileiro: justamente quando o fenômeno El Niño eleva os riscos climáticos para a agricultura nacional, o país registra o menor nível de cobertura do seguro rural das últimas duas décadas. A redução dos recursos do Programa de Subvenção do Prêmio do Seguro Rural (PSR), que deverá proteger apenas 2,8% da área plantada em 2026, revela uma fragilidade estrutural que vai muito além do agronegócio. Trata-se de uma questão estratégica para a segurança alimentar, a estabilidade fiscal e a adaptação climática do Brasil.

Os dados são eloquentes. De um orçamento inicialmente previsto próximo a R$1 bilhão, o PSR ficou com apenas R$474 milhões após contingenciamentos fiscais. O resultado é uma retração de 77% da área segurada desde o pico alcançado em 2021. Em um país que já convive com secas históricas no Sul, estiagens prolongadas no Semiárido e enchentes cada vez mais frequentes na Amazônia e no Sudeste, essa redução representa um aumento significativo da vulnerabilidade econômica e social.

O debate suscitado pela reportagem, contudo, oferece uma oportunidade para refletir sobre um desafio maior: o Brasil continua priorizando instrumentos de resposta e renegociação de prejuízos, quando deveria investir crescentemente em mecanismos de antecipação e prevenção dos riscos climáticos.

A lógica predominante ainda é a do socorro posterior ao desastre. Renegociam-se dívidas, ampliam-se linhas emergenciais de crédito e criam-se programas extraordinários depois que as perdas já ocorreram. Embora necessárias, essas medidas costumam ser mais caras, menos eficientes e socialmente mais traumáticas do que instrumentos preventivos bem estruturados.

Nesse contexto, o fortalecimento do seguro rural tradicional continua sendo indispensável. A experiência internacional demonstra que praticamente nenhum mercado agrícola robusto funciona sem forte participação estatal no financiamento dos prêmios. Os Estados Unidos destinam dezenas de bilhões de reais anualmente a esse propósito; a União Europeia também combina seguros, fundos mútuos e mecanismos públicos de estabilização de renda agrícola.

Mas a realidade climática do século XXI exige ir além dos modelos convencionais.

Os seguros paramétricos e as estratégias de Proteção Social Antecipatória (PSA) oferecem caminhos complementares e potencialmente transformadores para o Brasil.

Diferentemente dos seguros tradicionais, que dependem da verificação individual das perdas, os seguros paramétricos realizam pagamentos automáticos quando determinados indicadores previamente estabelecidos são atingidos — por exemplo, níveis críticos de chuva, temperatura, geada ou velocidade dos ventos. Quando o gatilho climático é acionado, a indenização ocorre rapidamente, reduzindo burocracias e proporcionando liquidez imediata aos produtores.

Essa rapidez é particularmente importante em um contexto de eventos extremos cada vez mais frequentes. O agricultor não pode esperar meses pela avaliação dos danos enquanto precisa pagar fornecedores, honrar financiamentos ou preparar a próxima safra. A previsibilidade financeira torna-se um ativo tão valioso quanto a própria produção agrícola.

Além disso, os seguros paramétricos podem ser articulados com políticas públicas mais amplas de Proteção Social Antecipatória (PSA). Essa abordagem, hoje discutida internacionalmente por organismos como FAO, Banco Mundial e diversas instituições de pesquisa, parte de uma premissa simples: quando sabemos que um choque climático está se aproximando, devemos agir antes que seus efeitos destruam meios de vida e aprofundem vulnerabilidades sociais.

No caso brasileiro, isso significa integrar informações meteorológicas, sistemas de alerta precoce, seguros agrícolas, programas de transferência de renda e instrumentos de apoio à produção familiar. A confirmação do El Niño, por exemplo, poderia acionar protocolos específicos para diferentes regiões do país, mobilizando antecipadamente recursos para agricultores familiares, alimentação escolar, compras públicas e mecanismos de proteção da renda rural.

Em vez de esperar a seca ou a enchente produzir seus efeitos mais severos, o Estado atuaria preventivamente, reduzindo perdas econômicas e humanas.

Os benefícios potenciais são expressivos. Estudos internacionais mostram que cada dólar investido em mecanismos de ação antecipatória pode gerar múltiplos dólares em perdas evitadas. No setor agropecuário, a previsibilidade proporcionada por seguros e sistemas preventivos também reduz a inadimplência, fortalece cadeias produtivas e melhora as condições de acesso ao crédito.

A experiência recente do Rio Grande do Sul ilustra essa necessidade. As sucessivas secas e enchentes dos últimos anos produziram enormes custos fiscais, exigindo renegociações de dívidas, programas emergenciais e recursos extraordinários. Parte desses impactos poderia ter sido mitigada por sistemas mais robustos de seguros e por mecanismos automáticos de resposta baseados em indicadores climáticos.

Para a agricultura familiar, o desafio é ainda mais urgente. O Proagro desempenha papel fundamental, mas permanece estruturado como um instrumento predominantemente reativo. A discussão sobre uma eventual convergência ou coordenação mais estreita entre Proagro, PSR e novos mecanismos paramétricos merece ser aprofundada, sempre preservando as especificidades dos diferentes perfis de produtores e territórios.

O objetivo não deve ser substituir políticas existentes, mas construir uma arquitetura integrada de gestão de riscos climáticos, combinando crédito, seguros, proteção social e sistemas de informação.

Nesse sentido, o debate sobre o orçamento do PSR ultrapassa a questão setorial. Ele diz respeito ao modelo de desenvolvimento que o Brasil pretende adotar diante da emergência climática.

Continuaremos financiando prejuízos após os desastres ou passaremos a investir sistematicamente na prevenção e na antecipação dos riscos?

A resposta terá implicações profundas para a segurança alimentar, para a sustentabilidade fiscal e para a competitividade do próprio agronegócio brasileiro.

O avanço da Proteção Social Antecipatória e dos seguros paramétricos não elimina a necessidade de ampliar os recursos do seguro rural tradicional. Pelo contrário: ambos devem ser entendidos como instrumentos complementares de uma estratégia nacional de adaptação climática.

Num país continental, sujeito simultaneamente a secas, geadas, enchentes e ondas de calor, construir essa nova geração de políticas públicas deixou de ser uma opção. Tornou-se uma necessidade estratégica para proteger produtores, consumidores e a segurança alimentar das próximas décadas.

Melhor previnir que remediar