Instituto de Nutrição Josué de Castro celebra 80 anos de história, ciência e compromisso social

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Sessão solene destacou o legado de um dos maiores intelectuais brasileiros e a trajetória de uma das unidades mais tradicionais da UFRJ

“Ao escrever obras fundamentais, como Geografia da Fome e Geopolítica da Fome, Josué de Castro retirou a fome do campo da fatalidade e a colocou no centro da responsabilidade política e social. Demonstrou que a fome tem causas concretas e que, portanto, pode e deve ser superada pela ação humana. Essa compreensão permanece extraordinariamente atual.”

Com essa reflexão, o reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Medronho, resumiu o espírito da celebração dos 80 anos do Instituto de Nutrição Josué de Castro (INJC), realizada nesta terça-feira (16/6). A solenidade homenageou a trajetória de uma das unidades mais tradicionais da universidade e destacou a atualidade do legado de Josué de Castro, pioneiro nos estudos sobre a fome e a segurança alimentar.

Realizada no Auditório Professora Maria Thereza Loureiro Lima, no Centro de Ciências da Saúde (CCS), a cerimônia reuniu estudantes, docentes, técnicos-administrativos e representantes da administração central da universidade para celebrar oito décadas de uma instituição que se tornou referência nacional no ensino, na pesquisa e na extensão na área da alimentação e nutrição.

Criado em 1946, o instituto carrega o nome de um dos mais importantes intelectuais brasileiros do século XX. Médico, pesquisador, professor e diplomata, Josué de Castro revolucionou a compreensão sobre a fome ao demonstrar que ela não era resultado da escassez natural de alimentos, mas consequência de estruturas sociais e econômicas injustas.

Durante a solenidade, Medronho ressaltou a atualidade do pensamento de Josué de Castro e a relevância do trabalho desenvolvido pelo instituto ao longo de suas oito décadas de existência. “O maior legado desta instituição talvez esteja na capacidade de articular excelência acadêmica e compromisso público. A ciência encontra sua expressão mais elevada quando se coloca a serviço da vida, da dignidade e da transformação da sociedade”, afirmou.

Em sua fala, o reitor destacou ainda que o instituto ajudou a consolidar a nutrição como campo científico e profissional no Brasil, formando gerações de profissionais comprometidos com a saúde pública, a segurança alimentar e a justiça social. “Que as novas gerações continuem honrando a visão pioneira de Josué de Castro, reafirmando que a fome não é uma fatalidade e que a alimentação adequada não é um privilégio: é um direito”, conclamou.

Representando a família do patrono, Ricardo de Castro, neto de Josué de Castro, emocionou o público ao lembrar que a obra do avô continua inspirando os debates contemporâneos sobre alimentação, desigualdade e desenvolvimento. “Josué compreendeu cedo que a fome não era fruto da natureza, da seca ou da escassez inevitável de alimentos. A fome era produzida por estruturas sociais injustas, pela desigualdade de renda, pela concentração da terra e pela ausência de políticas públicas”, observou.

Para Ricardo, o instituto mantém vivo não apenas o nome, mas também o método de pensamento deixado pelo fundador. “Ao dar nome a este instituto, Josué não está presente apenas como memória. Ele está presente como método, uma forma de olhar para a nutrição de maneira ampla, interdisciplinar e comprometida com a transformação da realidade social”, disse.

A diretora do INJC, Avany Fernandes Pereira, destacou o papel da comunidade acadêmica na construção da história da unidade e definiu o instituto por quatro palavras: formar, acolher, refletir e agir. Em sua fala, agradeceu a dedicação de docentes, técnicos, estudantes e trabalhadores terceirizados que contribuíram para o fortalecimento da instituição ao longo dos anos.

Já a vice-diretora Verônica Oliveira ressaltou o desafio permanente de construir o futuro sem perder de vista o legado deixado por Josué de Castro. Segundo ela, o instituto segue produzindo conhecimento e formando profissionais comprometidos com uma alimentação mais justa, adequada e acessível para toda a população.

O decano do Centro de Ciências da Saúde (CCS), Luiz Eurico Nasciutti, também enfatizou a atualidade das questões enfrentadas pelo instituto. Em seu discurso, lembrou que desafios como a fome, a insegurança alimentar, as mudanças climáticas e a desinformação nutricional reforçam a importância da atuação da unidade na formação de profissionais críticos e comprometidos com a transformação social.

A cerimônia foi aberta por uma apresentação especial do médico pediatra, pesquisador e compositor Antônio Ledo, que interpretou a canção Tributo ao INJC e Josué de Castro, composta especialmente para a celebração dos 80 anos do instituto. A música aborda momentos marcantes da trajetória de Josué de Castro e destaca seu legado científico, humanista e político no combate à fome.

Em versos que lembram obras de Josué de Castro e a atuação do intelectual pernambucano na denúncia das desigualdades sociais, a composição homenageou aquele que transformou a compreensão da alimentação em um tema central para a construção de uma sociedade mais justa.

Ao longo de oito décadas, o Instituto de Nutrição Josué de Castro consolidou-se como uma referência nacional no ensino, na pesquisa e na extensão. A unidade oferece o tradicional curso de graduação em Nutrição, criado em 1948, participou da implantação do curso de Nutrição da UFRJ em Macaé e foi responsável pela criação, em 2011, do primeiro curso público de Gastronomia da Região Sudeste.

Hoje, o instituto também atua na formação de estudantes de diferentes áreas da saúde e mantém programas de pós-graduação reconhecidos nacionalmente, contribuindo para a produção de conhecimento e para a formulação de políticas públicas voltadas à alimentação e à nutrição.

Ao encerrar a cerimônia, a comunidade acadêmica foi convidada a visitar a exposição Identidade e Memória: 80 anos do Instituto de Nutrição Josué de Castro da UFRJ, que reúne fotografias históricas e capas de livros produzidos por docentes e técnicos da unidade, celebrando a trajetória de uma instituição cuja história se confunde com a própria luta pelo direito humano à alimentação adequada no Brasil.

Visite o site oficial dos 80 Anos do INJC

Exposição 80 Anos do INJC

Esta exposição celebra os 80 Anos do Instituto de Nutrição Josué de Castro (INJC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A trajetória do INJC tem a sua origem ligada tanto ao Instituto de Tecnologia Alimentar (ITA) que surgiu a partir de interesses da indústria alimentícia brasileira, quanto pelas ações de intelectuais e estudiosos que implementaram várias pesquisas e projetos sobre os problemas relacionados à fome e à desnutrição no país. Dentre eles, destaca-se Josué de Castro que esteve à frente da fundação do Instituto. 

Em 1946, o ITA foi incorporado à Universidade do Brasil, levando à criação do Instituto de Nutrição (INUB) que com as pesquisas desenvolvidas se consolidou como um expoente no processo de expansão da Nutrição no Brasil. 

No INUB, o curso para médicos nutrólogos era oferecido desde 1946, enquanto o curso técnico para dietistas, voltado para as “moças”, foi oferecido a partir de 1948. Esta distinção inicial marca uma questão de gênero evidente na forma em que o  curso era anunciado nos jornais, inclusive sendo indicado para as donas de casa que quisessem aprimorar as suas demandas no lar. 

Com a formação das primeiras mulheres dietistas este paradigma foi sendo quebrado e o curso foi sendo reestruturado, contribuindo para a consolidação da Nutrição como um campo de pesquisa, conhecimento e atuação profissional.

Após o INUB ter três médicos como os seus primeiros diretores: Josué de Castro, Clementino Fraga Filho e Hélio de Souza Luz, em 1972, Neuza Therezinha de Rezende Cavalcante se tornou a primeira nutricionista diretora do Instituto de Nutrição da UFRJ. Lembramos que ela se formou nas primeiras turmas de dietistas do INUB. E desde então o INJC só teve diretoras nutricionistas.

O INJC continuou o legado de Josué de Castro ao implantar o Programa de Pós-Graduação e o primeiro curso público de Graduação em Gastronomia da região sudeste.

Por falar em Josué de Castro, ele se tornou o patrono do Instituto, em 1996. Hoje é celebrado com um Museu também em seu nome, que além de sua obra, há documentos, fotografias e os seus registros docentes preservados e disseminados a fim de homenagear o seu legado e o seu pioneirismo na luta contra a fome e a desnutrição no país.

Andréa Cristina de Barros Queiroz
Historiadora da UFRJ
Diretora da Divisão de Memória Institucional / SiBI / UFRJ

Visite aqui a exposição 80 anos do INJC

fontes:
https://ufrj.br/2026/06/instituto-de-nutricao-josue-de-castro-celebra-80-anos-de-historia-ciencia-e-compromisso-social/
https://memoria.sibi.ufrj.br/2026/06/01/80-anos-do-injc/