Blgo do IFZ | 29/06/2026
Nota baseada no briefing “Key findings and recommendations from global South funding mechanisms for the reform of the global financial architecture”, publicado pelo International Institute for Environment and Development (IIED) em junho de 2026, como síntese do relatório da Global South House apresentado durante a COP30 em Belém.
A construção de sistemas mais resilientes diante das mudanças climáticas exige muito mais do que ampliar volumes de financiamento. Exige transformar a forma como os recursos são distribuídos, quem decide sobre sua utilização e quais conhecimentos orientam as soluções. Essa é a principal mensagem do novo briefing do International Institute for Environment and Development (IIED), que sintetiza as recomendações formuladas por fundos e organizações do Sul Global reunidos na primeira edição da Global South House, realizada durante a COP30 em Belém.
Para a agenda da Proteção Social Antecipatória (PSA), as conclusões são particularmente relevantes. O documento argumenta que as comunidades mais afetadas pelas crises climáticas, ambientais e econômicas continuam recebendo a menor parcela dos recursos disponíveis, apesar de estarem na linha de frente da construção das soluções necessárias para fortalecer a resiliência e proteger pessoas e territórios.
Segundo o IIED, a arquitetura financeira internacional permanece excessivamente concentrada, opaca e orientada por prioridades externas às realidades locais. Mulheres, povos indígenas e outros grupos historicamente marginalizados continuam recebendo uma parcela extremamente reduzida do financiamento climático, enquanto processos burocráticos complexos e mecanismos rígidos de prestação de contas dificultam o acesso de organizações comunitárias aos recursos disponíveis.
Em resposta a essas limitações, diferentes mecanismos de financiamento do Sul Global vêm construindo modelos alternativos baseados na confiança, na participação comunitária e na valorização dos conhecimentos locais. O briefing destaca que esses fundos atuam não apenas como financiadores, mas como infraestruturas sociais essenciais para fortalecer soluções lideradas pelas próprias comunidades.
Essa constatação dialoga diretamente com os princípios da proteção social antecipatória. Antecipar impactos climáticos significa criar capacidades permanentes nos territórios para transformar informações, alertas e previsões em ações concretas antes que as crises se agravem. Isso somente é possível quando existem organizações locais robustas, redes de confiança e mecanismos flexíveis de apoio financeiro.
O documento mostra que esses fundos trabalham em áreas particularmente estratégicas para a agenda da PSA, incluindo adaptação climática, segurança alimentar, agroecologia, proteção da biodiversidade, meios de vida sustentáveis e respostas emergenciais. Mais importante ainda, combinam financiamento com assistência técnica, fortalecimento institucional e desenvolvimento de capacidades comunitárias.
A experiência acumulada por essas iniciativas demonstra que a transformação não depende apenas de recursos adicionais, mas da construção de novas formas de governança. Os mecanismos do Sul Global priorizam processos participativos de tomada de decisão, avaliações comunitárias e modelos híbridos que combinam chamadas abertas com iniciativas desenhadas diretamente com os territórios. Dessa maneira, a prestação de contas deixa de atender exclusivamente às prioridades dos financiadores e passa a refletir as necessidades das próprias comunidades.
Outro elemento central é a revisão das práticas tradicionais de diligência e monitoramento. Em vez de impor exigências incompatíveis com a realidade local, os fundos investem no fortalecimento organizacional, simplificam procedimentos e oferecem suporte técnico para processos jurídicos e financeiros. O desenvolvimento institucional é entendido como investimento estratégico e não como custo administrativo.
Da mesma forma, mecanismos de monitoramento e avaliação assumem caráter educativo e emancipatório. A flexibilidade no uso dos recursos permite ajustes contínuos e transforma a aprendizagem coletiva em parte integrante dos processos de mudança social e ambiental.
Para a proteção social antecipatória, essas lições são valiosas. Sistemas como o Cadastro Único, o Bolsa Família, o PNAE e o PAA podem ampliar significativamente sua capacidade preventiva quando articulados com redes comunitárias, organizações territoriais e mecanismos de financiamento mais flexíveis. A antecipação não depende apenas de modelos climáticos sofisticados ou de instrumentos financeiros inovadores; depende, sobretudo, da existência de instituições locais capazes de agir rapidamente e com legitimidade social.
O briefing alerta, entretanto, que o potencial transformador desses fundos continua limitado por uma arquitetura financeira inadequada. Cortes na ajuda internacional, maior direcionamento de recursos para grandes projetos de infraestrutura e mecanismos voltados ao setor privado reduzem ainda mais o espaço disponível para iniciativas locais justamente em um momento de intensificação das crises climáticas e de restrição dos espaços cívicos.
Os autores identificam ainda uma profunda falta de confiança dos mecanismos tradicionais em relação aos fundos do Sul Global. Em vez de fortalecer iniciativas já consolidadas, muitos financiadores continuam impondo processos de acreditação caros e demorados, pacotes financeiros incompatíveis com organizações comunitárias e ciclos curtos de projetos que inviabilizam transformações estruturais de longo prazo.
Como resposta, o IIED propõe três grandes caminhos para reformar a arquitetura financeira internacional. O primeiro é reconhecer e apoiar as infraestruturas sociais construídas pelos próprios fundos do Sul Global, direcionando recursos flexíveis, previsíveis e de longo prazo para sustentar redes de solidariedade, confiança e conhecimento territorial.
O segundo consiste em simplificar mecanismos de acesso aos recursos, reduzindo barreiras burocráticas e criando modalidades de financiamento mais compatíveis com organizações comunitárias e iniciativas locais.
Por fim, o documento defende a construção de modelos colaborativos de financiamento, combinando recursos de filantropias do Norte e do Sul, governos e organismos multilaterais, por meio de instrumentos como fundos rotativos, financiamentos de transição e apoio institucional de longo prazo.
Para a agenda da proteção social antecipatória, a mensagem é inequívoca: não é necessário reinventar estruturas, mas fortalecer aquelas que já existem nos territórios. Investir em redes locais, ampliar capacidades institucionais e construir relações de confiança são condições fundamentais para que sistemas de proteção social consigam antecipar choques climáticos, preservar meios de vida e proteger a segurança alimentar em um mundo cada vez mais vulnerável às mudanças do clima.
Mensagens principais
- O briefing foi produzido pelo IIED como síntese das recomendações da Global South House apresentada na COP30 em Belém.
- Fundos do Sul Global funcionam como infraestruturas sociais essenciais para soluções lideradas pelas próprias comunidades.
- A proteção social antecipatória depende da articulação entre políticas públicas e redes comunitárias locais.
- Processos participativos, financiamento flexível e fortalecimento institucional geram respostas mais eficazes e duradouras do que modelos excessivamente burocráticos.
- Reformar a arquitetura financeira internacional significa investir nas capacidades já existentes nos territórios, e não impor soluções externas de cima para baixo.
Baixe aqui o briefing “Financing social and environmental justice in the global South“
