IPCA de Junho de 2026: Preços de Alimentos em Baixa, Inflação ao Consumidor sob Controle no Brasil

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Por José Giacomo Baccarin e Gustavo Jun Yakushiji | 14/07/2026

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1- Introdução

Os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) sobre o IPCA (Índice de Preços ao consumidor Amplo), de junho de 2026, apontam que a alimentação passou a puxar para baixo a inflação ao consumidor no Brasil. Enquanto a média do IPAB (Índice de Preços de Alimentação e Bebidas), um dos nove grupos de despesa do IPCA, nos primeiros cinco meses de 2026, foi de 0,96%, em junho ele revelou uma queda de 0,24% (IBGE, 2026).

Além dessa diferença, há outra a ser apontada, em relação aos anos anteriores, em que, por razões de sazonalidade agrícola, os preços de alguns alimentos, especialmente de olerícolas, subiam nos meses iniciais, para depois reduzirem a pressão sobre inflação a partir de abril. Em 2026, tal fato demorou mais para acontecer, muito provavelmente por uma razão externa, o conflito bélico entre EUA e Irã, com efeitos nos preços dos combustíveis e custos de produção agrícola.

Neste Boletim, comparamos a variação de preços do grupo Alimentação e Bebidas com a dos demais oito grupos do IPCA. Bem como destacamos os principais componentes do IPAB que influenciaram sua variação, de janeiro a junho de 2026. Como nos boletins anteriores, nossa fonte básica de dados são as tabelas divulgadas pelo IBGE em relação ao IPCA e seus componentes (IBGE, 2026).

2 – O Papel da Alimentação e Bebidas e dos Demais Grupos do IPCA

No primeiro semestre de 2026, a Tabela 1 revela que o IPCA cresceu 3,36%, acima dos 2,99%, em igual período de 2025. Ressalte-se que a diferença, entre 2026 e 2025, revelava-se pouco maior considerando os dados até maio.

Entre os grupos do IPCA, três mostraram aumento acima da média no primeiro semestre de 2026, Educação, Saúde e Cuidados Pessoais e Alimentação e Bebidas. A variação deste grupo é a mais preocupante, posto que os gastos com alimentos no Brasil, atualmente, representam quase 22% das despesas estimadas de consumo das famílias brasileiras, o maior entre os nove grupos de despesa. O grupo Transportes, o segundo em importância, aparentemente, teve seus preços controlados no segundo trimestre em comparação com o primeiro trimestre de 2026, sob a influência da ação governamental no preço dos combustíveis.

Tabela 1 Variação de preços dos grupos do IPCA, janeiro a junho de 2026, Brasil

Ainda em relação ao grupo Alimentação e Bebidas, deve-se destacar a forte oscilação constatada no mês de junho, com o valor de seu índice caindo 0,24%, contra aumentos acima de 1,00%, nos três meses anteriores. A flutuação em si não é uma novidade, dada as características de parte dos mercados agrícolas, caracterizada pela perecibilidade e sazonalidade de produção. Como dito anteriormente, a novidade de 2026 é que a flutuação demorou mais para se manifestar.

3 – Variações de Preços dos Componentes do IPCA

Considerando os dois subgrupos de Alimentação e Bebidas, o índice da Alimentação Fora do Domicílio aumentou 2,76%, no primeiro semestre de 2026, contra aumento de 5,26% do subgrupo Alimentação no Domicílio. Neste caso, o mês de junho revelou uma queda de 0,39% no IPAB, depois de um aumento de 5,67%, nos primeiros cinco meses do ano.

Da Tabela 2 pode-se inferir que há questões específicas de produtos que afetam os preços dos itens da Alimentação no Domicílio, fazendo com que as variações apresentem uma grande dispersão em torno da média. Entre os cinco itens com maior variação de preços no primeiro semestre de 2026, inicialmente, destaquem-se dois caracterizados pela perecibilidade de seus produtos, Tubérculos, Raízes e Legumes e Hortaliças e Verduras.  Neste, a queda de preços verificada em maio teve continuidade em junho, enquanto que o menor aumento de preços da batata e da cebola e a queda de preços do tomate em junho contribuiu para um aumento bem menos significativo do item Tubérculos, Raízes e Legumes, em relação aos meses anteriores. É esperado que nos próximos dois a três meses, a partir de julho, continue a tendência de menor pressão de preços das olerícolas, podendo-se juntar o verificado no item Frutas.

Tabela 2 Variação de preços dos itens da Alimentação no Domicílio, janeiro a junho de 2026, Brasil.

Quanto ao item Cereais, Leguminosas e Oleaginosas, a pressão de preços se concentrou no feijão, com o preço do feijão preto apresentando aumento de 19,22% e o do feijão carioca, elevação de 52,82%, no primeiro semestre de 2026. Ao mesmo tempo, registrou-se uma pequena queda no preço do arroz, de 0,52%. Diferente do feijão, o arroz pode ser armazenado, sem perder valor culinário, por muito mais tempo, além de ter um expressivo mercado internacional. A instabilidade no preço do feijão tende a ser muito maior, embora registrem-se várias safras dessa leguminosa, ao longo do ano.

Dos outros dois outros itens destacados, Carnes registrou aumento de preços de 5,6º% nos primeiros seis meses de 2026, com participação de 20,27% na elevação de preços da Alimentação no Domicílio. Contudo, o mês de junho, diferente dos cinco meses anteriores, revelou queda no preço das Carnes, tanto na suína quanto nos diferentes cortes da carne bovina.

Por fim, Leite e Derivados registrou um aumento de 10,07% em seus preços, representando 21,51% do encarecimento na Alimentação no Domicílio. Tal participação só foi menor do que a de Tubérculos, Raízes e Legumes, de 48,60%, no primeiro semestre de 2026.

4 – Considerações Finais

É possível que no trimestre julho a setembro, os preços da Alimentação e Bebidas, mais especificamente, da Alimentação no Domicílio, diminuam a pressão sobre a inflação ao consumidor no Brasil, dando continuidade ao ocorrido no mês de junho de 2026. Porque as olerícolas tenderão a registrar pequeno ou mesmo queda de preços nos próximos meses e, também, porque diminuíram as pressões vindas da bovinocultura, de corte e de leite. Ademais, a depender de sua safra de inverno, um alívio adicional pode vir do mercado do feijão.

À essa perspectiva favorável na Alimentação e Bebidas, junta-se o fato de que no Transportes a ação pública tem-se mostrado efetiva no controle dos preços dos combustíveis, apontando para um arrefecimento na inflação ao consumidor no Brasil, nos próximos meses. Não se deve esquecer que Alimentação e Bebidas e Transporte representam mais de 40% dos gastos dos consumidores brasileiros, na atualidade.

Contudo, da mesma maneira que o ocorrido na passagem de fevereiro para março deste ano, a retomada do conflito bélico no Estreito de Ormuz pode fazer com que efeitos externos, relacionados com o encarecimento das commodities minerais e agrícolas, contraponham-se às atuais perspectivas internas, que se mostram favoráveis à contenção da inflação de alimentos.

José Giacomo Baccarin é Professor Economia Rural e Política Agrícola UNESP, campus Jaboticabal (SP). Credenciado Pós-Graduação Geografia UNESP, campus Rio Claro (SP). Diretor Instituto Fome Zero. E-mail: [email protected]

Gustavo Jun Yakushiji é Engenheiro Agrônomo e Doutorando em Estatística e Experimentação Agronômica, ESALQ/USP, Piracicaba.


Referências

IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo. Rio de Janeiro: SIDRA, 2026. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/home/ipca/brasil. Acesso em: 11 julho 2026.


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