Blog do IFZ | 15/07/2026
Dois importantes estudos científicos publicados recentemente reforçam uma mensagem que vem ganhando força entre pesquisadores e formuladores de políticas públicas: a epidemia mundial de obesidade está longe de ter sido controlada, mas sua dinâmica mudou profundamente. Enquanto diversos países de alta renda começam a estabilizar suas taxas de obesidade, grande parte dos países de baixa e média renda vive uma rápida aceleração do problema, tornando a prevenção uma prioridade urgente para os sistemas de saúde e de proteção social.
O primeiro estudo, “O aumento da obesidade se estabiliza nos países desenvolvidos e se acelera nos países em desenvolvimento” (Obesity rise plateaus in developed nations and accelerates in developing nations), publicado na revista Nature pelo consórcio internacional NCD Risk Factor Collaboration (NCD-RisC) liderado por pesquisadores do Imperial College London, analisou dados de 4.050 estudos populacionais, envolvendo cerca de 232 milhões de pessoas em aproximadamente 200 países entre 1980 e 2024. Trata-se da análise mais abrangente já realizada sobre a evolução da obesidade no mundo.
Os resultados revelam que a trajetória da obesidade deixou de ser homogênea. Em muitos países de alta renda — como Japão, Dinamarca e França — o crescimento da obesidade infantil desacelerou ainda na década de 1990 e posteriormente entrou em um período de estabilização. Em alguns casos, observam-se inclusive pequenas reduções entre crianças e adolescentes. Entre os adultos, a estabilização ocorreu cerca de uma década depois. Entretanto, essa estabilização acontece em níveis muito diferentes: enquanto alguns países mantêm prevalências relativamente baixas, outros, como os Estados Unidos, continuam convivendo com taxas extremamente elevadas.
O cenário é muito distinto nas economias de baixa e média renda. África, Ásia, América Latina e Caribe apresentam hoje os maiores ritmos de crescimento da obesidade em praticamente todas as faixas etárias. Segundo os autores, isso demonstra que a chamada “epidemia global” é, na realidade, composta por diferentes trajetórias nacionais, fortemente influenciadas pelas transformações dos sistemas alimentares, urbanização, desigualdade social e acesso desigual a alimentos saudáveis.
O segundo estudo “Integração de políticas que promovam alimentos minimamente processados com políticas que restrinjam alimentos ultraprocessados para a prevenção da obesidade e das doenças não transmissíveis” (Integrating Policies that Enable Minimally Processed Foods with Policies that Restrict Ultra-Processed Foods for Obesity and Noncommunicable Disease Prevention) publicado na revista Current Obesity Reports (Springer Nature), amplia essa discussão ao revisar as evidências mais recentes sobre os fatores estruturais que impulsionam o crescimento da obesidade e sobre as estratégias mais eficazes para enfrentá-la. A revisão mostra que a obesidade deve ser compreendida como uma doença multifatorial, resultado da interação entre fatores biológicos, ambientais, econômicos e sociais, e não apenas como consequência de escolhas individuais. Os autores destacam que intervenções focadas exclusivamente na responsabilidade pessoal têm impacto limitado quando não são acompanhadas por mudanças nos ambientes alimentares, na regulação do mercado e em políticas públicas de prevenção.
Entre as recomendações apresentadas estão políticas tributárias sobre bebidas açucaradas, melhoria da rotulagem nutricional, restrições ao marketing de alimentos ultraprocessados direcionado às crianças, promoção da alimentação saudável nas escolas, estímulo à atividade física e fortalecimento da atenção primária em saúde. A literatura também ressalta que o avanço dos novos medicamentos para obesidade representa uma oportunidade importante para o tratamento clínico, mas não substitui políticas populacionais capazes de reduzir a incidência da doença.
Os dois estudos convergem para uma conclusão importante: combater a obesidade exige uma abordagem integrada, semelhante àquela já defendida por especialistas em segurança alimentar. Sistemas alimentares saudáveis, proteção social, educação alimentar, planejamento urbano, agricultura sustentável e políticas de saúde precisam atuar de forma coordenada. Não
Ambos deixam claro que a obesidade já não é apenas um problema dos países ricos. Trata-se de um dos maiores desafios para o desenvolvimento nas próximas décadas. Quanto mais cedo governos investirem em prevenção, regulação dos ambientes alimentares e promoção de dietas saudáveis, menores serão os custos futuros para os sistemas de saúde e maiores serão os ganhos em produtividade, qualidade de vida e desenvolvimento humano.
Baixe aqui ambos os estudos
Obesity rise plateaus in developed nations and accelerates in developing nations
publicado na Revista Nature https://www.nature.com/articles/s41586-026-10383-0
NCD Risk Factor Collaboration (NCD-RisC). Obesity rise plateaus in developed nations and accelerates in developing nations. Nature 653, 510–518 (2026). https://doi.org/10.1038/s41586-026-10383-0
Integrating Policies that Enable Minimally Processed Foods with Policies that Restrict Ultra-Processed Foods for Obesity and Noncommunicable Disease Prevention
publicado na revista Current Obesity Reports pela Springer Nature https://link.springer.com/article/10.1007/s13679-026-00724-5
Lara-Arevalo, J., Ng, S.W., Jensen, M.L. et al. Integrating Policies that Enable Minimally Processed Foods with Policies that Restrict Ultra-Processed Foods for Obesity and Noncommunicable Disease Prevention. Curr Obes Rep 15, 57 (2026). https://doi.org/10.1007/s13679-026-00724-5
