Blog do IFZ | 16/07/2026
A transformação dos sistemas alimentares redefiniria a agricultura global (Food systems transformation would reshape global agriculture), artigo publicado nesta semana na revista Nature, oferece algo raro nesse campo de pesquisa: uma medida concreta da dimensão das mudanças que seriam necessárias para que a humanidade se alimentasse de forma saudável e, ao mesmo tempo, permanecesse dentro dos limites ecológicos do planeta. A resposta, construída a partir de dez dos principais modelos econômicos agrícolas do mundo, é expressiva em qualquer escala que se escolha para observá-la.
Assinado por uma equipe internacional liderada por pesquisadores da Universidade Cornell e da London School of Hygiene & Tropical Medicine, com colaboração de instituições como o IIASA, o IFPRI e o Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático, o trabalho projeta o que poderia acontecer à agricultura global até 2050 caso o planeta adotasse, em larga escala, a dieta saudável de referência proposta pela Comissão EAT-Lancet, reduzisse pela metade o desperdício de alimentos e ampliasse os ganhos de produtividade agrícola. Os autores compararam esse cenário de transformação, denominado EL2, a uma projeção de continuidade das tendências atuais, conhecida como BAU. As diferenças entre esses dois futuros ajudam a iluminar as escolhas que se apresentam diante das sociedades contemporâneas.
Uma ruptura de dois mil anos
O resultado mais simbólico do estudo é também um dos mais silenciosos. Pela primeira vez em mais de dois mil anos de registros históricos, a área agrícola global deixaria de crescer e passaria a diminuir. A pesquisa estima uma retração próxima de 274 milhões de hectares, equivalente a devolver à natureza uma extensão territorial superior à da Argentina. Isso levaria o uso agrícola do planeta a níveis semelhantes aos do final da década de 1970, quando a população mundial ainda não alcançava cinco bilhões de pessoas, embora em 2050 ela deva superar os nove bilhões.
Essa contração seria impulsionada principalmente pelas pastagens, cuja extensão recuaria aproximadamente 10% em relação aos níveis atuais, parcialmente compensada por uma expansão modesta das lavouras, próxima de 3%. Os pesquisadores observam que essa mudança exigiria um ritmo de redução das áreas de pastagem duas vezes e meia superior ao observado nas últimas duas décadas, um indicativo da profundidade da reorganização produtiva projetada para a agricultura mundial.
Grande parte dessas áreas liberadas, contudo, não apresentaria condições naturais adequadas para a conversão em lavouras. O destino mais provável seria, portanto, a regeneração de florestas e ecossistemas nativos, com benefícios potencialmente significativos para a biodiversidade e para a estabilidade climática.
Da centralidade da pecuária à diversificação alimentar
Nenhum segmento sentiria essa transição com tanta intensidade quanto a pecuária. A produção de carne de ruminantes seria cerca de 53% inferior àquela projetada pela trajetória atual, e o planeta passaria a contar com aproximadamente 400 milhões de bovinos, ovinos e caprinos a menos do que hoje, retornando a um patamar não observado desde 1996.
Em termos econômicos, a participação da pecuária no valor total da produção agrícola global cairia de 36% para aproximadamente 20%. Os setores de laticínios, aves e suínos também apresentariam retração, embora em intensidade menor do que a observada para bovinos, ovinos e caprinos.
Enquanto isso, frutas, hortaliças, legumes, castanhas e nozes assumiriam uma importância econômica muito superior à atual. O valor da produção desse conjunto de alimentos aumentaria cerca de 23%, elevando sua participação de 34% para 58% da produção agrícola terrestre. Cereais e culturas açucareiras tenderiam a recuar de forma significativa, uma vez que parte substancial de sua produção contemporânea está associada à alimentação animal, cuja dimensão diminuiria consideravelmente em um cenário de adoção ampla de dietas saudáveis. Parte relevante da produção de oleaginosas seguiria trajetória semelhante, migrando da produção de ração para o consumo humano direto e para usos industriais.
Vale observar que, apesar dessas mudanças profundas, o valor agregado da agricultura mundial no cenário de transformação permaneceria próximo ao registrado em 2020. Os próprios autores destacam esse resultado como um contraponto importante à ideia de que uma transição alimentar necessariamente conduziria a um colapso econômico do setor agrícola global. O que mudaria de maneira substancial seria a composição dessa riqueza e os setores responsáveis por sua geração.
Benefícios que ultrapassam o prato
Os ganhos ambientais projetados pelo estudo são expressivos. As emissões agrícolas de gases de efeito estufa não associadas ao dióxido de carbono seriam aproximadamente 34% inferiores às do cenário tendencial, enquanto as emissões líquidas de CO₂ decorrentes das mudanças no uso da terra poderiam diminuir em cerca de 76%, principalmente em razão da recuperação de florestas e vegetação nativa em áreas anteriormente destinadas às pastagens.
O uso de fertilizantes nitrogenados cairia aproximadamente 17%, enquanto a retirada de água para irrigação apresentaria redução mais modesta, próxima de 3%.
No campo da saúde pública, a estimativa dos autores impressiona pela magnitude. A adoção global de dietas mais saudáveis poderia evitar cerca de 15 milhões de mortes prematuras de adultos por ano, colocando essa transformação entre as intervenções de maior potencial já projetadas para a saúde humana.
Os pesquisadores também recordam que os custos ocultos dos sistemas alimentares atuais, considerando conjuntamente os impactos ambientais e sanitários, têm sido estimados entre dez e vinte trilhões de dólares anuais. Trata-se de uma cifra que ajuda a dimensionar a escala dos benefícios potenciais associados à transformação dos sistemas alimentares globais.
Vencedores, perdedores e o principal obstáculo
O estudo é particularmente transparente quanto aos custos dessa transição, e talvez seja justamente nesse aspecto que resida sua maior contribuição para o debate sobre políticas públicas.
Os benefícios da mudança não se distribuiriam de maneira homogênea entre países e regiões. A África Subsaariana e a Índia poderiam registrar aumentos no valor de sua produção agrícola da ordem de 60% e 40%, respectivamente, à medida que suas dietas se aproximassem dos padrões nutricionais recomendados e aumentasse a demanda por alimentos vegetais diversificados.
Já países fortemente dependentes da pecuária e da produção de ração animal, como Brasil e China, tenderiam a enfrentar reduções significativas no valor de sua produção agrícola, próximas de 35% e 42%. Ao lado dos Estados Unidos, esses países figuram entre os maiores produtores mundiais de insumos destinados à alimentação animal, circunstância que ajuda a compreender por que seriam particularmente afetados pelas mudanças projetadas.
O mercado de trabalho agrícola também passaria por transformações importantes em sua composição interna. Embora o emprego total do setor apresente redução semelhante nos dois cenários analisados, no cenário de transformação as ocupações ligadas ao cultivo agrícola seriam cerca de 17% superiores às projetadas para a trajetória tendencial, enquanto os empregos associados à pecuária seriam aproximadamente 36% inferiores.
Os pesquisadores são claros ao afirmar que o principal obstáculo a essa transição não reside na tecnologia disponível nem na capacidade produtiva da agricultura mundial. Sob o ponto de vista técnico, a mudança já seria possível. O desafio encontra-se sobretudo na economia política que envolve setores economicamente influentes ligados à pecuária, ao açúcar e às commodities utilizadas na alimentação animal, além das barreiras culturais, sociais e econômicas que moldam os hábitos alimentares de bilhões de pessoas.
Ferramentas isoladas, como tributação sobre determinados alimentos ou políticas de rotulagem nutricional, dificilmente seriam suficientes para promover uma transformação dessa magnitude. Seria necessário um conjunto coordenado de políticas públicas capaz de reconhecer e administrar os interesses divergentes que inevitavelmente surgiriam ao longo do processo.
Um convite à reflexão
O estudo oferece algo mais valioso do que uma previsão sobre o futuro da agricultura mundial. Ele fornece uma medida concreta da profundidade das escolhas alimentares que as sociedades terão diante de si ao longo das próximas décadas.
Os resultados indicam que sistemas alimentares mais saudáveis e ambientalmente sustentáveis são compatíveis com a capacidade produtiva do planeta e com a segurança alimentar de uma população crescente. O que permanece em aberto não é a possibilidade técnica dessa transformação, mas a disposição política e social para conduzi-la.
Nenhum modelo econômico consegue representar integralmente a complexidade das preferências culturais, das desigualdades de renda ou das diferentes formas pelas quais as sociedades se relacionam com a alimentação. Ainda assim, estudos como este cumprem uma função essencial. Eles tornam visíveis os contornos de futuros possíveis e permitem que escolhas coletivas deixem de ser guiadas apenas pela inércia das tendências atuais.
Em um século marcado simultaneamente pela crise climática, pela persistência da fome e pela expansão das doenças relacionadas à alimentação, compreender essas alternativas talvez seja uma das tarefas intelectuais mais importantes do nosso tempo.
Baixe aqui o artigo “Food systems transformation would reshape global agriculture“
Gibson, M., Sundiang, M., Mason-D’Croz, D. et al. Food systems transformation would reshape global agriculture. Nature (2026). https://doi.org/10.1038/s41586-026-10775-2
