Só um país produz todos os alimentos necessários para uma dieta saudável

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Blog do IFZ | 20/07/2026

A ideia de que um país é capaz de alimentar sua própria população costuma ser associada à extensão das áreas cultivadas, à produtividade agrícola ou à força de seu setor agropecuário. Um estudo publicado na Nature Food propõe, porém, uma medida mais exigente. Em vez de avaliar o volume total de alimentos produzido por cada nação, os pesquisadores investigaram quantos países conseguem suprir, exclusivamente com a produção doméstica, todos os alimentos necessários para atender às recomendações de uma dieta saudável.

A resposta evidencia uma dependência muito maior do comércio internacional do que geralmente se imagina. Entre os 186 países analisados, apenas a Guiana produz quantidade suficiente para satisfazer, sozinha, as recomendações referentes aos sete grupos alimentares considerados essenciais. China e Vietnã alcançam suficiência em seis grupos. Na outra extremidade, Afeganistão, Catar, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Iraque e Macau não conseguem atender integralmente às recomendações de nenhum deles apenas com a produção nacional.

Conduzido por Jonas Stehl e colaboradores das universidades de Göttingen e Edimburgo, o estudo “Distância entre a produção nacional de alimentos e as recomendações alimentares evidencia a falta de autossuficiência dos países” (Gap between national food production and food-based dietary guidance highlights lack of national self-sufficiency), combinou dados da produção agrícola de 2020, reunidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), com as recomendações da dieta Livewell, desenvolvida pelo WWF para conciliar promoção da saúde e sustentabilidade ambiental. A análise abrange sete grupos de alimentos: cereais e tubérculos, leguminosas, nozes e sementes, frutas, vegetais, carnes, laticínios e pescados.

A pesquisa foi desenvolvida em um contexto marcado por sucessivas interrupções nas cadeias globais de abastecimento. A pandemia de covid-19 e, posteriormente, a guerra na Ucrânia expuseram a vulnerabilidade de sistemas altamente interdependentes, nos quais restrições comerciais, dificuldades logísticas ou aumentos abruptos dos preços podem comprometer rapidamente o acesso da população aos alimentos. Nesse cenário, a autossuficiência alimentar voltou a ocupar espaço nas discussões sobre segurança alimentar.

Os autores, entretanto, advertem contra interpretações simplificadoras. Produzir alimentos mais próximo do consumidor não implica, necessariamente, benefícios ambientais expressivos, já que o transporte representa apenas uma parcela limitada das emissões dos sistemas alimentares globais. A questão central não é substituir o comércio internacional pela produção local, mas compreender como produção doméstica e redes de abastecimento podem atuar de forma complementar para assegurar o acesso contínuo a dietas saudáveis, inclusive em períodos de instabilidade.

Um mundo ainda distante da autossuficiência nutricional

Quando a qualidade nutricional da alimentação é adotada como referência, a autossuficiência permanece fora do alcance da maioria dos países.

Dos 186 países avaliados, 154 produzem o suficiente para atender às recomendações de apenas dois a cinco dos sete grupos alimentares. Mais de um terço não alcança sequer três grupos, enquanto apenas uma pequena parcela consegue atingir suficiência em cinco ou mais categorias.

As diferenças regionais são marcantes. Países da África, do Caribe e parte da Europa concentram boa parte das maiores insuficiências, enquanto diversas nações da América do Sul e algumas economias asiáticas apresentam desempenho relativamente mais favorável.

Essas disparidades também variam conforme o grupo alimentar considerado. A produção de carnes, por exemplo, alcança níveis de suficiência em um número muito maior de países do que a maioria das demais categorias. O resultado indica que a segurança nutricional depende menos do volume global da produção agrícola do que da diversidade de alimentos disponíveis.

Produzir muito não significa produzir uma alimentação completa

Quando os resultados são examinados separadamente por grupo alimentar, torna-se evidente que a autossuficiência é muito mais complexa do que sugerem os indicadores de produção agrícola. A maioria dos países consegue atender às recomendações de algumas categorias, mas permanece dependente de importações para outras. É essa especialização produtiva que explica por que tão poucas nações conseguem oferecer, apenas com a produção doméstica, todos os alimentos necessários a uma dieta equilibrada.

Entre os alimentos de origem animal, as carnes apresentam o cenário mais favorável. Cerca de 65% dos países produzem quantidade suficiente para atender às recomendações nutricionais. Ainda assim, déficits persistem em grande parte da África Subsaariana.

Nos laticínios, a distribuição é menos homogênea. A Europa é a única região em que todos os países alcançam suficiência, enquanto extensas áreas da África e da Oceania permanecem abaixo do volume recomendado. Como consequência, menos da metade das nações analisadas consegue suprir integralmente a demanda por leite e derivados.

A situação é mais restritiva no caso dos pescados. Apenas um quarto dos países produz o suficiente para atender às recomendações alimentares e, em cerca de 60% deles, a produção sequer alcança metade do nível considerado adequado. Essa limitação não se restringe a uma região específica. Ela aparece tanto em países continentais quanto em diversos Estados insulares, refletindo diferenças ambientais, econômicas e tecnológicas que condicionam a disponibilidade desse recurso.

Entre os alimentos de origem vegetal, os contrastes permanecem acentuados. Aproximadamente metade dos países alcança suficiência em cereais e tubérculos, frutas ou leguminosas, nozes e sementes. Os vegetais constituem a principal exceção. Apenas 24% das nações produzem internamente o volume recomendado e, na África Subsaariana, mais de nove em cada dez permanecem abaixo desse patamar.

O conjunto desses resultados mostra que os sistemas agrícolas tendem à especialização. É comum que um país apresente excedentes em determinados alimentos e dependa de importações para garantir outros componentes igualmente indispensáveis de uma alimentação saudável. A autossuficiência, portanto, depende menos da quantidade produzida do que da diversidade da produção.

O alcance — e os limites — do comércio regional

Os pesquisadores também investigaram se a integração econômica entre países poderia compensar parte dessas deficiências.

Quando a produção é considerada no conjunto dos blocos regionais, a disponibilidade de alimentos melhora, mas apenas de forma limitada. Em média, a suficiência aumenta o equivalente a um quarto de grupo alimentar por país. O comércio entre vizinhos amplia a oferta, porém não elimina as restrições impostas pela estrutura produtiva de cada região.

Alguns países conseguem reduzir déficits importantes graças às trocas realizadas dentro de seus blocos econômicos. Ainda assim, os ganhos permanecem insuficientes para assegurar autossuficiência nutricional ampla.

Nenhum dos blocos avaliados produz quantidade suficiente para atender às recomendações de mais de cinco dos sete grupos alimentares. Nenhum alcança autossuficiência em vegetais e apenas dois conseguem suprir integralmente as necessidades de pescados.

As diferenças entre os blocos também são expressivas. O Conselho de Cooperação do Golfo atinge suficiência apenas em carnes. A Comunidade do Caribe e a União Econômica e Monetária da África Ocidental conseguem atender plenamente às recomendações de apenas dois grupos alimentares.

Os resultados indicam que a integração regional fortalece a segurança alimentar, mas não substitui redes comerciais mais amplas. Mesmo economias fortemente integradas continuam dependentes de fornecedores localizados em outras partes do mundo para assegurar uma alimentação nutricionalmente completa.

A vulnerabilidade depende da concentração das importações

Outro aspecto destacado pelo estudo desloca o foco do simples volume das importações para a forma como elas estão distribuídas.

Importar alimentos não torna um país necessariamente vulnerável. O problema surge quando grande parte do abastecimento depende de poucos parceiros comerciais. Nesses casos, crises políticas, conflitos armados, eventos climáticos extremos ou interrupções logísticas podem comprometer rapidamente o fornecimento.

Para examinar essa questão, os pesquisadores analisaram a origem das importações realizadas pelos países com menor capacidade de produção doméstica. O padrão se repetiu em diferentes regiões: em muitos casos, um único exportador responde pela maior parte do abastecimento de determinado grupo alimentar.

O estudo utiliza o conceito de response diversity para descrever a capacidade de um sistema alimentar manter o abastecimento quando um fornecedor deixa de atender ao mercado. Quanto maior a diversidade de origens, menor tende a ser a exposição a choques externos.

Os resultados mostram que essa diversidade permanece limitada em boa parte do mundo. Diversos países que produzem menos da metade dos vegetais de que necessitam concentram mais da metade de suas importações em um único fornecedor. Situação semelhante aparece no comércio de cereais em partes da América Central e do Caribe e nas importações de leguminosas, nozes e sementes em diferentes regiões da Europa e da Ásia Central.

Na África Ocidental, por exemplo, aproximadamente 70% das importações de arroz têm uma única origem. Embora esse modelo possa funcionar em períodos de estabilidade, ele reduz significativamente a capacidade de resposta diante de acontecimentos inesperados.

A pandemia de covid-19 e, pouco depois, a interrupção temporária do Canal de Suez causada pelo encalhe do navio Ever Given demonstraram como eventos localizados podem produzir efeitos imediatos sobre o comércio global de alimentos. Para os autores, ampliar a diversidade de fornecedores é uma estratégia mais eficaz para fortalecer a segurança alimentar do que simplesmente reduzir a dependência das importações.

O que pode mudar até 2032

Além de retratar o cenário atual, os pesquisadores estimaram como a produção agrícola poderá evoluir até 2032 com base nas projeções elaboradas conjuntamente pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e pela FAO.

As estimativas indicam que praticamente todos os países dispõem de alguma margem para ampliar a produção doméstica, embora esse avanço deva ocorrer de forma desigual entre os diferentes grupos alimentares.

As perspectivas mais favoráveis concentram-se nas carnes. Entre os países que hoje apresentam déficit, a distância em relação às recomendações nutricionais tende a diminuir, em média, doze pontos percentuais. Os maiores avanços são esperados no Oriente Médio e no Norte da África, regiões que atualmente dependem fortemente das importações.

Nos laticínios, a evolução prevista é mais modesta. Mesmo ao final do período analisado, apenas um número limitado de países deverá alcançar autossuficiência, e a redução média dos déficits permanece relativamente pequena.

Os pescados apresentam um cenário ainda mais restritivo. Embora a produção mundial continue crescendo, o aumento projetado não altera de forma significativa a distribuição da autossuficiência. Segundo as estimativas, apenas dois países adicionais passariam a atender integralmente às recomendações para esse grupo alimentar.

Entre os alimentos de origem vegetal, as maiores possibilidades de expansão concentram-se nas leguminosas, nas nozes e sementes, sobretudo em partes da Europa, da Ásia Central e da África Subsaariana. Os cereais também apresentam potencial de crescimento, embora com intensidade variável entre as regiões.

Frutas e vegetais ficaram fora das projeções. A ausência de séries históricas suficientemente consistentes impediu a elaboração de estimativas confiáveis justamente para dois grupos que ocupam posição central nas recomendações de alimentação saudável. Os autores reconhecem que essa limitação reduz a capacidade de antecipar a evolução futura da autossuficiência nutricional.

Um retrato da produção atual, não do potencial agrícola

Os pesquisadores ressaltam que o estudo não procura estimar quanto cada país seria capaz de produzir caso explorasse integralmente seu potencial agrícola. A análise compara apenas a produção efetivamente disponível nas condições atuais com as necessidades de uma dieta saudável.

Essa distinção é importante. Déficits em determinados grupos alimentares não significam, necessariamente, falta de recursos naturais ou limitações técnicas. Em muitos casos, refletem decisões econômicas, condições climáticas, restrições logísticas ou opções produtivas que tornam mais vantajoso importar determinados alimentos do que produzi-los internamente.

Por isso, os resultados não representam um limite permanente da capacidade agrícola de cada país. Eles descrevem o grau de exposição dos sistemas alimentares caso ocorram interrupções relevantes no comércio internacional.

Os autores observam ainda que inovações tecnológicas poderão alterar esse cenário. Agricultura de precisão, engenharia genética, cultivo em ambientes controlados, aquicultura e agricultura celular figuram entre as alternativas capazes de ampliar a produção em regiões onde a expansão agrícola convencional encontra limitações. O artigo cita também a estratégia de Singapura, que estabeleceu a meta de produzir internamente 30% das necessidades nutricionais de sua população até 2030.

Uma segunda referência nutricional confirma o diagnóstico

Para verificar se as conclusões dependiam do modelo alimentar adotado, os pesquisadores repetiram toda a análise utilizando a dieta proposta pela Comissão EAT-Lancet, uma das principais referências internacionais em alimentação saudável.

O resultado mostrou um quadro ainda mais restritivo. Sob esse critério, dezessete países deixam de alcançar suficiência em qualquer grupo alimentar e nenhum consegue atender plenamente às recomendações de mais de cinco categorias. A principal diferença decorre da maior participação atribuída às leguminosas, às nozes e às sementes, alimentos cuja produção permanece limitada em grande parte do mundo.

Apesar dessas diferenças, a mensagem central permanece inalterada. Independentemente da referência nutricional utilizada, a produção doméstica, isoladamente, dificilmente assegura uma alimentação saudável para a maior parte das populações nacionais.

Essa convergência reforça a consistência das conclusões e reduz a possibilidade de que os resultados reflitam apenas as características de um modelo específico de dieta.

Segurança alimentar vai além da autossuficiência

O estudo não propõe que todos os países produzam internamente tudo o que consomem, nem apresenta o comércio internacional como um problema a ser superado. Sua principal contribuição está em mostrar que autossuficiência e segurança alimentar são conceitos relacionados, mas não equivalentes.

Em uma economia global profundamente integrada, importar alimentos continuará sendo a alternativa mais eficiente para muitas nações. O desafio consiste em evitar que essa dependência se concentre em poucos fornecedores ou em cadeias de abastecimento incapazes de responder a crises de grande escala.

Os acontecimentos recentes demonstraram que pandemias, conflitos armados, eventos climáticos extremos ou interrupções em rotas estratégicas podem alterar rapidamente a disponibilidade de alimentos muito além das regiões diretamente afetadas. Quanto maior a diversidade das fontes de abastecimento e mais robusta a infraestrutura de distribuição, maior tende a ser a capacidade de preservar o acesso da população a uma alimentação adequada diante dessas perturbações.

Mais do que classificar países entre autossuficientes e dependentes, a pesquisa amplia a compreensão sobre os fatores que sustentam a segurança alimentar. Produção agrícola, comércio internacional, infraestrutura, inovação tecnológica e diversificação das relações comerciais aparecem como componentes complementares de um mesmo sistema. O equilíbrio entre esses elementos, e não a busca isolada pela autossuficiência, é o que melhor prepara as sociedades para enfrentar um ambiente global cada vez mais sujeito a instabilidades climáticas, econômicas e geopolíticas.

Baixe aqui o artigo “Gap between national food production and food-based dietary guidance highlights lack of national self-sufficiency

Stehl, J., Vonderschmidt, A., Vollmer, S. et al. Gap between national food production and food-based dietary guidance highlights lack of national self-sufficiency. Nat Food 6, 571–576 (2025). https://doi.org/10.1038/s43016-025-01173-4