Fome urbana, obesidade e clima: Graziano defende novas políticas para transformar a alimentação nas cidades

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Blog do IFZ | 11/08/2026

A fome na América Latina e no Caribe é cada vez mais urbana — e, nas grandes cidades, está associada não apenas à falta de renda, mas também à dificuldade de encontrar e consumir alimentos saudáveis. Esse foi um dos principais alertas de José Graziano da Silva, diretor do Instituto Fome Zero (IFZ), durante webinário regional sobre sistemas agroalimentares urbanos promovido pela FAO, pelo Governo do Brasil e pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC).

O encontro reuniu representantes de governos, organismos internacionais, academia e sociedade civil para discutir políticas capazes de tornar os sistemas alimentares das cidades mais inclusivos, saudáveis e resilientes às mudanças climáticas. O evento também apresentou o curso virtual “Sistemas Agroalimentares Urbanos: marco estratégico e experiências exitosas na América Latina e no Caribe”, desenvolvido no âmbito da cooperação Brasil–FAO.

Ao lado da secretária nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS), Lilian Rahal, Graziano chamou a atenção para uma mudança estrutural no mapa da insegurança alimentar.

“A fome hoje na América Latina toda é urbana, cada vez mais urbana. Eu arriscaria dizer que é metropolitana, cada vez mais metropolitana”, afirmou. Para o ex-diretor-geral da FAO, o problema deixou de ser fundamentalmente a falta de produção e passou a ser, sobretudo, uma questão de acesso.

Essa realidade pode ser observada nos chamados desertos alimentares, áreas onde é difícil encontrar alimentos frescos e saudáveis, e nos pântanos alimentares, onde existe ampla oferta de comida, mas predominam produtos ultraprocessados.

Segundo Graziano, já existem instrumentos conhecidos para enfrentar os desertos alimentares, como feiras livres, mercados de produtores e pontos de venda de frutas, verduras e legumes próximos a estações de transporte público. O desafio dos pântanos alimentares é mais complexo e exige medidas sobre os próprios ambientes de consumo.

“Pouco tem sido feito e pouco a gente sabe o que fazer para vencer os pântanos”, alertou. Para Graziano, isso passa por regulação da publicidade, melhor informação ao consumidor e políticas específicas para reduzir a exposição aos ultraprocessados.

Da fome à obesidade

A preocupação com os ultraprocessados apareceu novamente quando o debate passou às ações concretas. Graziano afirmou que a região está diante de uma transformação preocupante: “nós estamos substituindo o problema da fome por um outro problema ainda maior, que é o da obesidade”.

Uma das respostas propostas é tornar os alimentos saudáveis economicamente mais acessíveis. Ele defendeu maior estímulo à produção e ao consumo de frutas, verduras e legumes, inclusive por meio de subsídios direcionados aos consumidores.

“Se for necessário subsidiar, [que seja] o subsídio direto ao consumidor de frutas, verduras e legumes. Essa é uma medida de saúde pública”, afirmou. Na sua avaliação, parte desse investimento poderia ser compensada pela redução futura dos gastos relacionados às doenças provocadas pela má alimentação.

Graziano também defendeu modernizar feiras livres e mercados de produtores, rompendo com a ideia de que supermercados representam necessariamente modernidade, enquanto os mercados tradicionais seriam estruturas ultrapassadas.

Lilian Rahal convergiu com essa visão ao defender que “não basta que o alimento saudável seja produzido, não basta que ele exista”. É necessário garantir que chegue às pessoas “com qualidade, regularidade e preço acessível”. Para a secretária, a alimentação adequada e saudável deve ser tratada como direito e incorporada ao planejamento urbano, às políticas climáticas e aos orçamentos públicos.

Antecipar os desastres

Outro eixo central da intervenção de Graziano foi a emergência climática. Para ele, os sistemas alimentares urbanos precisam deixar de atuar apenas depois dos desastres e incorporar mecanismos de proteção social antecipatória.

“Nós precisamos entregar os benefícios que hoje temos, por exemplo, programa tipo Bolsa Família, antes que o desastre se imponha, antes que ele aconteça”, defendeu.

Graziano citou a República Dominicana como referência regional, destacando experiências em que alertas prévios são combinados com recursos que permitem às famílias deixar áreas de risco antes da chegada de eventos extremos. A abordagem poderia evitar situações como as observadas durante as enchentes no Rio Grande do Sul, quando milhares de pessoas tiveram dificuldade para sair das áreas atingidas e permaneceram por períodos prolongados em abrigos.

Para ele, estoques públicos continuam importantes para situações de emergência, mas já não são suficientes. É preciso integrar sistemas de alerta climático, proteção social, saúde, assistência social e segurança alimentar.

Menos tempo de trabalho, mais tempo para cozinhar

Graziano trouxe ainda uma dimensão menos convencional ao debate sobre alimentação saudável: o tempo. A expansão dos ultraprocessados, argumentou, não pode ser explicada apenas pela publicidade ou pelo preço. Mudanças no mercado de trabalho e nas rotinas familiares reduziram drasticamente o tempo disponível para preparar refeições.

“A preferência por produtos prontos […] tem uma razão de ser objetiva: é a redução do tempo livre”, observou.

Por isso, defendeu que a redução da jornada de trabalho também seja considerada uma política relacionada à alimentação: “Uma das medidas mais importantes para melhorar a alimentação saudável é diminuir a jornada de trabalho”.

Para Graziano, trata-se de uma “pauta civilizatória”: devolver às famílias tempo para comprar, preparar e compartilhar alimentos mais saudáveis.

O debate reforçou uma conclusão comum aos participantes: a alimentação precisa deixar de ser tratada como uma política isolada. Saúde, assistência social, planejamento urbano, agricultura, abastecimento e clima precisam atuar de maneira integrada.

Como resumiu Graziano, “temos que ter políticas para sistemas”. Em cidades marcadas simultaneamente pela fome, obesidade, desigualdade e eventos climáticos extremos, transformar os sistemas alimentares significa justamente superar os antigos “quadradinhos” das políticas setoriais.

A gravação do evento virtual pode ser conferida aqui: