Estudo projeta que os ultraprocessados continuarão como o grupo de menor preço até 2026, enquanto os preços dos alimentos seguirem crescendo mais que a renda das famílias
Blog do IFZ | 01/09/2026
Entre 2018 e 2024, os ultraprocessados ficaram 16% mais baratos no Brasil, enquanto os preços dos alimentos não processados ou minimamente processados e dos ingredientes culinários passaram por uma trajetória mais elevada, especialmente durante a pandemia. As projeções feitas pelos pesquisadores indicam que, até 2026, os ultraprocessados poderão continuar como o grupo de menor preço.
Esse é o principal resultado de um estudo publicado em 2026 na revista Applied Economic Perspectives and Policy, realizado por Thaís Cristina Marquezine Caldeira, Bruna Barbosa Furtado, Ramon Torres e Rafael Moreira Claro (pesquisadores vinculados à Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG), juntamente com Ana Maria Thomaz Maya Martins e Laís Amaral Mais (pesquisadoras do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor – Idec).
A questão ultrapassa a variação de preços no supermercado. Quando alimentos que compõem a base de uma alimentação adequada se tornam relativamente mais caros em relação a produtos ultraprocessados, o espaço econômico disponível para escolhas alimentares diversificadas pode se estreitar, sobretudo entre famílias com menor renda. O estudo não acompanha diretamente as decisões de compra dos domicílios nem calcula o custo de uma dieta completa. Seu objetivo é outro: identificar como os preços médios dos diferentes grupos de alimentos evoluíram e quais trajetórias podem ser esperadas nos próximos anos.
O que mudou entre 2018 e 2024
Para analisar essa trajetória, os pesquisadores combinaram informações da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017/2018, do Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor (SNIPC) e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), todas produzidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A base final reuniu 132 alimentos e bebidas consumidos nos domicílios brasileiros, classificados segundo a classificação NOVA.
Os pesquisadores construíram séries mensais de preços, expressos em reais por quilograma, para três grandes grupos: alimentos não processados ou minimamente processados e ingredientes culinários (UMPF+CI), alimentos processados e produtos ultraprocessados (UPFP). Os preços foram ponderados de acordo com a estrutura de pesos utilizada no IPCA, de modo a representar a importância relativa dos diferentes itens no consumo.
Em 2018, o preço médio dos ultraprocessados era de aproximadamente R$ 22,20 por quilograma. Em 2024, havia recuado para R$ 18,80, uma redução de cerca de 16%. No mesmo período, o preço médio dos alimentos processados caiu de aproximadamente R$ 26,10 para R$ 22,60 por quilograma.
O comportamento do grupo formado por alimentos não processados ou minimamente processados e ingredientes culinários foi diferente. O preço médio, de cerca de R$ 18,00 por quilograma em 2018, subiu durante os primeiros anos da pandemia, chegando a aproximadamente R$ 21,30 em 2021, antes de recuar para R$ 18,60 em 2024. Não se trata, portanto, de uma alta contínua ao longo de todo o período. O aspecto mais relevante está na mudança da relação entre os grupos.
A partir do fim de 2019, o índice acumulado de preços dos alimentos não processados ou minimamente processados e ingredientes culinários passou a superar o dos ultraprocessados. Em 2024, a diferença acumulada entre os grupos havia chegado a aproximadamente 30 pontos percentuais.
Essa convergência ajuda a compreender o problema. A distância que existia entre os preços médios dos grupos no início da série diminuiu. Ao mesmo tempo, os preços dos alimentos cresceram mais que a renda nominal domiciliar entre 2018 e 2024, especialmente no caso dos alimentos não processados ou minimamente processados e ingredientes culinários. O resultado sugere uma possível redução do poder de compra destinado à alimentação, embora o estudo não estime diretamente seus efeitos sobre o consumo de cada família.
Uma trajetória que antecede a pandemia
A mudança observada no período recente não surgiu do nada. Estudos anteriores já haviam identificado, no Brasil, uma trajetória de aumento relativo dos preços de alimentos não processados ou minimamente processados e redução dos preços relativos dos ultraprocessados.
Entre 1995 e 2017, por exemplo, os alimentos processados apresentavam o maior preço médio, seguidos pelos ultraprocessados, enquanto os alimentos não processados ou minimamente processados e os ingredientes culinários formavam o grupo de menor preço. Entre 2018 e 2022, entretanto, houve um movimento mais acentuado: os preços dos alimentos não processados ou minimamente processados e dos ingredientes culinários subiram de R$ 15,30 para R$ 18,10 por quilograma, enquanto os processados passaram de R$ 16,60 para R$ 15,50 e os ultraprocessados, de R$ 22,10 para R$ 19,40.
A pandemia contribuiu para alterar as condições de produção, distribuição e comercialização de alimentos. Interrupções nas cadeias de abastecimento, aumento dos custos de transporte e redução da renda das famílias atingiram os sistemas alimentares em diferentes países. No Brasil, esse contexto ocorreu em meio à deterioração das condições de segurança alimentar. A proporção de domicílios com moradores passando fome, segundo dados citados pelos autores, aumentou de 9,0% em 2020 para 15,5% em 2022.
Os efeitos não se encerraram com a pandemia. Eventos climáticos extremos continuam afetando a produção e a circulação de alimentos. Em 2024, por exemplo, as enchentes no Rio Grande do Sul atingiram 95% dos municípios do estado, comprometendo atividades produtivas e a infraestrutura de transporte e distribuição. Os estabelecimentos que comercializavam alimentos não processados ou minimamente processados estiveram entre os mais afetados, segundo estudo citado no artigo.
O câmbio e os preços internacionais de commodities também fazem parte desse contexto. A valorização do dólar pode aumentar o custo de produtos importados, enquanto aumentos nos preços internacionais de alimentos e energia podem pressionar os preços domésticos. O próprio desenho do estudo, entretanto, não permite determinar quanto cada um desses fatores contribuiu individualmente para a trajetória observada.
O que pode acontecer até 2026
Para estimar a evolução futura dos preços, os pesquisadores utilizaram modelos de séries temporais ARIMA e SARIMA. Foram testadas diferentes especificações e comparadas medidas de erro e critérios estatísticos de seleção. A especificação escolhida para os três grupos foi o modelo SARIMA(0,1,1)(0,1,1)[12], que apresentou desempenho superior ou próximo do superior nas principais métricas avaliadas.
Os resultados projetados apontam para a permanência de uma configuração particularmente relevante: até dezembro de 2026, os ultraprocessados deverão continuar como o grupo de menor preço médio. Os alimentos não processados ou minimamente processados e os ingredientes culinários deverão permanecer acima deles, enquanto os alimentos processados devem continuar como o grupo mais caro, ainda que em nível ligeiramente inferior ao observado em 2024.
A projeção não deve ser interpretada como uma previsão de preços individuais de alimentos nem como uma certeza sobre o que acontecerá no mercado. Trata-se de uma extrapolação estatística das séries observadas até 2024. Os próprios autores ressaltam que modelos univariados não incorporam diretamente fatores como inflação, políticas públicas, eventos climáticos ou mudanças na oferta.
Há ainda uma limitação específica. Os resíduos da série de alimentos não processados ou minimamente processados e ingredientes culinários apresentaram desvio significativo da distribuição normal. Por isso, os intervalos de confiança de 95% associados a essa série devem ser interpretados com cautela, pois podem subestimar a verdadeira incerteza das projeções. As previsões pontuais, segundo os autores, permanecem válidas.
Preço por quilo não é o mesmo que custo de uma alimentação adequada
Uma distinção é fundamental para interpretar os resultados: o preço médio por quilograma não corresponde ao custo de uma dieta.
Alimentos diferentes possuem densidade energética, composição nutricional e rendimento culinário distintos. Um quilograma de determinado produto pode render uma quantidade muito diferente de refeições em comparação com outro. O preço também não informa, por si só, quanto uma família gasta para compor sua alimentação ao longo de um mês.
Tampouco a análise captura diferenças de disponibilidade entre regiões, distância até os pontos de venda, infraestrutura, desperdício, tempo disponível para cozinhar ou outras características do ambiente alimentar. Por isso, os resultados não permitem concluir que uma família precise necessariamente gastar mais para seguir uma alimentação adequada, nem medem diretamente o impacto dos preços sobre as decisões individuais de consumo.
O que o estudo mostra é algo mais específico e, ao mesmo tempo, relevante: a estrutura relativa de preços dos diferentes grupos alimentares se tornou menos favorável aos alimentos não processados ou minimamente processados e aos ingredientes culinários, enquanto os ultraprocessados passaram a ocupar a posição de grupo mais barato nas projeções para 2026.
Essa diferença importa porque o preço é uma das dimensões que condicionam o acesso aos alimentos. Estudos citados pelos pesquisadores já apontaram que dietas consideradas saudáveis e sustentáveis podem custar mais que a alimentação efetivamente consumida pela população brasileira.
Preço também é política alimentar
Se os preços resultassem apenas da relação entre oferta e demanda, bastaria acompanhar o comportamento do mercado. Mas os sistemas alimentares são atravessados por decisões públicas e privadas que ajudam a definir o que é produzido, transportado, tributado, comercializado e, finalmente, disponibilizado às famílias.
A estrutura de apoio à produção agrícola é uma dessas dimensões. Em 2022, soja e milho receberam, conjuntamente, 72% do crédito destinado ao financiamento das culturas agrícolas no país, enquanto o feijão recebeu menos de 1%. O dado é apresentado pelos autores para discutir como políticas de apoio podem influenciar a composição da produção e a diversidade da oferta, e não como evidência de que a distribuição do crédito tenha causado diretamente a diferença de preços observada.
A tributação é outro componente dessa equação. Os pesquisadores citam uma carga tributária média de 24,4% sobre alimentos processados no Brasil, diante de 7% nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O tema ganhou relevância no debate sobre a reforma tributária brasileira e sobre a possibilidade de utilizar instrumentos fiscais para alterar os incentivos econômicos relacionados aos alimentos.
Na avaliação dos autores, políticas públicas podem atuar simultaneamente em diferentes pontos. Subsídios para frutas, hortaliças e outros alimentos frescos podem reduzir barreiras econômicas à alimentação adequada, enquanto instrumentos tributários dirigidos a produtos ultraprocessados podem considerar as externalidades associadas aos seus impactos sobre a saúde. O desenho dessas políticas, porém, precisa levar em conta seus efeitos distributivos.
No Brasil, o debate também se relaciona à composição da cesta básica. O Decreto nº 11.936, de 2024, estabeleceu uma nova composição da cesta básica alinhada à Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional e ao Guia Alimentar para a População Brasileira. Segundo o artigo, a reforma tributária em curso prevê a desoneração de alimentos presentes nessa lista, medida que poderá contribuir para reduzir seus custos.
A lógica vale também para políticas de abastecimento e proteção social. O fortalecimento da agricultura familiar e de sistemas alimentares locais, assim como a ampliação de estruturas como bancos de alimentos, cozinhas comunitárias, restaurantes populares, Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Plano Nacional de Abastecimento Alimentar (PLANAAB), aparece entre as estratégias discutidas pelos autores para ampliar o acesso a alimentos adequados e fortalecer redes locais de abastecimento.
Preço não é a única força que molda a alimentação
Mesmo quando o preço é favorável, a escolha alimentar não acontece em um vazio. Publicidade, disponibilidade, conveniência, renda, tempo, infraestrutura e políticas públicas participam da formação do ambiente alimentar.
Por isso, os autores defendem também medidas de regulação da publicidade de produtos ultraprocessados, especialmente aquela dirigida a crianças e adolescentes. O artigo destaca a exposição persistente desse público a estratégias de marketing em televisão e plataformas digitais.
As escolas ocupam posição estratégica nesse debate. Segundo evidências citadas pelos autores, os alimentos consumidos no ambiente escolar podem representar entre 30% e 50% da ingestão diária das crianças. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), portanto, pode funcionar como instrumento de promoção da alimentação adequada quando implementado de acordo com suas diretrizes.
Essas medidas ajudam a recolocar a discussão em seu devido lugar. O preço dos alimentos não é apenas uma variável econômica a ser observada depois que as decisões de produção e abastecimento foram tomadas. Ele também resulta, em alguma medida, das condições em que essas decisões são tomadas. Definir prioridades de crédito, organizar sistemas de abastecimento, proteger a produção de alimentos destinados ao consumo interno, estabelecer regras tributárias e garantir alimentação escolar são, portanto, maneiras de intervir nas condições econômicas que cercam o acesso à alimentação.
O que o estudo permite concluir
O estudo oferece uma fotografia detalhada da evolução recente dos preços dos alimentos no Brasil e acrescenta uma dimensão importante ao debate sobre segurança alimentar: não basta observar se os preços aumentam ou diminuem em termos absolutos. Também importa saber como eles se movimentam uns em relação aos outros e como essa trajetória se compara à evolução da renda das famílias.
Entre 2018 e 2024, os ultraprocessados ficaram mais baratos, enquanto os preços dos alimentos não processados ou minimamente processados e dos ingredientes culinários passaram por uma trajetória mais elevada, sobretudo durante a pandemia. A diferença entre os grupos diminuiu, e a renda nominal das famílias cresceu menos que os preços dos alimentos.
A projeção até 2026 acrescenta uma preocupação: se a trajetória estimada se confirmar, os ultraprocessados continuarão ocupando a posição de grupo mais barato. Isso não significa que o preço determine sozinho o que as pessoas comem. Significa que uma das condições econômicas que influenciam o ambiente alimentar pode continuar favorecendo produtos ultraprocessados em relação aos alimentos não processados ou minimamente processados e aos ingredientes culinários.
Essa distinção é essencial. O estudo não demonstra que os preços sejam a causa isolada do aumento ou da redução do consumo de determinado alimento. Tampouco permite estimar o efeito individual de inflação, câmbio, políticas públicas ou eventos climáticos. Seu resultado é mais delimitado: mostra uma mudança persistente na estrutura relativa dos preços e oferece uma projeção de sua possível continuidade.
É justamente por isso que a discussão sobre preço não termina no supermercado. Se o acesso a uma alimentação adequada depende também das condições econômicas que organizam produção, abastecimento, tributação, renda e disponibilidade, então preço também é política alimentar.
A questão, no fim, não é apenas quanto custa um alimento. É quais escolhas o sistema alimentar torna economicamente mais acessíveis — e quais condições econômicas, sociais e políticas determinam o espaço real que cada família possui para construir uma alimentação adequada, diversificada e sustentável.
Sobre o estudo
Caldeira, T. C. M., B. B. Furtado, A. M. T. M. Martins, L. A. Mais, R. Torres, and R. M. Claro. 2026. “ Food Price Trends and Projections in Brazil (2018–2026): Implications for Access to Adequate and Healthy Food.” Applied Economic Perspectives and Policy 1–14. https://doi.org/10.1002/aepp.70114.
