Ultraprocessados caminham para se tornar mais baratos que alimentos in natura

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Estudo mostra que a diferença de preços praticamente desapareceu entre 2018 e 2024 e projeta que os ultraprocessados podem chegar ao fim de 2026 como o grupo de menor preço médio

Blog do IFZ | 01/09/2026

O preço dos alimentos mudou de maneira importante no Brasil nos últimos anos. Entre 2018 e 2024, os produtos ultraprocessados ficaram relativamente mais baratos, enquanto os alimentos in natura ou minimamente processados e os ingredientes culinários passaram por uma trajetória mais instável. Nesse período, a renda das famílias também cresceu em ritmo inferior ao dos preços dos alimentos. A diferença entre os dois grupos, que ainda era significativa em 2018, praticamente desapareceu em 2024.

Essa é uma das principais conclusões de um estudo publicado na revista científica Applied Economic Perspectives and Policy. Intitulado Food Price Trends and Projections in Brazil (2018–2026): Implications for Access to Adequate and Healthy Food, o trabalho analisa a evolução mensal dos preços dos alimentos no Brasil entre janeiro de 2018 e dezembro de 2024 e projeta seu comportamento até o fim de 2026. A pesquisa foi realizada por Thaís Cristina Marquezine Caldeira, Bruna Barbosa Furtado, Ramon Torres e Rafael Moreira Claro, pesquisadores vinculados à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com Ana Maria Thomaz Maya Martins e Laís Amaral Mais, pesquisadoras do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

Os pesquisadores utilizaram dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares, do Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor e da PNAD Contínua, todos produzidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foram considerados 132 itens de alimentos e bebidas, com os preços padronizados em reais por quilo, o que permitiu comparar a evolução dos diferentes grupos.

A análise desta matéria parte dos resultados da pesquisa e os complementa com os boletins de preços do Instituto Fome Zero (IFZ), assinados por José Giacomo Baccarin e Gustavo Jun, elaborados a partir dos dados mais recentes do IBGE. Como a série histórica do estudo termina em dezembro de 2024, os boletins permitem acompanhar o comportamento dos preços nos meses seguintes e verificar como a trajetória observada até aqui se compara às projeções feitas para 2025 e 2026.

A distância entre os preços diminuiu

Os números ajudam a dimensionar a mudança. Em 2018, o preço médio dos alimentos ultraprocessados era de R$ 22,20 por quilo. Em 2024, caiu para R$ 18,80, uma redução de aproximadamente 16%. Entre os alimentos processados, o preço médio passou de R$ 26,10 para R$ 22,60 por quilo.

Os alimentos in natura ou minimamente processados e os ingredientes culinários seguiram trajetória diferente. O preço médio, que era de aproximadamente R$ 18,00 por quilo em 2018, chegou a R$ 21,30 em 2021 e recuou posteriormente, alcançando R$ 18,60 em 2024.

Assim, a diferença que existia entre os dois grupos praticamente desapareceu. Em 2018, um quilo de ultraprocessados custava, em média, R$ 3,30 a mais que um quilo de alimentos in natura ou minimamente processados e ingredientes culinários. Em 2024, os valores estavam muito próximos, R$ 18,80 e R$ 18,60.

A mudança ocorreu de forma gradual. Durante a pandemia, entre 2020 e 2022, houve forte pressão sobre os preços dos alimentos, especialmente dos menos processados. A partir de 2023, porém, esse movimento se inverteu: os alimentos in natura ou minimamente processados passaram a apresentar aumentos de preços inferiores aos dos ultraprocessados. Em 2024, houve uma exceção, decorrente do forte aumento dos preços das carnes bovina e suína.

Essa mudança recente dá continuidade a uma tendência identificada por Baccarin e Jun. Entre 1995 e 2007, esses autores apontam uma queda no preço real dos alimentos no Brasil, aos moldes do estudo da UFMG. Contudo, a partir de 2007 (e não apenas de 2018) os alimentos no Brasil começaram a encarecer, com aqueles in natura e minimamente processados aumentando mais de preços que os alimentos com maior processamento. A forte inflação dos alimentos observada durante a pandemia, entre 2020 e 2022, acentuou esse movimento, sobretudo entre os menos processados. A partir de 2023, contudo, e com a exceção de 2024, esses alimentos passaram a registrar aumentos de preços inferiores aos dos ultraprocessados. Para Baccarin e Jun, a presença de numerosos oligopólios no setor ajuda a explicar a relativa estabilidade dos preços dos alimentos processados e ultraprocessados em períodos de perda de valor real do conjunto dos produtos alimentícios.

A pandemia acelerou a mudança

A trajetória dos preços foi particularmente marcada pelo período da pandemia de Covid-19. Antes da pandemia, os alimentos processados e ultraprocessados apresentavam preços superiores aos do grupo formado pelos alimentos in natura ou minimamente processados e ingredientes culinários. A partir de 2020, esse último grupo sofreu elevação mais acentuada, enquanto os ultraprocessados passaram a apresentar queda de preços.

Entre 2020 e meados de 2023, o preço dos ultraprocessados diminuiu e depois se estabilizou próximo de R$ 19 por quilo. Os processados permaneceram como o grupo mais caro. Em 2023 e 2024, a diferença entre os preços dos alimentos in natura ou minimamente processados e dos ultraprocessados tornou-se muito pequena.

Os autores, porém, não atribuem essa transformação à pandemia isoladamente. Inflação, câmbio, combustíveis, custos dos insumos agrícolas, alterações na produção, eventos climáticos e perturbações nas cadeias de abastecimento podem atuar simultaneamente sobre os preços.

Quando a renda cresce menos que os alimentos

A pesquisa utilizou dados da PNAD Contínua para acompanhar a renda domiciliar per capita entre 2018 e 2024. O resultado foi claro. Os preços dos alimentos cresceram mais que a renda nominal, com diferença especialmente importante no grupo formado por alimentos in natura ou minimamente processados e ingredientes culinários.

Essa comparação ajuda a dimensionar a acessibilidade econômica dos alimentos, mas não permite, por si só, calcular quanto uma dieta saudável custa para uma família. O estudo compara os preços médios dos grupos, padronizados por unidade de peso, enquanto o custo de uma dieta depende também das quantidades consumidas, da composição das refeições e dos alimentos escolhidos.

Ainda assim, quando alimentos que ocupam lugar importante em uma dieta saudável se tornam relativamente mais caros em relação à renda, famílias com orçamento restrito passam a enfrentar maior dificuldade para incorporá-los regularmente à alimentação.

Por isso, os pesquisadores associam a evolução dos preços ao aumento das barreiras econômicas para a adoção de dietas adequadas e saudáveis, sobretudo entre os grupos de menor renda.

O que a projeção indica para 2026

Para estimar a trajetória dos preços até dezembro de 2026, os pesquisadores utilizaram modelos SARIMA, empregados para analisar séries temporais que apresentam tendências e padrões sazonais.

A projeção aponta para a continuidade da aproximação observada nos anos anteriores. Os preços dos alimentos in natura ou minimamente processados e dos ingredientes culinários tendem a permanecer relativamente estáveis, enquanto os preços dos processados e dos ultraprocessados apresentam tendência de leve queda.

O resultado mais significativo está no fim dessa trajetória projetada. Segundo o modelo, os ultraprocessados deverão chegar a 2026 como o grupo de menor preço médio, abaixo dos alimentos in natura ou minimamente processados.

Essa conclusão exige uma distinção importante. A igualdade aproximada dos preços em 2024 é um dado observado. A possibilidade de os ultraprocessados se tornarem mais baratos em 2026 é uma projeção estatística.

O modelo também não incorpora diretamente acontecimentos futuros capazes de alterar os preços, como mudanças tributárias, eventos climáticos extremos ou conflitos geopolíticos. Além disso, os autores alertam que os intervalos de confiança da série de alimentos in natura devem ser interpretados com cautela, porque os resíduos dessa série não apresentaram distribuição normal. As previsões pontuais foram consideradas válidas e o modelo foi mantido.

O que os dados posteriores mostram

Como extensão do estudo, os boletins de Baccarin e Jun, publicados pelo Instituto Fome Zero, acrescentam uma dimensão importante à análise. Enquanto o estudo científico oferece uma série histórica encerrada em dezembro de 2024 e uma projeção até o fim de 2026, os trabalhos dos dois pesquisadores permitem acompanhar o comportamento dos preços à medida que os dados do IBGE são divulgados.

Em 2025, o IPCA geral fechou o ano em 4,26%, enquanto a alimentação no domicílio acumulou alta de 1,43%. Em 2024, os resultados haviam sido de 4,83% para o índice geral e 8,23% para a alimentação no domicílio. A diferença mostra como a intensidade da inflação dos alimentos pode mudar em um intervalo relativamente curto.

Em 2026, a trajetória voltou a apresentar oscilações. Os primeiros boletins do IFZ registraram um início de ano relativamente favorável, seguido por meses de maior pressão sobre os preços de determinados alimentos. Carnes, laticínios e feijão estiveram entre os produtos que contribuíram para a alta observada no início do ano.

A partir de junho, porém, o movimento mudou. O índice de Alimentação e Bebidas caiu 0,24% em junho e 0,67% em julho. No mesmo período, o IPCA geral avançou 0,16% em junho e 0,07% em julho. Em julho, a queda da alimentação contribuiu diretamente para conter a inflação ao consumidor.

Os números mostram por que uma projeção de médio prazo precisa ser acompanhada pelos dados correntes. O comportamento mensal dos alimentos pode mudar rapidamente em função da oferta, da sazonalidade, do clima e das condições econômicas.

Clima, produção e abastecimento

Os eventos climáticos estão entre os fatores capazes de produzir essas oscilações. Secas, enchentes e temperaturas extremas podem afetar simultaneamente produção, transporte, armazenamento e abastecimento. Produtos frescos são particularmente sensíveis a alterações na oferta.

O estudo cita as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 como exemplo dessa vulnerabilidade. O desastre atingiu 95% dos municípios do estado e afetou diferentes atividades econômicas e cadeias de abastecimento.

O câmbio também pode interferir nos preços ao alterar o valor, em reais, de commodities e insumos negociados internacionalmente. Esses fatores ajudam a explicar por que produtos específicos podem registrar grandes altas ou quedas em períodos curtos.

Os boletins do IFZ registraram esse comportamento em 2026. No primeiro semestre, alguns produtos apresentaram variações muito acentuadas. O feijão, por exemplo, teve alta expressiva, enquanto hortaliças e outros produtos agrícolas passaram por movimentos opostos à medida que as condições de produção mudaram. Em julho, o próprio IFZ registrou queda de 1,14% na Alimentação no Domicílio.

Essas oscilações mensais não anulam a tendência identificada pelo estudo. Elas pertencem a escalas diferentes de observação. A série de sete anos permite identificar movimentos mais persistentes, enquanto o acompanhamento mensal mostra como acontecimentos econômicos, climáticos e produtivos interferem sobre essa trajetória.

Tributação e ambiente alimentar

A mudança na relação de preços também amplia a importância do debate tributário. O estudo registra uma carga tributária média estimada de 24,4% sobre alimentos processados no Brasil, diante de aproximadamente 7% na média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Os pesquisadores também chamam atenção para o caráter regressivo da tributação sobre o consumo.

A Reforma Tributária sobre o consumo acrescentou novas variáveis a esse cenário. A Emenda Constitucional nº 132, de 2023, estabeleceu as bases do novo sistema, posteriormente regulamentado pela Lei Complementar nº 214, de 2025. A legislação criou o IBS e a CBS e estabeleceu a Cesta Básica Nacional de Alimentos, com alíquota zero para os produtos definidos em seu Anexo I.

Também foi criado o Imposto Seletivo, destinado a determinados bens e serviços considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente. As bebidas açucaradas estão entre os produtos alcançados, enquanto a maior parte dos alimentos ultraprocessados não foi incluída nesse mecanismo.

Ainda é cedo para avaliar os efeitos da reforma sobre a relação de preços examinada pelo estudo. A série histórica termina em dezembro de 2024, e a implementação do novo sistema tributário ocorre de maneira gradual. Além disso, uma mudança na tributação não necessariamente chega ao consumidor na mesma proporção, pois o repasse depende das condições de mercado e das decisões tomadas ao longo das cadeias de produção e comercialização.

O preço também define possibilidades

Os preços participam das condições materiais que permitem às famílias organizar sua alimentação. Mas a comparação entre preços médios por quilo não deve ser confundida com o custo efetivo de uma dieta. Um quilo de alimentos de um determinado grupo pode custar mais ou menos que um quilo de outro grupo, sem que essa diferença determine, isoladamente, quanto uma família precisará gastar para compor suas refeições.

O dado mais relevante do estudo é a mudança nos preços relativos. Quando alimentos in natura ou minimamente processados ficam relativamente mais caros e os ultraprocessados permanecem em uma faixa de preço semelhante ou inferior, diminui a diferença econômica entre essas opções. Em um contexto de renda limitada, essa aproximação pode alterar as condições de acesso a diferentes padrões de alimentação.

É nesse ponto que a pesquisa adquire dimensão de política pública. Os autores defendem medidas destinadas a ampliar o acesso a alimentos adequados, incluindo apoio à produção e ao abastecimento, fortalecimento de programas públicos de alimentação e políticas tributárias capazes de considerar os efeitos dos ultraprocessados sobre a saúde. O estudo também destaca a importância do Programa Nacional de Alimentação Escolar e da proteção de crianças e adolescentes diante da publicidade de produtos não saudáveis.

O preço, contudo, é apenas uma das condições que formam o ambiente alimentar. Renda, disponibilidade, abastecimento, publicidade e políticas públicas também influenciam as possibilidades concretas de escolha.

Uma tendência que merece acompanhamento

A pesquisa estabelece uma referência importante. Entre 2018 e 2024, os ultraprocessados passaram por redução do preço médio, enquanto os alimentos in natura ou minimamente processados e os ingredientes culinários tiveram uma trajetória mais instável. Em 2024, os dois grupos chegaram a valores praticamente iguais. Para 2026, o modelo projeta uma inversão, com os ultraprocessados apresentando o menor preço médio.

Os boletins de José Giacomo Baccarin e Gustavo Jun acrescentam ao quadro aquilo que uma projeção não consegue oferecer. Eles mostram o percurso enquanto ele acontece, com suas altas, quedas e mudanças de direção. Os dados de 2026 já registraram períodos bastante distintos, inclusive uma redução importante dos preços de Alimentação e Bebidas em junho e julho.

Se os ultraprocessados chegarem ao fim de 2026 como a opção de menor preço entre os grandes grupos analisados pela pesquisa, será importante observar como essa diferença de preços relativos evoluirá diante da renda das famílias e de outros componentes do ambiente alimentar. O preço por quilo não determina sozinho o custo de uma dieta, mas a relação entre os preços dos diferentes grupos pode influenciar as condições econômicas em que as escolhas alimentares são feitas, especialmente entre as famílias de menor renda.

A combinação entre a série histórica, a projeção estatística e o acompanhamento dos dados correntes permitirá avaliar se a aproximação dos preços observada nos últimos anos corresponde a uma mudança passageira ou a uma transformação mais duradoura do mercado de alimentos no Brasil.

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