Blog do IFZ | 09/09/2026
Os Estados Unidos atravessam uma importante mudança na política nutricional, marcada pela valorização dos alimentos minimamente processados, pela revisão de recomendações alimentares tradicionais e pela crescente atenção aos alimentos ultraprocessados. A mudança, porém, envolve questões que vão muito além da composição dos pratos ou das escolhas individuais. Ao definir quais alimentos devem ser considerados prejudiciais e quais evidências científicas devem orientar essa classificação, o governo também estabelece critérios capazes de influenciar programas de alimentação, regulamentações e interesses econômicos em diferentes segmentos do sistema alimentar. É nesse ponto que uma questão aparentemente técnica ganha dimensão de política pública: como definir o que é um alimento ultraprocessado sem transformar uma categoria ampla em um indicador simplificado de risco à saúde?
Uma pirâmide nova, uma promessa antiga
Em 8 de janeiro, o governo do presidente Trump apresentou, por meio do secretário Robert F. Kennedy Jr., à frente do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, e da secretária Brooke Rollins, no Departamento de Agricultura, as diretrizes nutricionais para 2025–2030. Os formuladores descreveram a iniciativa como o mais significativo reset da política alimentar federal em décadas. Na prática, a nova orientação altera substancialmente a hierarquia alimentar que predominou no país nas últimas décadas. Proteínas animais e gorduras naturais ganham destaque, enquanto grãos e carboidratos refinados passam a ocupar uma posição de menor prioridade.
A justificativa técnica parte da contestação da chamada hipótese dieta-coração, segundo a qual o consumo de gordura saturada estaria associado ao aumento do risco cardiovascular. O USDA sustenta que essa relação não teria sido suficientemente comprovada em ensaios clínicos de larga escala. A nova abordagem também atribui maior importância ao controle glicêmico e à saciedade, em lugar da ênfase tradicional na contagem de calorias. O documento estabelece ainda um limite de dez gramas de açúcar adicionado por refeição e recomenda evitar açúcar adicionado na alimentação infantil.
Alguns desses pontos receberam apoio de entidades de saúde. A American Heart Association, por exemplo, reconheceu como positiva a restrição aos açúcares adicionados, embora tenha manifestado preocupação com o incentivo simultâneo ao consumo de gorduras saturadas. Pesquisadores da Harvard T.H. Chan School of Public Health também questionaram as novas metas de proteína, situadas entre 1,2 e 1,6 grama por quilo de peso corporal, consideradas elevadas em relação às necessidades de grande parte da população. A análise chamou atenção ainda para os impactos ambientais da produção de alimentos de origem animal e para a importância das fibras presentes nos alimentos vegetais.
Comida de verdade não é sinônimo de menos processamento
O movimento Make America Healthy Again, conhecido como MAHA, colocou os alimentos ultraprocessados no centro de sua crítica ao sistema alimentar estadunidense. Mas transformar essa preocupação em política pública exige resolver uma questão que permanece aberta. Afinal, quais alimentos devem ser classificados como ultraprocessados e, principalmente, como essa classificação deve ser utilizada?
A distinção é importante porque MAHA, como movimento político e cultural, é mais amplo do que a política nutricional específica apresentada por Kennedy e Rollins. A agenda do movimento reúne preocupações com aditivos sintéticos, corantes artificiais e diferentes características da produção industrial de alimentos. A pirâmide de janeiro, por sua vez, estabelece recomendações nutricionais concretas, com maior ênfase em carne vermelha, ovos e laticínios integrais e menor espaço para determinados óleos vegetais e carboidratos refinados.
Um dos riscos está em transformar uma categoria ampla de processamento em um indicador único de risco nutricional. A pesquisa da Universidade Georgetown, baseada em dados do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES)), ajuda a mostrar por quê. Doces, por exemplo, respondem por menos de 1,8% das calorias consumidas pelos estadunidenses e por apenas 6,4% do açúcar adicionado, enquanto bebidas açucaradas e produtos de confeitaria embalados apresentam participação muito maior nesses componentes da dieta. A frequência de compra também varia entre os grupos. O segmento de consumidores mais atentos à saúde, segundo a pesquisa, comprava doces com frequência superior à observada na população em geral.
Isso não significa que o processamento seja irrelevante. Estudos associam dietas com elevada participação de alimentos classificados como ultraprocessados a obesidade, doenças cardiovasculares e outros desfechos adversos. Persistem, porém, questões importantes sobre os mecanismos envolvidos e sobre a contribuição específica de diferentes categorias de alimentos. Uma classificação pode ser útil para organizar o debate, mas não substitui a análise de quanto um alimento é consumido, com que frequência e qual papel ocupa na dieta.
Essa diferença também aparece na relação entre informação nutricional e comportamento. Uma pesquisa de segmentação de consumidores realizada pelo Natural Marketing Institute para a Portion Balance Coalition, da Universidade Georgetown, constatou que as informações nutricionais influenciavam as compras de 71% do grupo considerado mais saudável, contra apenas 23% do segmento menos ativo em relação à saúde. Este último grupo apresentava, ao mesmo tempo, taxas substancialmente maiores de sobrepeso e obesidade. O dado sugere que uma política baseada apenas em informação ou classificação pode alcançar com maior intensidade justamente aqueles que já estão mais atentos às próprias escolhas alimentares.
A lição chilena e os limites da intervenção
O Chile oferece um dos exemplos mais relevantes para avaliar o que acontece depois que uma política nutricional deixa o papel. A partir de 2014, o país alterou a tributação sobre bebidas açucaradas e, em 2016, implementou a Lei de Rotulagem e Publicidade de Alimentos. Produtos que ultrapassavam determinados níveis de calorias, açúcar, sódio ou gordura saturada passaram a receber advertências frontais em formato de placas de pare. Em 2018, a legislação foi ampliada com a proibição da publicidade televisiva, entre 6h e 22h, de produtos que apresentassem essas advertências.
As medidas alteraram o comportamento de compra. Uma pesquisa da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill calculou reduções líquidas de 20,2% nas compras de açúcar, 13,8% nas de sódio, 9,6% nas de gordura saturada e 8,3% nas calorias provenientes dos alimentos e bebidas afetados. São resultados relevantes. Mas eles não permitem concluir, isoladamente, que a saúde da população tenha melhorado na mesma proporção.
Dados da Organização Pan-Americana da Saúde mostram que o sobrepeso e a obesidade entre adultos passaram de 72,6% em 2015 para 78,8% em 2022. A OPAS projeta que essa proporção poderá chegar a 87% até 2030. Esses números não demonstram que as políticas chilenas tenham fracassado. A obesidade resulta de múltiplos fatores, e é possível que as taxas tivessem crescido ainda mais sem as medidas adotadas. O que os dados mostram é algo mais específico. Reduzir a compra de determinados produtos não equivale, por si só, a demonstrar melhoria da dieta ou dos indicadores de saúde.
Os consumidores podem compensar a redução de um alimento aumentando o consumo de outro. Fabricantes podem reformular produtos sem alterar substancialmente a ingestão total de calorias ou nutrientes críticos. E políticas dirigidas aos alimentos embalados alcançam apenas parte do que as pessoas consomem, deixando de fora refeições preparadas em restaurantes e outros estabelecimentos de alimentação.
O próprio comportamento diante dos rótulos varia entre produtos e consumidores. Pesquisas sobre o sistema chileno encontraram mudanças significativas nas compras de algumas categorias, como sucos e cereais, mas pouco ou nenhum efeito sobre chocolates, doces e biscoitos. Outros estudos indicam que a atenção às advertências pode diminuir com o tempo, à medida que os consumidores se familiarizam com elas.
O Chile, portanto, oferece uma experiência mais complexa do que uma simples demonstração de sucesso ou fracasso dos rótulos. Sua trajetória mostra a necessidade de acompanhar toda a sequência da política nutricional, desde a classificação do alimento até a resposta do consumidor, as mudanças efetivas na dieta e, finalmente, os resultados de saúde.
Quando a ciência se torna política
Existe ainda uma questão econômica que merece atenção. Uma classificação federal de ultraprocessados poderá ter consequências muito maiores do que a nomenclatura utilizada em documentos oficiais. Dependendo de como for adotada, poderá influenciar compras institucionais, programas federais de alimentação, rotulagem e critérios para a utilização de benefícios do SNAP (Supplemental Nutrition Assistance Program).
Isso significa que a definição não será apenas uma escolha científica. Ela poderá estabelecer quais produtos serão tratados como prioritários ou indesejáveis em políticas públicas que alcançam milhões de pessoas. O Programa Nacional de Merenda Escolar, por exemplo, atende cerca de 30 milhões de crianças. O SNAP, por sua vez, alcança milhões de famílias de baixa renda. Uma classificação utilizada nesses programas produz efeitos econômicos sobre produtores, fabricantes, distribuidores e consumidores.
A questão ganha importância porque uma categoria que a FDA estima abranger aproximadamente 70% dos produtos embalados e mais de 60% das calorias consumidas pelas crianças é ampla demais para ser tratada como um conjunto homogêneo. Quanto maior o universo classificado como ultraprocessado, menor é a informação obtida pela simples classificação. É preciso saber quais produtos respondem por parcela relevante do consumo, em que quantidade são ingeridos, com que frequência e o que os consumidores colocam no lugar deles quando seu consumo diminui.
Também existe uma dimensão jurídica. A extensão das novas diretrizes a programas federais de alimentação e assistência pode produzir disputas sobre os limites da autoridade administrativa e sobre os critérios utilizados para restringir determinados produtos. A definição de alimentos ultraprocessados (UPF), portanto, poderá se tornar parte de uma discussão institucional mais ampla, na qual evidência científica, regulação e interesses econômicos estarão diretamente relacionados.
Uma política pode produzir consequências distributivas mesmo quando seus formuladores não tenham essa intenção. Ao privilegiar determinadas categorias alimentares e restringir outras, o Estado modifica incentivos econômicos. Por isso, quanto maior for o alcance regulatório de uma classificação, maior deve ser a exigência de evidência independente para sustentá-la.
O que a prudência exige
Qualquer definição de ultraprocessado destinada a orientar políticas públicas deveria considerar não apenas as características do produto, mas também seu padrão de consumo, sua frequência, sua quantidade e sua contribuição efetiva para a dieta.
Essa abordagem não elimina a utilidade da classificação. Ao contrário, pode torná-la mais informativa. Em vez de tratar todos os produtos enquadrados em uma categoria ampla como preocupações equivalentes, os formuladores poderiam concentrar a atenção naqueles que efetivamente representam parcela significativa da ingestão de açúcar, sódio, gordura saturada, calorias ou outros componentes relevantes para a saúde pública.
O movimento MAHA parte de uma preocupação que merece ser examinada seriamente. O padrão alimentar estadunidense apresenta problemas que justificam novas políticas e novas perguntas. O desafio está em transformar essa preocupação em recomendações que possam resistir ao exame da evidência científica.
A nova orientação nutricional de Kennedy e Rollins faz escolhas importantes ao elevar a proteína e a gordura animal e ao reduzir o espaço atribuído a determinados carboidratos e óleos vegetais. Algumas dessas escolhas estão apoiadas em argumentos científicos que permanecem objeto de controvérsia. Outras, como a redução do açúcar adicionado, encontram apoio mais amplo.
É justamente por isso que a definição de ultraprocessado merece ser construída com especial cuidado. Se a categoria for ampla demais, poderá reunir alimentos com padrões de consumo e implicações nutricionais muito diferentes. Se for utilizada como substituto da análise da dieta, poderá oferecer uma aparência de precisão maior do que aquela que a evidência permite.
A boa política nutricional começa pela ciência, mas precisa ir além da classificação. Deve acompanhar o que as pessoas realmente comem, como modificam seus hábitos diante das intervenções e se essas mudanças produzem melhores resultados de saúde. É nesse percurso, entre a definição de um alimento e seus efeitos concretos na vida das pessoas, que a nova política nutricional dos Estados Unidos terá de demonstrar seu valor.
Referências
American Heart Association. (2026). 2026 Dietary Guidance to Improve Cardiovascular Health: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation, 143(12), e1–e21. https://doi.org/10.1161/CIR.0000000000001234
Cardello, H. (2024). New Consumer Insights on Ultra-Processed Indulgent Foods: How Confectionery Products Are Different. Georgetown University McDonough School of Business, Business for Impact.
Natural Marketing Institute. (2021). Consumer Health & Nutrition Segmentation Study for the Portion Balance Coalition. Georgetown University McDonough School of Business, Business for Impact.
Taillie, L. S., Bercholz, M., Popkin, B. M., Rebolledo, N., Reyes, M., & Corvalán, C. (2024). Decreases in purchases of energy, sodium, sugar, and saturated fat 3 years after implementation of the Chilean food labeling and marketing law: An interrupted time series analysis. PLOS Medicine, 21(9), e1004463.
Matérias na Forbes
https://forbes.com.br/forbes-agro/2026/09/debate-sobre-ultraprocessados-nos-eua-desconsidera-o-que-os-americanos-comem/
