Blog do IFZ * | 13/09/2026
O Brasil vive mais um paradoxo entre a percepção das pessoas e os indicadores de desempenho econômico. De um lado, os indicadores de emprego e renda do trabalho estão em níveis historicamente mais elevados que no passado recente. De outro, a maior parte da população diz sentir o contrário. Por exemplo, a recente pesquisa Quaest encomendada pela Globo, mostrou que 66% dos eleitores – ou seja, 2 de cada 3 – afirmam que a renda não aumentou ou cresceu apenas o suficiente para acompanhar o custo de vida; e quase metade, 49%, avalia que a economia piorou no último ano. Como conciliar essa percepção com uma melhora objetiva de indicadores?

Uma melhora econômica real, mas não sentida na mesma proporção pelos eleitores
Os números não deixam dúvida sobre o avanço do mercado de trabalho. O rendimento médio real do trabalhador, que havia tocado o fundo da série histórica em 2021, na casa dos R$ 3.000, chegou a R$ 3.762 em julho de 2026. Um aumento substantivo de mais de 25% (ou ¼) em menos de 5 anos! Além disso, o desemprego recuou e a massa de rendimentos do país cresceu de forma consistente no mesmo período.
Isso significa que houve uma melhora real (ou condições de geração de emprego e renda dos trabalhadores. A percepção das famílias, porém, não depende apenas de quanto recebem pelo trabalho. Depende sobretudo de quanto “sobra” dessa renda, ou seja, a quantia que permanece disponível depois de pagar as despesas correntes e as dívidas, total ou parcial… E também da expectativa de evolução dos preços dos bens e serviços que fazem parte do orçamento familiar, incluído aí os gastos com alimentação, energia, transporte e aluguel, entre outros.
É essa diferença que ajuda a compreender por que uma melhora objetiva do mercado de trabalho pode coexistir com uma percepção ainda negativa da situação econômica. O desânimo das famílias não nasce de uma piora do emprego ou da renda. Ele acontece apesar da melhora desses indicadores porque existe uma percepção de que os preços dos produtos e serviços que pagam vão subir ainda mais.
Vários fatores contribuem para essa percepção negativa em relação ao futuro dos preços fundamentais do orçamento doméstico, a começar pelas incertezas geradas pelo processo eleitoral além das já internalizadas como a violência cotidiana, as guerras e o “super El Niño” que a cada dia que passa já mostra o pior que pode acontecer.
Quando a renda cresce, mas o orçamento continua apertado
Matéria recente do jornal O Globo mostrou que o consumo das famílias perdeu força no segundo trimestre de 2026, mesmo com o mercado de trabalho ainda aquecido. Algumas instituições financeiras já revisaram para baixo suas projeções de crescimento do PIB, hoje menos dos 2% que se esperava. Economistas ouvidos pela matéria atribuem a desaceleração à combinação de juros muito elevados, crédito cada vez mais restritivo e o alto nível de endividamento de grande parte das famílias.
Essa é uma peça importante do quebra-cabeça, mas não a única: é possível ganhar mais e, ainda assim, sobrar menos. O ponto central está na diferença entre a renda recebida e a renda efetivamente disponível. Uma família pode receber um salário maior em termos reais e, ainda assim, não perceber melhora se uma parcela crescente tiver que ser destinada ao pagamento das prestações vencidas e renegociação de débitos acumulados, mesmo se tiver um programa governamental que os ajude nesse processo.
O problema se torna ainda mais compreensível quando se considera a inflação acumulada no período. A família não compara apenas o rendimento de hoje com o de ontem. Ela compara os preços de antes com os preços que encontra atualmente no supermercado, no aluguel, no transporte, na energia e nos serviços, além das dívidas é claro! Uma elevação recente da renda pode representar um alívio temporário importante sem produzir, imediatamente, a sensação de recuperação da folga financeira perdida ao longo dos últimos anos.
A própria pesquisa Quaest ajuda a dimensionar essa percepção. Segundo o levantamento, 67% dos entrevistados afirmaram que os preços dos alimentos haviam aumentado no último mês, sem comparar com o aumento dos meses anteriores. Para quem administra um orçamento doméstico pressionado por dívidas, combinado com preços básicos que estão aumentando (ainda que num ritmo menor!) e compromissos financeiros para o futuro, faz com que o aumento da renda corrente seja percebido muito mais lentamente do que ele aparece nos dados estatísticos reais.

A pergunta que falta responder
Há, no entanto, uma pergunta essencial que raramente aparece nas análises sobre a desaceleração do consumo: como estariam essas mesmas famílias sem as políticas governamentais recentes de sustentação de renda?
(Entre elas se destacam a valorização do salário mínimo acima da inflação, os programas de transferência de renda, a renegociação de dívidas, a isenção do imposto de renda para as faixas mais baixas e o maior dinamismo do mercado de trabalho).
O impacto dessas medidas não é pequeno. Cerca de 62 milhões de brasileiros têm rendimentos referenciados no salário mínimo, 42 milhões diretamente, sendo 12,8 milhões recebendo exatamente um salário mínimo, e 29 milhões por meio de benefícios equivalentes a um salário mínimo. Caso a regra de reajuste apenas pela inflação, adotada no governo anterior, tivesse sido mantida, o salário mínimo hoje seria de R$ 1.474, R$ 147 a menos por mês e cerca de R$ 1.911 a menos por ano para cada beneficiário. Em termos agregados, isso representa uma diferença da ordem de R$ 75 bilhões por ano que poderiam ser injetados na economia.
Esses recursos não permanecem parados. Quando chegam às famílias de menor renda, uma parcela elevada tende a retornar rapidamente ao circuito econômico por meio do consumo de bens e serviços. O aumento da renda do trabalho produz efeito semelhante. Por isso, políticas de sustentação de renda podem ter simultaneamente uma dimensão social e uma dimensão macroeconômica. Elas protegem o orçamento das famílias e ajudam a sustentar a demanda. Esse mecanismo é particularmente relevante em um período no qual a política monetária atua em sentido contrário, restringindo crédito e consumo por meio de juros elevados.
É também por isso que a resistência da economia brasileira nos últimos anos não deveria ser atribuída apenas a fatores externos ou setoriais. A sustentação da renda das famílias ajudou a preservar uma parcela importante da demanda interna e contribuiu para que a atividade permanecesse mais forte do que muitas projeções antecipavam.
Mas o passivo que permanece
O fato de o consumo das famílias está agora perdendo força não significa necessariamente que essas políticas tenham deixado de funcionar. Pode também significar que elas estão atuando sobre um problema muito maior do que aquele que podem resolver isoladamente.
O endividamento das famílias, a inadimplência, os juros elevados e a perda acumulada de poder de compra não começaram com as medidas recentes de sustentação da renda. São problemas que se acumularam no país ao longo de anos de baixo crescimento e deterioração das condições econômicas e sociais, em um processo que se agravou depois da crise política de 2016. Apenas a partir de 2023, com a retomada do crescimento no governo Lula3, foi que os indicadores econômicos e sociais passaram a apresentar uma inflexão mais consistente.
Esse ponto é decisivo para a interpretação dos dados atuais. Se uma política eleva a renda das famílias e, mesmo assim, uma parcela expressiva delas continua financeiramente pressionada, isso não permite concluir que a política foi ineficaz. Também é possível que o problema inicial fosse tão profundo que a melhora produzida pela política ainda não tenha sido suficiente para restabelecer plenamente a capacidade de consumo e a confiança. A diferença entre essas duas interpretações é fundamental.
Três coisas verdadeiras ao mesmo tempo
A chave para compreender o momento brasileiro está em aceitar que três afirmações podem ser verdadeiras simultaneamente:
- o mercado de trabalho melhorou;
- mas essa melhora ainda não se converteu, na mesma proporção, em percepção das famílias sobretudo das mais pobres e endividadas;
- sem as políticas de sustentação de renda dos últimos anos, a situação dessas famílias seria muito pior.
Não há contradição entre essas afirmações. Elas descrevem dimensões diferentes do mesmo processo.
O rendimento médio real do trabalho, por exemplo, saiu de cerca de R$ 3.000 em 2021 para R$ 3.762 em julho de 2026. É uma recuperação expressiva de mais de 25% em menos de 5 anos. Mas uma família que acumulou dívidas durante anos pode usar parte desse ganho para recompor um orçamento deteriorado, pagar parcelas atrasadas ou reduzir compromissos financeiros. Nesse caso, o aumento da renda melhora efetivamente sua situação, mas não necessariamente produz aumento equivalente no consumo ou na sensação de bem-estar.
A diferença entre melhora da renda e recuperação da confiança no governo, portanto, pode ser explicada pela existência de um passivo financeiro e de um custo de vida elevado que ainda pesam sobre o orçamento doméstico.
O que os dados permitem concluir
É justamente nesse ponto que merece cautela a interpretação de que a desaceleração do consumo demonstraria o esgotamento das políticas públicas de estímulo ou apontaria necessariamente para a necessidade de uma correção fiscal mais dura.
Os dados apresentados mostram que o consumo perdeu força, é verdade! Mas mostram também que juros elevados, crédito restritivo e endividamento comprimem a capacidade de gasto das famílias. E mais importante: esses mesmos dados não demonstram que o problema tenha sido provocado por um excesso de gasto público, nem que a redução de despesas sociais seja a resposta necessária.
Há uma diferença importante entre identificar uma restrição econômica e definir a política adequada para enfrentá-la.
O equilíbrio fiscal é necessário sem dúvida. A revisão de despesas, a melhoria da eficiência do gasto público e o enfrentamento de privilégios e benefícios tributários também fazem parte de uma política fiscal responsável.
Mas a sustentabilidade das contas públicas não depende apenas de cortes. Ela depende também do crescimento econômico, da produtividade, da qualidade do gasto, da capacidade de investimento e do custo do serviço da dívida. Juros elevados, além de restringirem o crédito e comprimir o consumo das famílias, aumentam o custo financeiro para o próprio Estado.
Uma análise fiscal que considere apenas as despesas e deixe de lado esses outros componentes oferece uma visão incompleta do problema. Por isso, transformar a desaceleração do consumo em argumento automático por um ajuste fiscal severo seria ir muito além do que os dados permitem concluir.
O verdadeiro desafio
O Brasil não está diante de uma escolha binária entre responsabilidade fiscal e proteção social. A questão econômica é mais complexa e, ao mesmo tempo, mais concreta. É preciso aumentar a renda efetivamente disponível das famílias, enfrentar de forma estrutural o endividamento, preservar os ganhos do mercado de trabalho e, simultaneamente, elevar produtividade e crescimento.
Infraestrutura, ciência e tecnologia, industrialização e investimento fazem parte dessa agenda. Não apenas porque podem produzir ganhos sociais e econômicos, mas porque uma economia que cresce mais, produz mais e se torna mais produtiva amplia sua capacidade de arrecadação e melhora as condições de sustentabilidade fiscal.
A política de renda também deve ser compreendida dentro dessa equação. Ao preservar o poder de compra de milhões de famílias, ela ajuda a sustentar a demanda em uma economia submetida a forte restrição monetária. Seu resultado não deve ser avaliado apenas pelo quanto representa de despesa, mas também pelo efeito que produz sobre renda, consumo, atividade e arrecadação.
Isso ajuda a compreender por que a economia pode apresentar simultaneamente sinais de desaceleração e indicadores de renda do trabalho em níveis elevados. A recuperação existe, mas encontra pela frente um passivo financeiro e social que ainda pesa sobre o orçamento das famílias.
As pesquisas de opinião registram esse desconforto. Mas os indicadores do mercado de trabalho registram uma melhoria concreta. Os dois fatos podem coexistir. O que os dados realmente mostram é que a população ainda enfrenta dificuldades para transformar a melhoria da renda em maior folga financeira e confiança no futuro. Eles mostram também que juros, endividamento e custo de vida continuam restringindo esse processo.
O que os dados não demonstram, por si mesmos, é que a resposta deva ser um ajuste fiscal mais duro, especialmente quando isso significar enfraquecer mecanismos que sustentam a renda, o consumo e o investimento.
Essa já é uma escolha de política econômica. Não é uma conclusão inevitável dos números.
(*) Com contribuição de Gerson Teixeira
Fontes
Consumo das famílias frustra, e economistas já veem menor crescimento da economia no ano
https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/09/01/consumo-das-familias-frustra-e-economistas-ja-veem-menor-crescimento-da-economia-no-ano.ghtml
Preocupação com a economia: 66% dos eleitores dizem que renda não aumentou ou subiu tanto quanto custo de vida, diz Quaest
https://oglobo.globo.com/blogs/pulso/noticia/2026/09/02/preocupacao-com-a-economia-66percent-dos-eleitores-dizem-que-renda-nao-aumentou-ou-subiu-tanto-quanto-custo-de-vida-diz-quaest.ghtml
