Thiago Lima | 02/10/2026
Se tem um assunto que mexe com o eleitorado é o preço da comida.
Não é difícil entender por quê. Há uma diferença entre acompanhar a inflação pela mídia e chegar ao caixa do supermercado, olhar a soma e decidir o que será devolvido à prateleira. Para quem compra — ou manda comprar — de olhos fechados, a inflação dos alimentos pode parecer uma abstração. Para milhões de brasileiros, ela chega em forma de escolhas muito concretas. Levar a carne ou a fruta? O café ou o queijo? Completar o carrinho ou fazê-lo caber no bolso?
Quando alguns reais a mais no preço do arroz, do feijão, do óleo, da carne, do tomate ou da fruta significam menos comida na mesa, discutir inflação dos alimentos é discutir a vida cotidiana.
A resposta para esse problema pode ser encontrada, curiosamente, numa história de milhares de anos. José do Egito é lembrado sobretudo como o homem que interpretou o sonho do Faraó. Sua contribuição mais interessante para esta discussão, porém, veio depois da interpretação.
O sonho anunciava sete anos de fartura seguidos por sete anos de escassez: os famosos anos de “vacas gordas”, seguidos por anos de “vacas magras”. José não podia controlar o clima nem impedir a seca. Sua proposta foi outra: aproveitar os anos de abundância para formar estoques e preparar o Egito para os anos difíceis. E o Egito passou bem.
É uma ideia tão simples quanto poderosa. Um governo prudente não precisa – nem pode – controlar tudo o que acontece no mundo. Precisa reconhecer os riscos a que sua população está exposta e criar condições para que eles causem o menor dano possível.
No contexto atual, de inflação mundial de alimentos, um governo pode proteger sua população dos efeitos mais severos dessa alta. Para entender como isso funciona, precisamos olhar primeiro para as razões pelas quais os alimentos ficaram mais caros e instáveis. Depois, voltaremos a José e à pergunta que realmente interessa: o que deve fazer um governo quando vê adiante tempos de dificuldade alimentar?
Inflação de alimentos: um problema mundial
O problema não começou agora. Desde a grande crise mundial dos preços dos alimentos de 2007 e 2008, o mundo entrou numa era de maior volatilidade dos preços da comida. Tivemos uma nova onda de alta em 2010 e 2011. Depois vieram a pandemia, a guerra na Ucrânia, a alta do petróleo e dos fertilizantes, os problemas nas cadeias internacionais de comércio e, atravessando tudo isso, eventos climáticos extremos cada vez mais recorrentes e intensos: secas, cheias, geadas e ondas de calor.
O preço da comida passou a ser uma preocupação permanente em muitos países. Há uma explicação básica para isso. Preços dependem da relação entre oferta e demanda. Se há dez pacotes de arroz disponíveis para uma pessoa comprar, a pressão sobre os preços é uma. Se há dez pessoas querendo os mesmos pacotes, a pressão é outra.
Nas últimas décadas, centenas de milhões de pessoas no mundo deixaram de passar fome e conquistaram renda suficiente para melhorar sua alimentação. O Brasil, por exemplo, saiu duas vezes do Mapa da Fome: mais de 30 milhões de pessoas deixaram de dormir com a barriga vazia. Países da América Latina e da Ásia também tiveram avanços importantes. A África, infelizmente, não apresentou progresso semelhante.
Na China, a transformação foi ainda mais impressionante. O Banco Mundial estima que quase 800 milhões de chineses saíram da pobreza extrema nas últimas quatro décadas. Para dimensionar esse número, as populações somadas de Estados Unidos e Brasil chegam a cerca de 565 milhões de pessoas.
É muita gente. E que bom!
Quando uma família sai da pobreza extrema, uma parte importante da renda adicional vai para a alimentação. Primeiro, come mais. Depois, quer comer melhor. Em seguida, quer uma alimentação mais saudável. Quer carne, leite, ovos, frutas, verduras e outros alimentos que antes eram consumidos em quantidade insuficiente.
Multiplique isso por centenas de milhões de pessoas e temos uma transformação gigantesca na demanda mundial.
É importante, porém, não confundir aumento da demanda com falta absoluta de comida.
Não vivemos uma crise mundial simplesmente porque a produção de alimentos é insuficiente para alimentar a população. A produção agrícola mundial aumentou enormemente nas últimas décadas. Além disso, existe um espaço considerável para reduzir perdas e desperdícios de alimentos.
O desafio está em produzir, diversificar, transportar, armazenar, distribuir e vender alimentos em quantidade suficiente e a preços que permitam às pessoas comprá-los.
E há outra dimensão importante. Não basta haver calorias. É preciso haver alimentação adequada, saudável.
Quando a demanda por alimentos básicos cresce, a produção não consegue responder instantaneamente. É preciso plantar, colher, armazenar e transportar. Leva tempo.
Ao mesmo tempo, pode diminuir o incentivo para produzir alimentos mais diversificados, como frutas, verduras e legumes, justamente aqueles que fornecem micronutrientes e vitaminas importantes. No Brasil, parte significativa dessa diversidade é produzida pela agricultura familiar, enquanto o grande agronegócio tende a se concentrar em menos culturas.
Há ainda os problemas ambiental e geopolítico.
A expansão de determinadas commodities está associada ao desmatamento e à dependência de fertilizantes e outros insumos importados. Se a moeda brasileira se desvaloriza diante do dólar, esses custos aumentam. Uma guerra pode destruir lavouras e rebanhos, interromper rotas comerciais ou dificultar a produção e o transporte de fertilizantes. Uma seca ou uma inundação pode comprometer uma safra. O petróleo mais caro encarece o diesel, o transporte e diversos insumos agrícolas. Guerras comerciais abalam o comércio internacional e ampliam as incertezas, que os especuladores financeiros estão prontos para aproveitar. Tarifaços também podem elevar os custos e pesar especialmente sobre as famílias de menor renda.
Há, portanto, muitas coisas que um governo não controla. Mas isso não significa que ele está de mãos atadas.
A sabedoria de José
José não podia impedir os sete anos de seca. Podia, porém, preparar o Egito para atravessá-los.
Essa diferença ajuda a compreender o papel de um governo diante de um mundo instável.
Um governo pode manter ou desmontar estoques públicos. Pode estimular ou abandonar determinadas culturas. Pode facilitar ou dificultar a importação de alimentos quando há escassez. Pode criar mecanismos para proteger produtores e consumidores. Pode financiar e incentivar a agricultura familiar por meio da reforma agrária ou favorecer a concentração de terras para a produção de poucos tipos de grãos. Pode investir na produção nacional de fertilizantes ou simplesmente fechar fábricas estatais e ampliar a dependência externa.
Pode fortalecer ou enfraquecer programas de compras públicas, que fornecem alimentos gratuitos ou subsidiados para crianças e estudantes de escolas públicas. Pode reduzir impostos sobre alimentos saudáveis e sobretaxar ultraprocessados. Pode tratar o abastecimento interno como questão estratégica ou deixar que as oscilações internacionais tenham influência decisiva sobre as escolhas nacionais.
Nenhuma dessas medidas controla a chuva, o clima ou uma guerra.
Elas podem, contudo, determinar quanto uma família brasileira sofrerá quando essas forças produzirem um choque sobre os preços. Essa é a lógica de José. Aproveitar a abundância para construir proteção contra a escassez.
O problema não é apenas quanto custa a comida
Cada vez mais, as calorias mais baratas vêm dos ultraprocessados, normalmente produzidos a partir de poucos tipos de grãos e cereais. Frutas, legumes, verduras, castanhas e outros alimentos ricos em vitaminas e micronutrientes costumam custar muito mais.
Uma sociedade pode, portanto, ter comida em abundância e ainda assim ter uma alimentação inadequada.
Para uma família de baixa renda, essa diferença é decisiva. Quando o dinheiro aperta, reduz-se a quantidade ou a variedade de carnes, frutas e verduras e aumenta-se o consumo de alimentos que fornecem muitas calorias por pouco dinheiro. O resultado pode ser uma alimentação suficiente em calorias, mas insuficiente em nutrientes.
Hoje está claro que uma dieta deficiente em alimentos nutritivos está associada a uma série de problemas de saúde. O consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, mais baratos e calóricos, contribui para o aumento de doenças crônicas como obesidade, diabetes e hipertensão.
Por isso, quando falamos de inflação dos alimentos, não estamos falando apenas do preço da cesta básica. Estamos falando também da qualidade da alimentação que a renda das famílias consegue comprar.
Aqui o Brasil tem algo a comemorar. Apesar da alta persistente dos alimentos, o baixo desemprego e as políticas públicas contribuíram para que, entre 2021 e 2025, 20 milhões de brasileiros a mais tivessem condições de acessar uma alimentação saudável, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, a FAO.
Isso também é política de abastecimento.
A prudência como princípio
A história de José cabe, aqui, em poucas linhas. Diante da previsão de sete anos de fartura seguidos por sete anos de escassez, ele convenceu o Faraó a armazenar parte da produção durante os anos bons. Quando vieram os anos difíceis, o Egito tinha reservas para atravessá-los.
A lição é simples. É impossível controlar a seca, mas, com vontade política, é possível preparar-se para seus efeitos. Imbuído dessa vontade, José transformou uma previsão de escassez em uma política de prevenção.
É essa capacidade de antecipação que importa quando pensamos em segurança alimentar e nutricional no atual contexto de inflação mundial de alimentos.
Nesse cenário, qual projeto de país se parece mais com o de José do Egito, ou seja, com o de um governante prudente?
Alguns exemplos são facilmente verificáveis:
| Projeto Relapso | Projeto Prudente |
| Não repor estoques e tentar vender armazéns públicos do Brasil | Reconstruir os estoques públicos de alimentos e ampliar os armazéns da Conab |
| Acabar com o Ministério da Agricultura Familiar (MDA) | Recriar o MDA e incentivar a produção diversificada da agricultura familiar |
| Incentivar o desmatamento da Amazônia para produzir soja e gado | Diminuir o desmatamento e apoiar a agricultura familiar com crédito subsidiado e compras públicas |
| Ser contrário à reforma agrária, à demarcação de terras indígenas e de quilombos | Retomar a reforma agrária e demarcar terras indígenas e quilombos |
| Deixar de reajustar o repasse do Programa Nacional de Alimentação Escolar | Reajustar o repasse da alimentação escolar e aumentar de 30% para 45% as compras da agricultura familiar |
| Deixar o país voltar ao Mapa da Fome | Liderar duas saídas do Mapa da Fome |
A diferença entre os dois projetos está na maneira de lidar com o futuro. Essa diferença aparece nas escolhas sobre estoques, diversidade produtiva, agricultura familiar, produção nacional de fertilizantes (O Brasil importa mais de 85% dos fertilizantes que consome!) e compras públicas. São decisões que podem parecer secundárias quando os preços estão estáveis, mas ganham outra dimensão quando uma guerra, uma seca ou uma crise internacional altera o custo dos alimentos.
O Brasil, por exemplo, conseguiu conter os preços internos dos combustíveis durante a atual guerra entre Estados Unidos e Irã. No terceiro governo Lula, os alimentos também subiram menos do que no governo passado: o Índice de Preços de Alimentação e Bebidas acumulou 31,0% nos três primeiros anos do governo Bolsonaro, contra 12,0% entre 2023 e 2025.
Nós, eleitoras e eleitores, não somos Faraós. Mas podemos escolher quem pensa além do presente e prepara o país para o que pode vir.
Em quem José votaria?
Thiago Lima é Professor e Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Fome e Relações Internacionais e membro do Instituto Fome Zero.
