Quem alimenta o mundo também precisa de trabalho digno

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Blog do IFZ | 07/10/2026

Os sistemas alimentares empregam quase 1,4 bilhão de pessoas — dois em cada cinco trabalhadores do mundo. Apesar de sua importância para a sobrevivência humana, a segurança alimentar e a preservação dos ecossistemas, essa mão de obra está entre as mais exploradas do planeta. Essa é a principal conclusão de “O trabalho que alimenta: a exploração das pessoas que trazem a comida à nossa mesa”, novo relatório do Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Alimentares Sustentáveis (IPES-Food), elaborado com apoio da Rosa-Luxemburg-Stiftung.

Segundo o estudo, cerca de 416 milhões de trabalhadores do setor alimentício recebem menos do que seria uma remuneração decente. Na agricultura, aproximadamente 90% dos empregos são informais, enquanto em outras atividades da cadeia alimentar a informalidade varia entre 60% e 80%. Sem vínculos formais, milhões de pessoas ficam privadas de previdência, assistência à saúde, representação sindical e proteção contra acidentes.

Os riscos atravessam toda a cadeia, das propriedades rurais aos frigoríficos, restaurantes, supermercados e plataformas de entrega. A agricultura responde por cerca de um terço das mortes no trabalho registradas mundialmente, mas 80% da mão de obra agrícola nunca recebeu treinamento em segurança. O relatório também aponta que 83 milhões de crianças trabalham na agricultura, representando 61% do trabalho infantil global. Outros 2,1 milhões de trabalhadores estariam submetidos ao trabalho agrícola forçado.

As mulheres, os migrantes e as minorias raciais e étnicas são afetados de maneira desproporcional. Os migrantes representam cerca de um quarto da mão de obra rural mundial e enfrentam maior exposição ao roubo de salários, acidentes, discriminação e trabalho forçado. Sistemas migratórios que vinculam a autorização de permanência a um único empregador dificultam denúncias, pois abandonar uma situação abusiva pode significar desemprego ou deportação.

O IPES-Food identifica seis fatores estruturais por trás dessa exploração: discriminação de gênero, raça e classe; políticas migratórias coercitivas; concentração empresarial; tecnologias digitais utilizadas para controle e precarização; agravamento dos riscos pela crise climática; e legislações insuficientes ou mal fiscalizadas.

O relatório contesta ainda a ideia de que melhores salários tornariam os alimentos necessariamente mais caros. O problema central estaria na distribuição desigual do valor nas cadeias, dominadas por grandes empresas e intermediários que comprimem salários enquanto protegem suas margens. Garantir simultaneamente alimentos acessíveis e remuneração justa exige políticas públicas que redistribuam poder, custos e lucros.

Mensagens principais

  • Quem alimenta o mundo deve ter trabalho seguro, protegido e adequadamente remunerado.
  • A exploração laboral é uma característica estrutural dos atuais sistemas alimentares.
  • Sindicatos e negociação coletiva precisam ser fortalecidos em toda a cadeia.
  • Trabalhadores migrantes devem ter os mesmos direitos, independentemente de sua situação migratória.
  • Empresas líderes precisam responder pelas violações ocorridas em suas cadeias de produção.
  • Trabalho decente e alimentos acessíveis não são objetivos incompatíveis.
  • Valorizar o trabalho agroalimentar é condição indispensável para sistemas alimentares justos, saudáveis e sustentáveis.

Baixe aqui o documento “O trabalho que alimenta: a exploração das pessoas que trazem a comida à nossa mesa“

ou veja o relatório, em inglês, no site do iPES FOOD https://ipes-food.org/report/food-work/