A insegurança alimentar em nível de emergência atingiu seu patamar mais elevado desde 2021, e quase nove em cada dez pessoas afetadas vivem em um pequeno grupo de países devastados por conflitos.
Por Quratulain Akram, na GeoNews | 12/10/2026
O mundo produz alimentos em quantidade suficiente, mas, em 2025, 37,4 milhões de pessoas estavam na Fase 4 da Classificação Integrada da Segurança Alimentar em Fases (IPC, na sigla em inglês). Esse é o nível de emergência da insegurança alimentar, no qual as famílias enfrentam déficits extremos no consumo de alimentos, desnutrição muito elevada e aumento das mortes. O número é o mais alto desde 2021, quando o total atingiu o pico de 39,2 milhões. Segundo o World Food Program USA, ele também é mais de 2,5 vezes superior aos 14,5 milhões registrados em 2016.
Os números absolutos, porém, contam apenas parte da história. A fome está cada vez mais concentrada em menos lugares. Em 2025, 85,7% das pessoas na Fase 4 viviam em países incluídos na chamada lista de observação, ante 78,6% no ano anterior. Isso representa 32 milhões de pessoas, contra apenas 5,4 milhões no restante do mundo.

A tendência mais alarmante aparece no topo da escala. O número de países com populações na Fase 5 do IPC — a categoria de catástrofe — triplicou entre 2016 e 2025, passando de dois para seis: Haiti, Mali, Gaza, Sudão do Sul, Sudão e Iêmen. Juntos, esses países concentravam cerca de 1,41 milhão de pessoas em situação de fome catastrófica em 2025.
A distribuição é reveladora. Gaza, com cerca de 641 mil pessoas, e o Sudão, com aproximadamente 637 mil, respondiam por quase 90% do total. O Sudão do Sul vinha em seguida, com 83 mil pessoas; depois, o Iêmen, com 41 mil; o Haiti, com 8.400; e o Mali, com 2.600.
A mais recente análise de alerta precoce da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e do Programa Mundial de Alimentos (PMA) identifica 13 pontos críticos de fome até novembro de 2026. Em 12 deles, os conflitos armados são um dos principais fatores determinantes. No Sudão, 14 áreas estão sob risco de fome, enquanto outras 15 abrigam populações em risco de enfrentar condições catastróficas. Neste ano, a Nigéria passou a integrar a categoria de maior preocupação, com condições alarmantes no estado de Borno. Na Somália, o distrito de Burhakaba foi incluído na lista após uma estação chuvosa malsucedida e a alta dos preços.

José Graziano da Silva, ex-diretor-geral da FAO, argumentou, em sua análise intitulada Alimentos sob ataque: rompendo o ciclo vicioso entre conflito e fome (Food Under Fire: Breaking the Vicious Cycle of Conflict and Hunger) , que o mundo já não carece de informações. Dados de satélite, monitoramento de mercados e sistemas de alerta precoce já existem. Dez anos depois de o Conselho de Segurança da ONU ter abordado a questão pela primeira vez e oito anos após a Resolução 2417 condenar o uso da fome como método de guerra, afirma ele, a falha está na aplicação de medidas preventivas e na incapacidade de agir a tempo. Em Gaza e no Sudão, observa Graziano, a destruição dos sistemas alimentares e os obstáculos à ajuda humanitária fizeram da fome uma arma cada vez mais explícita.
Surge, então, outro problema associado: o colapso do financiamento. Entre 2022 e 2025, a assistência humanitária destinada à área de alimentação em países em crise caiu cerca de 59%, retornando aos níveis de 2016 e 2017. Segundo a Associated Press (AP), o governo Trump encerrou cerca de 83% dos programas globais da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID). A Reuters informou que importantes contratos de assistência alimentar emergencial, dos quais dependiam milhões de pessoas em regiões como Afeganistão, Síria, Iêmen e Sudão, além de diversos campos de refugiados no Quênia e na Tailândia, foram abruptamente reduzidos ou cancelados. As rações sofreram cortes drásticos, cozinhas comunitárias foram fechadas e a fome aguda aumentou.
Desde então, a proporção de pessoas que enfrentam fome aguda dobrou. Em junho de 2026, apenas um terço das necessidades humanitárias globais havia recebido financiamento. As agências de ajuda humanitária estavam priorizando 87 milhões de pessoas para receber assistência vital, de um total de 135 milhões de pessoas contempladas pelas metas de atendimento.
Os cortes também afetam a produção de dados. O número de entrevistas realizadas pelo PMA em suas pesquisas caiu de 1,1 milhão para 800 mil. Diversas análises, inclusive as pesquisas domiciliares do organismo — principais levantamentos de campo utilizados para acompanhar famílias vulneráveis e avaliar tendências da segurança alimentar — passaram de duas rodadas por ano para apenas uma. O número de escritórios nacionais com monitoramento ativo em tempo real despencou de 35, em 2022, para apenas 18. Isso torna mais difícil identificar onde a próxima crise está se formando.
Em 2026, três fatores — conflitos e energia, El Niño e inflação — estão agravando a crise estrutural. As perturbações na região do Estreito de Ormuz, por onde transitavam cerca de um quinto do petróleo mundial e um terço do comércio de fertilizantes, elevaram os preços dos combustíveis em 40% em um único mês, em março. Os preços da ureia subiram quase 46% entre fevereiro e março. Economias dependentes de importações, como Iêmen, Líbano, Somália e Mianmar, estão absorvendo esses custos por meio de preços mais altos dos alimentos e do encarecimento do transporte aéreo de mercadorias.
Também se espera que o El Niño se intensifique no início de 2027, aumentando a probabilidade de secas na África Austral e no Sahel e de inundações em partes da África Oriental e da Ásia Central. A atualização de setembro do Global Crop Monitor alerta para chuvas irregulares e calor extremo, cujos impactos dependerão da capacidade de cada país de responder.
Esses dados apontam para conclusões incômodas.
Primeiro, a fome é hoje, sobretudo, um problema político: é instrumentalizada nos conflitos e usada como instrumento de pressão geopolítica. Nas zonas de conflito contemporâneas, raramente é uma consequência inevitável da guerra. É um resultado produzido deliberadamente, impulsionado por estratégias políticas e pelo uso intencional da fome como arma.
Segundo, a fome catastrófica é também um fracasso em agir a tempo. A FAO e o PMA enfatizam que as crises de fome contemporâneas são quase sempre previsíveis e evitáveis e que agir nas Fases 3 ou 4 custa muito menos do que responder depois de uma declaração formal de fome. Ainda assim, o financiamento segue na direção oposta.
Terceiro, a concentração da fome tem dois lados. Como ela se concentra em algumas dezenas de lugares, ações direcionadas podem funcionar. Fazer cumprir o direito internacional humanitário, proteger os meios de subsistência juntamente com a oferta de ajuda alimentar e assegurar financiamento antecipatório, acionado automaticamente pelos alertas precoces, são medidas capazes de melhorar a situação — se os governos assim decidirem.
Publicado originalmente na GeoNews
https://www.geo.tv/latest/686204-hunger-is-getting-deeper-deadlier-and-more-concentrated
