Na Fundação Banco do Brasil, Graziano destaca conquistas e próximos passos para garantir alimentação saudável

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Blog do IFZ | 23/10/2026

O enfrentamento da fome exige continuidade das políticas públicas e compromisso permanente com o direito à alimentação adequada. Essa foi a mensagem central da participação de José Graziano da Silva, diretor do Instituto Fome Zero (IFZ), em palestra promovida pela Fundação Banco do Brasil em 23 de outubro de 2026. Com o tema “Segurança alimentar: conquistas e próximos passos”, a apresentação relacionou a trajetória brasileira aos desafios de garantir acesso a alimentos saudáveis.

Realizado online, o encontro integrou as atividades da Fundação em celebração ao Dia Mundial da Alimentação, comemorado em 16 de outubro. A iniciativa fez parte do Plano de Desenvolvimento da Cultura de Integridade da instituição, aproximando a reflexão sobre segurança alimentar de seu compromisso com a promoção de direitos, da cidadania e do desenvolvimento sustentável.

Em sua palestra, Graziano apresentou uma leitura das conquistas brasileiras e das condições necessárias para preservá-las. “O Brasil mostrou que enfrentar a fome é uma escolha política”, destacou a apresentação. A experiência do Fome Zero demonstra a importância de conectar proteção de renda, produção de alimentos, abastecimento e participação social.

Uma construção histórica e coletiva

A exposição recuperou antecedentes fundamentais dessa trajetória. Das pesquisas de Josué de Castro sobre alimentação e condições de vida dos trabalhadores à mobilização de Betinho contra a fome, o Brasil acumulou conhecimentos, experiências e formas de organização social que ajudaram a construir suas políticas de segurança alimentar.

O lançamento do Projeto Fome Zero, em 2001, e sua implementação como estratégia de governo, em 2003, deram escala e articulação a essa agenda. Transferências de renda passaram a integrar uma arquitetura mais ampla, envolvendo agricultura familiar, compras públicas, alimentação escolar e equipamentos de acesso à alimentação, como restaurantes populares e cozinhas comunitárias.

“Fome Zero: uma estratégia de políticas articuladas”, sintetizou um dos slides. Nessa abordagem, o Bolsa Família integra um conjunto de instrumentos que precisam funcionar de maneira coordenada. A retomada do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, o Consea, fortaleceu a participação da sociedade na formulação e no acompanhamento das políticas.

Graziano também situou a Fundação Banco do Brasil nessa construção. A apresentação reconheceu sua contribuição por meio das tecnologias sociais, da inclusão socioprodutiva e do fortalecimento dos territórios. Destacou a atuação conjunta com o Fome Zero e o apoio à agroecologia, às redes produtivas e a soluções comunitárias de acesso à água e geração de renda.

Sair do Mapa e sustentar os resultados

A trajetória brasileira mostra tanto a possibilidade de reduzir a fome quanto os riscos de retrocesso. A apresentação recuperou a primeira saída do Brasil do Mapa da Fome, anunciada em 2014, o retorno posterior e a nova saída divulgada em 2025. Ressaltou também que estar fora do Mapa não significa ausência de fome: o indicador corresponde a um limiar estatístico de subalimentação.

“Sair do Mapa da Fome é uma conquista importante, mas não é o fim da jornada”, registrou a apresentação. Persistem desigualdades territoriais e dificuldades de acesso à alimentação que exigem respostas específicas. No Brasil, os dados apresentados apontam maior incidência de insegurança alimentar grave nos domicílios das regiões Norte e Nordeste.

Dessa experiência decorre uma lição institucional: “Políticas precisam de proteção institucional para atravessar mudanças de governo”. Ao mesmo tempo, a capacidade acumulada nos serviços públicos e nas organizações sociais permite reconstruir respostas. Preservar essa capacidade é essencial para impedir que avanços sejam perdidos diante de crises econômicas ou mudanças de prioridade.

O desafio da alimentação saudável

A palestra ampliou o debate para a qualidade da alimentação. As estimativas globais reunidas nos slides mostram que bilhões de pessoas ainda não conseguem pagar por uma dieta saudável. O custo de frutas, hortaliças e outros alimentos necessários a uma alimentação adequada restringe as escolhas das famílias de menor renda.

“Apenas calorias baratas não compõem uma boa dieta”, destacou Graziano na apresentação. O avanço dos ultraprocessados precisa ser compreendido também pelo espaço que esses produtos retiram dos alimentos in natura, dos feijões e das refeições tradicionais. Preços, publicidade, disponibilidade e tempo para cozinhar influenciam esse processo.

A expansão da obesidade reforça a necessidade de políticas que transformem os ambientes alimentares. A alimentação escolar recebeu destaque por combinar acesso a refeições saudáveis com compras da agricultura familiar. Essa conexão pode melhorar a alimentação dos estudantes, fortalecer produtores locais e estimular uma produção mais diversificada.

Tecnologias sociais e proteção antes das crises

A apresentação apontou caminhos concretos de atuação, incluindo agroecologia, assistência técnica e acesso a mercados. Destacou o Programa Ecoforte e a Produção Agroecológica Integrada e Sustentável, o PAIS, como referências para aproximar inclusão produtiva e sustentabilidade. Também abordou os bioinsumos, ressaltando a importância da qualidade, da biossegurança e da orientação técnica.

Outro eixo foi a proteção social antecipatória, agenda desenvolvida pelo IFZ em parceria com o Instituto Internacional para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (IIED), com apoio da Comic Relief. A proposta conecta alertas climáticos, cadastros sociais e financiamento previamente pactuado para proteger as famílias antes dos impactos de secas e enchentes.

Ao reunir memória, políticas públicas e novos desafios, a participação de Graziano reforçou a necessidade de transformar conquistas em garantias duradouras. A mensagem final da apresentação resume esse compromisso: “Sair do Mapa é uma conquista. Garantir o direito humano à alimentação adequada é uma tarefa permanente”.

Baixe aqui a apresentação “Segurança Alimentar: conquistas e próximos passos”