Blog do IFZ | 12/04/2026
O estudo Percepção do ambiente alimentar e disponibilidade de alimentos não processados e ultraprocessados nos lares de crianças em idade escolar brasileiras durante a pandemia da COVID-19 (Perception of the Food Environment and Availability of Unprocessed and Ultra-Processed Foods in the Households of Brazilian Schoolchildren During the COVID-19 Pandemic) recém publicado na revista International Journal of Environmental Research and Public Health por Irene Carolina Sousa Justiniano, Raquel de Deus Mendonça, Priscila Pena Camargo, Adriana Lúcia Meireles e Mariana Carvalho Menezes, traz uma evidência importante para o debate sobre segurança alimentar no Brasil: aquilo que as famílias percebem em seu entorno — variedade, qualidade, facilidade de acesso e preço dos alimentos — influencia diretamente o que estará disponível dentro de casa. Em plena pandemia de Covid-19, quando renda, abastecimento e alimentação escolar sofreram forte impacto, essa relação tornou-se ainda mais visível.
A pesquisa ouviu, por telefone, 475 domicílios de estudantes da rede pública de Ouro Preto e Mariana, em Minas Gerais, entre março e maio de 2021. O objetivo foi entender como a percepção do ambiente alimentar dos bairros se associava à presença, nos lares, de alimentos in natura ou minimamente processados e de produtos ultraprocessados. O resultado é eloquente: enquanto apenas 7,4% dos domicílios apresentaram alta disponibilidade de alimentos in natura ou minimamente processados, nada menos que 92,6% tinham alta disponibilidade de ultraprocessados.
O estudo mostra que os ultraprocessados estavam mais presentes justamente onde eram percebidos como fáceis de comprar e amplamente disponíveis. Já a percepção de maior variedade de frutas e verduras no bairro apareceu associada a uma menor chance de alta disponibilidade de ultraprocessados dentro de casa. Em outras palavras, quando o território oferece mais condições de acesso a alimentos frescos, isso pode ajudar a conter a centralidade dos produtos ultraprocessados na alimentação cotidiana.
Os achados também reforçam que o problema não é apenas individual, nem se resolve com informação nutricional isolada. Durante a pandemia, a perda de renda, o encarecimento dos alimentos saudáveis e a interrupção das aulas presenciais agravaram a vulnerabilidade alimentar. Muitas famílias passaram a depender mais de produtos baratos, duráveis e prontos para consumo, embora piores do ponto de vista nutricional. O trabalho mostra, assim, que o ambiente alimentar também é um reflexo das desigualdades sociais.
Ao discutir políticas públicas, as autoras apontam caminhos coerentes com o debate atual: ampliar a oferta e a distribuição de alimentos frescos; fortalecer circuitos curtos, feiras e equipamentos de abastecimento; garantir acesso econômico a frutas e hortaliças e, ao mesmo tempo, enfrentar a onipresença dos ultraprocessados. Programas de proteção social e a alimentação escolar também aparecem como peças decisivas para proteger o direito humano à alimentação adequada e saudável, sobretudo em contextos de crise.
Mensagens principais
- Estudo de Irene Carolina Sousa Justiniano e coautoras mostra que a percepção do ambiente alimentar influencia a disponibilidade de alimentos nos lares.
- Em domicílios de escolares da rede pública de Ouro Preto e Mariana, a alta disponibilidade de ultraprocessados chegou a 92,6%.
- Apenas 7,4% dos lares tinham alta disponibilidade de alimentos in natura ou minimamente processados.
- Maior percepção de variedade de frutas e verduras no bairro esteve associada à menor presença de ultraprocessados em casa.
- O estudo reforça que políticas de abastecimento, proteção social e alimentação escolar são centrais para promover ambientes alimentares mais saudáveis.
Referência: JUSTINIANO, Irene Carolina Sousa et al. Perception of the Food Environment and Availability of Unprocessed and Ultra-Processed Foods in the Households of Brazilian Schoolchildren During the COVID-19 Pandemic. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 23, n. 3, art. 373, 2026.
Baixe aqui o estudo “Perception of the Food Environment and Availability of Unprocessed and Ultra-Processed Foods in the Households of Brazilian Schoolchildren During the COVID-19 Pandemic“
